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Imprensa

Ao bom combate!

As padarias são uma genuína e honrosa instituição brasileira. Existem em raros lugares do mundo, os mesmos raros lugares onde se pode tomar um café da manhã com a qualidade que se tem nas padarias nacionais. Exerço esse privilégio sempre que posso, aqui ou em santuários dessa arte, como São Paulo.
Hoje ia pagar o café da manhã na padaria que frequento, perto de casa. Não muito organizada, ela é palco de duas filas paralelas. Uma é a dos que esperam seu pão de cada dia. É a mais lenta e numerosa. A outra é dos que tomaram ali mesmo o seu café e não precisam mais esperar por atendimento. Vão direto ao caixa.
No momento em que ia pagar, um cidadão jovem e cheio de músculos, com traje de atleta e “bombado”, enfiou seu braço hercúleo sobre a minha cabeça com o dinheiro e o saco de pão. Quis explicar-lhe que a vez era minha (sem falar na minha condição de sexagenário, que costumo esquecer). Antes de qualquer ensaio de entendimento (ou desentendimento), ele apresentou suas armas:
– É, sou mesmo arrogante.
E estava apresentado.
Na fração de segundos que se seguiu a esse matutino gesto de selvageria, que, a princípio, me sugeriu como resposta o palavrão de intensidade proporcional à indignação, só consegui dizer um “nem precisava dizer isso, já se vê”.
Acho que o atleta nem ouviu. Deu meia volta e saiu a passos largos. Se tivesse ouvido, talvez me tivesse agredido.
Por que tanta agressividade na manhã que mal começava, sem a mais remota justificativa de provocação?
Tenho um sonho recorrente. Nele, sou morto por um pivete. Depois de me assaltar, ele levanta a arma para atirar em mim. Tento lhe dizer que sou um jornalista, que me empenho na defesa da causa pública e que tento contribuir contra a pobreza e a violência. Não consigo. Ele atira antes. E morro. Morro assim em todos os sonhos com essa história. Bestamente.
Incidentes do tipo desse, em que fui inadvertido coadjuvante de um boçal na padaria, se repete infinitamente em todos os lugares, aqui e agora, em antes e sempre. O que choca é a frequência cada vez maior, rotineira – banalizada, como hoje de diz, banalmente. Se se vive por uma causa, espera-se morrer por ela, por ser de justiça. Mas realizar a vida inteira uma missão e ser executado de forma sórdida anula a razão de ter vivido e tira a glória da morte. Este é o meu maior temor.
Já fui agredido, ameaçado de agressão e ofendido por ser quem sou e fazer o que faço. Nunca é saudável, sequer aceitável, estar em situação assim. Mas, como adverte o povo, quem sai na chuva se molha. Em quase meio século de vida profissional, tenho passado por temporais exasperadores. No entanto, continuo meu caminho, tentando me proteger e prevenir novos ataques, mas sem renunciar ao que considero meu dever (e meu direito).
Outra coisa é ser surpreendido por alguém que, não tendo o menor apreço pela vida, nos agride num contexto no qual estamos não só despreparados como impotentes para qualquer reação. Nas grandes cidades, viver se tornou uma roleta russa, um imponderável absoluto. Na origem dessa situação estão muitos fatores.
Um deles tem dimensão coletiva: a impunidade de uns, os privilégios de outros, o poder monstruosamente concentrado por poucos, a desinformação que acarreta a inércia, a omissão, a alienação e o desencanto pela vida e a história.
O episódio de hoje me fez decidir criar de vez este blog, que chega assim de súbito, de improviso, como dever e destino, empenhado em fortalecer a agenda do cidadão, do homem comum, da gente simples e de todos aqueles que querem ser personagens ativos da sua vida e da história.
Espero alimentar diariamente este blog. Não com ênfase nas novidades, nas informações exclusivas, no “furo”. O que mais se tentará aqui será a contextualização dos fatos novos, no exame da mecânica dos acontecimentos, na desmontagem das engrenagens das decisões, na revelação do que está oculto na cena ou é omitido pelos seus narradores. Para que cada um de nós tenha a oportunidade de imprimir sua marca pessoal neste imenso livro no qual costumam ser confinados os fatos decisivos para todos e monopólio de uns raros.
Particularmente em relação à Amazônia, este blog, prosseguindo o meu jornalismo pessoal, o objetivo é combater o “destino manifesto” que se impõe à região, de ser colônia, de não interferir no seu próprio destino. Acredito com firmeza que a história não está escrita nas estrelas, restando-nos contemplá-las, à distância, como acidentes da natureza.
Creio que podemos escrever também a história e, nessa escrita, sair da trilha dos colonizadores e da camisa de força em que nos colocaram os dominadores.
Para isso, é preciso saber o que acontece e como fazer acontecer. Espero que este blog contribua para o livre arbítrio do manipulado cidadão amazônida.
Ao bom combate, pois.
A messe é grande, mas enfrentá-la nos pode retribuir com o que é mais nobre e humano nas nossas vidas: fazer uma história que nos sirva, honre, enriqueça e nos faça feliz.

Discussão

11 comentários sobre “Ao bom combate!

  1. Seja bem vindo a Blogosfera professor Lucius sua contribuição intelectual é muito valiosa para quem procura a essência das coisas amazônicas.

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    Publicado por jose carlos de lima | 30 de agosto de 2014, 14:57
  2. Admiradora que sou de Lúcio Flávio Pinto, fiquei meio balançada com o texto que ele escreve para “inaugurar” o blog em que nos brinda com sua coragem e lucidez. Em terra de covardes e assassinos, a coragem e a inteligencia do jornalista me comovem profundamente. Acordei neste sábado pensando na morte, seus meios e seus usos. Acordei neste sábado com uma enorme ternura pelos queridos que já se foram; e pelos que queridos que irão, e bem antes de mim. A confeitaria do Fernando Pessoa e sua ausência de metafísica cada dia diz mais sobre todos nós. Também vivo a sonhar com o bom combate Lúcio Flávio Pinto, este que não vemos por aqui. E torço para que seu sonho recorrente jamais se torne realidade: jamais! Mesmo que possível, perversamente possível. Vida longa para você e para as suas idéias. Ao bom combate: Adelante!
    Marise Morbach

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    Publicado por Marise Rocha Morbach | 30 de agosto de 2014, 12:26
  3. Viva, Lúcio! Vida inteligente à blogosfera. Um abraço e vida longa, meu querido. Abraço.

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    Publicado por Ana Lúcia Prado | 30 de agosto de 2014, 14:05
  4. Conheço essa padaria, Lúcio, já nos esbarramos por lá…rs Quando vou a nossa Belém, adoro esse passeio pelas velhas padarias, principalmente as do Reduto.

    Quanto ao brutamontes, você foi cirúrgico na afirmação de que “nas grandes cidades, viver se tornou uma roleta russa, um imponderável absoluto”. Outro grande exemplo dessa selvageria, é a exacerbação dos sons não só em megafones de propaganda, mas principalmente em veículos de pessoas “comuns” que precisam mostrar que tem algo a mais que os outros.

    Em meu quase-morto blog (http://goo.gl/6euQhH) escrevi há alguns anos uma tese sobre isso, baseado em Freud: quem tem algo pequeno, precisa mostra que tem algo maior para compensar…rs

    Bem-vindo à blogosfera, mestre… estarei na sua cola!

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    Publicado por Jota Ninos | 31 de agosto de 2014, 01:37
  5. Querido Lúcio, sem dúvida, esta é a melhor notícia do jornalismo brasileiro em 2014! Você estava fazendo muita falta por esses sítios. Abraços, saúde, força e sucesso, sempre. E quanto ao estúpido da padaria, nossos vingados agradecimentos a ele, por ter inspirado tua iniciativa. 🙂

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    Publicado por Socorro Veloso | 31 de agosto de 2014, 18:14
  6. Narra um acontecimento pessoal: o ato de ir a uma padaria aí em Belém e ser estupidamente agredido por desses sarados que, nos últimos tempos, infelizmente surgem na nossa frente. Dói, e com dói ser agredido gratuitamente, por nada. Mas um ato como esse – e muitos outros -, quando acontece com a gente nos deixa perplexos e, não poucas vezes, amedrontados. Tenho lido muito sobre a violência nesses tempos que muitos chamam de pós-modernidade, ou de capitalismo financeirizado. Esse corpo musculoso que te agrediu é parte de uma legião de pessoas que estão aí na sociedade, não só brasileira, mas no mundo inteiro. Hoje tem um tipo de agressor diferente do passado. Antigamente o agressor te agredia, te intimidava porque ele queria roubar o teu bem, seja uma carteira de dinheiro ou um objeto qualquer. Hoje, o que causa surpresa, é que o agressor vai direto para aniquilar o teu corpo. É aquilo que o Freud chamou de “passagem ao ato”, sem nenhuma mediação do pensamento, sem nenhum sentimento. Ele odeia o diferente, quem estabelece limite, que dá sinal do ele vai ser no futuro (ou seja, envelhecer). Os narcisistas tem um horror de envelhecer e projetam isso na gente.. Eu frequentei uma academia aqui em Manaus. Convocaram um instrutor jovem e musculoso para orientar o ritmo dos exercícios. Logo avisei que meu objetivo não era ficar malhado. Me perguntou o que eu fazia e eu disse que era professor. Por razões que desconheço, esse rapaz me agrediu na rua. Não chegou a me bater, mas me chamou de velho. Aí percebi o ódio irracional presente no seu semblante. Eles tem um ódio do diferente, dos que tem qualidades que eles não tem e a pulsão de morte está latente no comportamento dele. Hoje veja essas lutas que muitas pessoas vêem pela televisão, onde não faltam porradas e deseja de destruição. Eles, como os nazistas, são intolerantes, bestializados. Isso é geral. Hoje evito certos ambiente e certas pessoas, principalmente pessoas desse tipo. É, Lúcio, um mundo muito diferente do que nós vivemos. Não sou muito otimista pelo que vem pela frente nesse mundo sem coração e sem sentimentos. Esse mundo do ter, do consumo, ocupado por bárbaros. Tempos de barbáries, de niilismo e de morte.

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    Publicado por Benedito Carvalho Filho | 4 de setembro de 2014, 21:35
    • Gostaria que mais pessoas se manifestassem sobre o grave tema suscitado pelo Benedito e o Ronaldo. Se somos diferentes em função do uso (inclusive profissional) da inteligência, é nossa obrigação nos empenharmos para que ela prevaleça. Ao menos usando-a em busca de esclarecimentos e atos contra essa barbárie.

      Curtido por 1 pessoa

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 5 de setembro de 2014, 08:59
  7. Parabéns pra nós, Lucio, que vamos poder agora te ler com a mesma regularidade e delícia de um pão quentinho pela manhã. Abraço.

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    Publicado por Cesar Acatauassú Paes Barreto | 11 de setembro de 2014, 18:19
  8. Interessante que o fato narrado pelo Lúcio Flavio me aconteceu ontem na Abelhuda( Loja de doces) da gentil. Um desses brutamontes, com cara de mauricinho, passou a minha frente sem o menor pudor. Claro que a caixa da loja contribuiu. Em Belém as pessoas são atendidas melhor, de acordo com a aparência. Não importa o lugar que você esteja.

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    Publicado por Benedito Teixeira Filho | 4 de janeiro de 2015, 12:09
  9. Seu texto fez parte da prova de oficiais da PM-PA (2016).
    Abraços

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    Publicado por Luan Pinto | 3 de março de 2017, 15:08

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