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Política

O fim de Dilma

A presidente Dilma Roussef não conseguirá mais se reeleger apenas por seus méritos e atividades. Se não enfraquecer a ascensão de Marina Silva, dificilmente vencerá no primeiro turno e certamente será derrotada no segundo turno.
Dilma parece ter chegado ao seu limite de votos possíveis na eleição de daqui a pouco mais de um mês. O máximo que poderá fazer a será estancar a perda e sangrar um pouco sua principal adversária. Só assim pode ter esperança de superá-la na segunda votação. O desafio é enorme porque Marina já está tirando votos de Dilma, o que parecia impossível até menos de um mês atrás.
Esta é a principal interpretação que se pode fazer dos resultados das duas últimas pesquisas realizadas pelo Ibope e o DataFolha, anunciados na última sexta-feira. O crescimento da candidata, que assumiu a cabeça de chapa do PSB depois da morte do ex-governador pernambucano Eduardo Campos, é vertiginoso e contínuo. Só um grande abalo poderia quebrar essa linha ascendente.
Integrantes das candidaturas da presidente petista e do ex-governador mineiro, o tucano Aécio Neves, estão sendo induzidos ou instigados a atacar Marina através de guerrilha de desgaste, sem expor os candidatos presidenciais ao risco de mais desgaste junto ao eleitorado que já se identificou com a ex-senadora acreana.
Um dos alvos será o jatinho no qual Eduardo Campos viajava quando aconteceu o acidente que o matou, em São Paulo. A conta da compra e a forma de uso do avião continuam nebulosas – com nuvens cada vez mais escuras. Há a suspeita de que ele voava escondendo o verdadeiro dono, graças ao uso de laranjas e de caixa dois, drenado pelo PSB. Esses são costumes rotineiros e imorais da prática política, que Marina diz pretender acabar e contra a qual o seu nome é a melhor (ou a única) alternativa ao eleitor.
O outro alvo é a própria candidata. Sua fragilidade é mais de ideias do que física. Ela não consegue apresentar com clareza, consistência e coerência as suas ideias, nem mostrar objetivamente como poderá colocá-las em prática. Diz que o perigo é o gato, mas não se apresenta como capaz de botar o guizo no pescoço da fera (que simboliza a política viciada, os compromissos espúrios do poder e muitas coisas mais que impedem o Brasil de se conciliar com suas aspirações de grandeza).
Essas fraquezas já se tornaram evidentes, inclusive para muitos dos que, mesmo assim, não deixarão de votar em Marina. A revista Veja desta semana diz que eles estão sendo seduzidos por um sonho, que nem projeto é, a rigor, por sua vacuidade. É isso, mas não é só isso. A maioria do povo brasileiro parece ter se cansado da bipolaridade PSDB-PT, o primeiro mais eficiente e mais elitista; o segundo, mais ineficiente e mais populista. De qualquer forma, no exercício do poder, incapazes de fazer o povo acreditar em mudança porque, para valer– e iniciar um novo projeto de civilização – nenhum dos dois partidos conseguiu chegar a tanto.
Marina Silva se tornou a terceira via, não porque o eleitor acredite que, uma vez no poder, ela fará o que está prometendo ou o que já deixou de prometer para harmonizar e arredondar o seu perfil. É porque impedirá que o PT vá além dos 12 anos em que reteve o maior cargo público do país, com os quais assumiu o comando da nação por mais tempo do que qualquer outro partido nesta república, ou os tucanos possam vir a igualar essa marca.
Marina já disse que fará o que Lula nunca disse, mas fez: manterá a política econômica do governo de Fernando Henrique Cardoso, que criou a nova moeda brasileira, sufocou a inflação, estabeleceu padrões para a administração pública e seguiu o catecismo da estabilidade. Não por acaso o verdadeiro ministro da fazenda, ou superministro, Henrique Meirelles, permaneceu os oito anos de Lula no timão do Banco Central.
Dilma tentou inovar e sair da camisa-de-força, mas não conseguiu. Os efeitos desastrosos não resultam do boicote da imprensa ou do imperialismo, mas de sua incompetência e do seu imenso ministério de 39 ministros, irmanados pela crença de que basta querer para fazer.
De certa forma, se vencer, Marina fará o Brasil voltar a 2011 para tentar um modelo misto entre FHC e Lula, com algumas variações e inventivas (ou invencionices). Se terá capacidade para isso, é o que só se verá a partir de 2015. De qualquer maneira, a curta e traumática era Dilma terá chegado ao fim. E talvez os anjos digam amém.

Discussão

3 comentários sobre “O fim de Dilma

  1. Sou descaradamente pró-Dilma. E explico. Marina não representa uma nova política e, apoiada por banqueiros, tenho a sensação de “já vi esse filme”… Sabe?, isso me incomoda. Não vejo o governo Dilma como tão desastroso assim, e acho que a crise externa que nos alcançou foi mesmo ignorada, o que foi um erro. No entanto, não vejo Marina como alguém que entendeu que é preciso incentivar a indústria nacional e qualificar o trabalhador para a tecnologia de hoje, que é preciso proteger a renda familiar e, ao mesmo tempo, atacar a corrupção. Também não vejo essas qualidades em nenhum outro candidato, nem em Dilma, mas acho que a Dilma dificilmente fraquejaria de modo tão vergonhoso como foi com Malafaia e Dilma tem capital político para promover um banco dos BRIC’s, para explorar o pré-sal de verdade e alavancar mais um PAC, condenado ao fracasso pela simples razão de ter de pactuar com estados e municípios, muitas vezes governados com incompetência. Marina, acho eu, seria uma presa fácil desse sistema espúrio de “apoio e retribuição” da velha política brasileira. De mais a mais, o povo deve se envolver mais com a política, porque só assim se terá mudança na política. Qualquer mudança proposta e defendida pela mídia, é de se duvidar.

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    Publicado por lopesjunior | 31 de agosto de 2014, 23:56
  2. Caro Lúcio,
    Parabéns por esta nova ferramenta, que certamente será muito bem sucedida. Hoje estou fazendo meu primeiro acesso aproveitei para ler o acervo anterior, todo de excelente qualidade.
    Gostei muito deste texto sobre o atual momento das eleições presidenciais; acho que ele reflete muito bem as questões envolvidas e as perspectivas para o futuro.
    Acompanharei assiduamente o blog!
    Um abraço,
    Bruno.

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    Publicado por Bruno Valente | 1 de setembro de 2014, 10:35
  3. ´sem dúvida que no cenário atual só resta ao PT torcer para que caia outro avião ou apareça algum dinheiro na calcinha de Marina, como isso é improvável para mudar esse quadro só uma grave doença de Dilma e a súbita aparição de Lula como candidato, só que isso deve acontecer até o dia 15 de setembro quando expira o prazo para troca.
    Fora isso, devem continuar com a estratégia de descontruir Marina via redes sociais, o que vem sendo feito de forma avassaladora e creio que já começa a minar dúvidas na cabeça do eleitor que vive conectado.
    Para o segundo turno o PT espera ver o PSDB de Aécio, o sistema financeiro, os grandes grupos mídiáticos cairem no colo de Marina para então iniciar uma campanha pautada no confronto entre a candidata dos ricos e poderosas que pode arrazar com os pobres e menos favorecidos e a candidata que representa as conquistas sociais e esta do lado do povo. Dilma irá explorar as contradições que estarão presentes com Marina a partir do segundo turno. Marina poderá até ganhar no primeiro turno mas o segundo turno será uma briga de foice onde a vitima poderá ser o eleitor, pois quase não haverá espaço para novas propostas. Serão ataques, direitos de respostas, terrorismo eleitoral e promessas impossíveis de cumprir com o intuito de iludir o eleitor.

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    Publicado por Paulo Cidmil | 1 de setembro de 2014, 19:18

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