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Violência

A Colômbia do Pará

A 50 quilômetros de Belém, na enseada que fica na foz do rio Pará, ponto estratégico de passagem para o rio Amazonas, dois municípios podem ser chamados de Colômbia paraense. Mais antigo com esse título, Abaetetuba sempre foi rota intermediária do contrabando. O que vinha do interior do Estado (cacau e café principalmente) e o que era importado através da Guiana Francesa e Paramaribo (antiga Guiana Holandesa), desde automóvel americano até perfume francês ou sandália japonesa.
Esse tipo de contrabando ainda é praticado, mas diminuiu bastante desde que foi combatido com maior intensidade pelos militares com o golpe de 1964. O contrabando era a principal fonte de renda clandestina e de recursos para o caixa dois dos políticos. Em especial os do PSD, liderados pelo caudilho “tenenetista” Magalhães Barata, a maior fonte de poder durante 30 anos até a entronização dos coronéis Jarbas Passarinho e Alacid Nunes no topo do mando. Para quebrar essa estrutura, os “novos turcos” quebraram sua espinha dorsal; o fluxo de dinheiro “não contabilizado”.
O contrabando tradicional foi sendo progressivamente substituído pelo tráfico de drogas. A princípio para consumo interno. Em seguida, para exportação – dentro e fora do país, atraindo estrangeiros, à frente os colombianos, mas também alguns holandeses e surinameses. A economia informal e a economia do crime se fundiram e se espraiaram de Abaetetuba para a vizinha Barcarena. Esta última cresceu muito a partir do final do regime militar, na primeira metade dos anos 1980.
Barcarena serviu de abrigo para alguns dos “grandes projetos” concebidos durante a ditadura pela tecnoburocia federal para transformar a Amazônia numa usina de dólares, no que acabou se tornando. O Pará é o segundo Estado que mais fornece divisas ao Brasil e o principal exportador do produto nacional mais vendido no comércio exterior, o minério de ferro extraído da Serra dos Carajás, o melhor do mercado.
Barcarena é a sede da Alunorte, a maior fábrica de alumina do mundo, e da Albrás, a oitava maior planta de alumínio do planeta, que usa a alumina como insumo para a fundição do metal primário, exportado principalmente para o Japão. Os japoneses são sócios nas duas, mas o controlador agora é a norueguesa Norsk Hydro, que substituiu a Vale.
Barcarena também possui duas das maiores fábricas de caulim, uma argila com diversos fins, sobretudo para papeis especiais. E tem portos de grande porte, em ampliação ou construção, para o embarque desses produtos e de soja. O movimento de navios interoceânicos é constante. Hoje é uma das maiores concentrações de atividades produtivas destinadas à exportação do país. Tudo commodities.
O cenário se tornou propício para o tráfico, de drogas ou mesmo humano. O comércio ilícito cresce à sombra dos negócios abertos. O crime ficou rotineiro, apesar da sua gravidade. Envolve um contingente inacreditavelmente grande de habitantes locais e é praticado à plena luz do dia. Talvez por isso não merecer atenção denúncia feita por um morador da região. Segundo ele, colombianos teriam montado um esquema de distribuição de drogas na ilha Machadinho, no arquipélago do Marajó, um dos mais atrativos destinos turísticos da Amazônia.
Esta foi a principal denúncia que Denis Dias Alves fez ao promotor (hoje procurador) Nelson Medrado, quando ele coordenava o Núcleo de Combate à Improbidade Administrativa e Corrupção do Ministério Público do Estado. No seu pedido de instauração de inquérito, Denis relatou vários outros fatos graves e apontou o próprio irmão, Denilson Dias Alves, como “chefe do crime organizado no Estado do Pará e responsável por homicídio qualificado, furto qualificado, formação de quadrilha, corrupção ativa, tráfico de drogas, crimes do sistema nacional de armas e latrocínio”. Denilson foi executado com quatro tiros no final de julho, em Barcarena, quando circulava com a esposa de motocicleta pela cidade. Seu irmão diz que por ter feito essas denúncias, está sendo perseguido, inclusive através de “monitoramento eletrônico para controlar sua mente”, que atribui a sua família e membros do MP estadual.
Diante da gravidade e da complexidade das acusações, Denis juntou ao seu pedido provas de não ser doente mental nem dependente químico, acusações feitas contra ele também pelos próprios pais, e que está “de posse de seu juízo de realidade. Pode assim responder por seus atos, sendo capaz de manter seu sustento e cuidados autonomamente”.
No entanto, Nelson Medrado deixou de receber o pedido por não serem os crimes alegados da sua competência e sim “de atribuição investigatória dos organismos especializados em crimes tecnológicos e organizações criminosas”. Assim, em junho, devolveu os autos para a Procuradoria Geral de Justiça e o seu encaminhamento “ao órgão com atribuição de determinar as investigações criminais necessárias”.
O assunto pode ser simplesmente mandado para o arquivo, por falta de credibilidade da fonte, ou percorrer os trâmites legais, geralmente incertos e não sabidos. É muito perigoso mexer com questões da Colômbia paraense.

Discussão

9 comentários sobre “A Colômbia do Pará

  1. Meu querido Lucio, lamento que uma região tão bonita e de onde guardo tantas boas lembranças esteja sendo alvo dessa onda de criminalidade tão intensa. De fato, a realidade do Baixo Tocantis tornou-se preocupante em tão pouco tempo. Lúcio, obrigada por lembrar dessa região que guardo no meu coração e de onde me sinto parte, duplamente. A despeito disso tudo, não desistirei do meu projeto ribeirinho. Parabéns pelo blog!!!!

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    Publicado por Marilene Pantoja | 29 de agosto de 2014, 17:50
  2. Lúcio, sucesso em mais esta frente de batalha. Coragem e ânimo renovados! O jornalismo e a sociedade agradecem. Socorro Costa

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    Publicado por Socorro Costa | 29 de agosto de 2014, 17:55
  3. Caro Lúcio.
    Passei parte da infância em Abaetetuba. Tempos românticos da indústria de cachaça e regatão, Contrabando, não lembro. Voltei depois de mais de 50 anos. Abaetetuba, que não era bonita, porém muito aprazível, ficou mais feia, ótima para o corredor de tráfico de drogas.

    José Otávio Figueiredo

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    Publicado por José Otávio Figueiredo | 29 de agosto de 2014, 18:38
  4. Em primeiro lugar é com satisfação que veja um novo blog do jornalista Lúcio Flávio Pinto nas redes sociais. Isso torna possível às pessoas que não moram em Belém conhecer as matérias (ou algumas delas) que publica no seu Jornal Pessoal, que, como é sabido tem recebido prêmios internacionais, que, por incrível que pareça não são divulgados na imprensa paraense. Com Lúcio, abre-se uma janela para leitores de outros estados desse país tenham notícias divulgadas por quem conhece a Amazônia desde muito anos.
    Vamos à matéria acima.
    Temos diante de nós uma nova configuração do crime na Amazônia.Ém épocas passadas, é verdade, tínhamos o descarado contrabando que servia para financiar candidatos locais nas suas campanhas eleitorais. Isso corria solto no Pará, chegando ao ponto, da pessoa que mexia com produtos contrabandeados possuir certo status (fulano é contrabandista, o que era visto como rico). Nessa nova configuração o crime ganha nova dimensão na sociedade globalizada. Hoje se sabe, não só no Pará, mas no Amazonas, no Acre, Rondonia a complexa rede do tráfico assume dimensões assustadores. Em Tabatinga, na fronteira com a Bolivia isso é feito abertamente sob o comando não de pequenos traficantes, mas de personalidades conhecidas na região, sempre impunes e cada vez mais poderes de vida e morte. Aqui em Manaus, também é muito perigoso mexer com colombianos ou bolivianos. As cadeias da cidade estão abarrotadas de pequenos “aviões”, inclusive, de mulheres que cresce assusadoramente. Na Amazônia se exporta outro tipo de commodities. a cocaiana, para alucinar a sede de consumo numa sociedade cada vez delirante.

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    Publicado por Benedito Carvalho Filho | 29 de agosto de 2014, 19:18
  5. Lúcio, parabéns pelo blog! Nunca é tarde para usarmos essas facilidades da tecnologia.
    Infelizmente, tenho ouvido de muitos internautas, inclusive de jornalistas, que não suportam ler textos grandes nos blogs e sites. Llivro eu não leio. Dependendo do texto, não deixo de ler uma boa matéria. É a mania dos 130 caracteres do Twitter (que eu não uso), que lamentavelmente tem condicionado os internautas à leitura rápida.
    E(in)voluímos dos drops das colunas para os textos da internet. E a imprensa vai na onda.

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    Publicado por NÉLIO PALHETA | 29 de agosto de 2014, 20:32
  6. Lúcio, como leitor do JP, que espera cada 15 dias para saber as verdades que a nossa imprensa chapa branca não conta, recebi com grande expectativa a notícia sobre a publicação deste blog. Agora podemos ter essas verdades diariamente como uma maneira de ampliar os argumentos em defesa da nossa Amazônia. Parabéns por mais esta iniciativa.

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    Publicado por Ademar Ayres do Amaral | 29 de agosto de 2014, 20:39
  7. ir as causas é preciso …

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    Publicado por valdemiro | 3 de setembro de 2014, 09:26
  8. Lúcio,
    As cartas que publicaste no último JP, de minha autoria, estão tendo boa repercussão em diversas pessoas.
    Recebi cumprimentos do Dr. Mário Fascio, Ubirajara Salgado, Roberto Porto e Moacir Gomes, além de minha cunhada, Gilda Chaves.
    Obrigado mais uma vez pelo espaço que tens me dado.
    Ronaldo

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    Publicado por Ronaldo Passarinho | 7 de setembro de 2014, 17:49
  9. Leitor assíduo do JP há anos, tomei conhecimento do blog através de um amigo comum, Ademar (autor de Catalinas e Casarões), que também é amigo e compadre de meu irmão, Adilson que, gentilmente me envia o JP periodicamente. Moro em Florianópolis, professor na Universidade Federal de Santa Catarina, Parabéns pelo conjunto da obra. Tenho falado sobre você com meu amigo Nilson Lemos Lage, que também o conhece.

    Nascido em Belém, criado no município de Breves, à beira do Rio Aramá, que não visito desde o final dos anos 60, fiquei pasmo com o que tem acontecido com a população ribeirinha com quem tanto aprendi: tráfico de drogas e armas, pirataria, etc. Novamente pode-se concluir que essa catástrofe só pode ser atribuída à ausência do Estado e a conivência de quem deveria cuidar da inclusão social?

    Obrigado pelo belo e incansável trabalho.

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    Publicado por João Bosco da Mota Alves | 12 de setembro de 2014, 08:57

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