//
você está lendo...
Imprensa, Política

Depoimento sobre jornalismo

Reproduzo a seguir o depoimento que dei ao documentário Plano B, programa idealizado e realizado pela produtora Ovelha Negra, de Belém. O vídeo pode ser visto no youtube, no endereço http://www.youtube.com/watch?v=sRXmKzWmAcc. Recomendo por se tratar de um excelente trabalho, que valoriza – e muito – seu conteúdo.

A primeira coisa que as ditaduras fazem é perseguir os poetas. O poder, seja o poder disfarçado de democrático, às vezes, até o democrático e as ditaduras abertas logo perseguem e tentam eliminar aqueles que levam a pensar.

A história do Jornal Pessoal é interessante porque ele começou em 1987, dois anos depois da volta da democracia no Brasil. E eu só comecei o Jornal Pessoal por um ato de indignação. O assassinato do Paulo Fonteles. Eu achava que aquele foi o maior crime político feito na época. E que mostrava que a violência política ia chegar em Belém.

Então, eu achei que a imprensa tinha que esclarecer tudo, com todos os envolvidos, não só os executores do crime, mas também os intermediários e os mandantes. Durante três meses, eu apurei. E depois não tive onde publicar, porque envolvia gente poderosa.

Aí eu criei o Jornal Pessoal, certo de que o jornal ia durar pouco tempo porque nós estávamos voltando para a democracia. Podia-se publicar tudo. Não tinha mais a intervenção do Estado nas redações. Mas, já no segundo número, eu vi que a situação podia mudar porque foi sobre o golpe no Basa, um desfalque de 30 milhões de dólares. Hoje seria algo como 200 milhões de dólares. E ninguém publicava porque os participantes da quadrilha eram todos pessoas notáveis.

O Jornal Pessoal entrou na contramão porque dizia-se que não havia mais lugar para a imprensa alternativa porque estávamos numa democracia. Para quê alternativa se tudo já está sendo divulgado?

E, com esses sete anos que o jornal circula, quem for ler a coleção vai ver que o jornal se especializou em publicar o que a grande imprensa não publica. Não publica porque não sabe, mas não publica principalmente porque não quer.

No caso específico do Pará, foi polarizada a dominação das comunicações entre o grupo Liberal, fortalecido pela afiliação à Rede Globo, e o grupo do Jader Barbalho, fortalecido pela sua vinculação política. E esses dois grupos foram progressivamente abandonando os critérios mínimos do jornalismo. Hoje, na eleição em que eles estão disputando o poder como dois partidos políticos, a informação não interessa, o que interessa é criar constrangimentos, desgastes para o adversário.

Vou dar um exemplo agora, que aconteceu dois dias atrás. O Liberal publicou uma nota dizendo que o segundo mais votado para o Senado tinha negociado, por quatro milhões de reais, a adesão dele ao candidato do PMDB. Então, ele procurou o governador e ofereceu para ele cobrir e o governador não cobriu. E disse: venda para quem quiser.

É uma coisa extremamente grave, porque é corrupção política de alto grau envolvendo os principais personagens. O jornal publica sem confirmar nada, o governador, no dia seguinte, não diz nada. O Ministério Público não diz nada. Parece que essa anomalia, que é típica de ditadura, se tornou normal. A sociedade mesmo diz: não, é porque eles estão fazendo briga política. Sim, eles estão fazendo briga política, mas – e a informação?

Então, o Jornal Pessoal ataca um, ataca o outro. Quando ele ataca um, o outro gosta. Quando ele ataca o que gosta, o outro vibra. Então, ele não tem parceiros, porque se tornou arriscado fazer esse tipo de jornalismo, justamente porque os outros transformaram a imprensa num partido político. E acho que em nenhum Estado do Brasil isso é tão forte quanto hoje no Pará.

O eleitorado está amadurecido para mudar, mas não tem com quem mudar. Não tem um terceiro candidato. Então ele vai voltar à polarização. Esse número de indecisos, de votos nulos, é impressionante. A abstenção de 21% é um caso que, se tivesse realmente uma sociedade civil organizada, era um caso de a sociedade dizer assim: precisamos reorganizar isso, precisamos procurar pessoas, novos talentos, pessoas que mostrem sensibilidade para a causa pública.

Eu faço o seguinte: eu uso a técnica do mote continuado. Eu não penso, o que eu tenho que fazer eu faço. Eu não vou ver se vai ter resultado, se não vai ter resultado, se eu vou sofrer as consequências ou não. Eu faço aquilo que a minha consciência e a minha preocupação profissional me impõem. Eu vou fazendo. Já aconteceu de tudo comigo, menos, evidentemente, morrer. Eu já fui agredido fisicamente, eu já fui agredido verbalmente, já fui intimidado.

A minha vida teve que se circunscrever às minha possibilidade. Empobreci, não uso carro, há sete anos aboli o carro. Raramente saio à noite para não me expor. É uma vida de sacrifício, uma vida monástica. Mas ela tem um objetivo.

Eu sei, no fundo, lá no meu travesseiro, com os meus botões, eu sei que é uma luta perdida. Aquilo a que eu me propus a fazer quando eu voltei de São Paulo definitivamente, no final de 74, eu não vou fazer nunca, que é criar uma consciência social.

Discussão

5 comentários sobre “Depoimento sobre jornalismo

  1. Meus cumprimentos! Brilhante abordagem sobre o jornalismo paraense dominante, o JP relatando o lado oculto, e sua luta pela democracia. Desejo que seja justo consigo: mude-se para Europa! O PA sempre vai ser desse jeito ou pior. Saia para ter qualidade de/na vida. E felicidades!

    Curtir

    Publicado por Erick Matheus Vieira | 27 de outubro de 2014, 12:38
    • Obrigado, Erick. Visitar a Europa sempre traz resultados maravilhosos. Temos a oportunidade, que nos é escamoteada neste nosso país, mas em especial no Pará, de gozar as delícias da civilização e da civilidade. Mas é no Pará que posso tentar fazer história, por menor que seja. De fato, seria melhor aproveitar o que o velho continente tem a oferecer em cultura e tudo mais. No entanto, onde a história se nos apresenta como projeto ou mesmo utopia? Portanto, ao trabalho – ainda.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 27 de outubro de 2014, 13:08
  2. Funde um partido político, que muitos se filiaram. Com regras extremamente éticas, claras e simples. Sem complicar, algo como umas 10 regrinhas:
    precisa ter nivel superior, precisa abrir mão do sigilo fiscal ( vida pública = suas contas serão públicas ), precisa nunca usar mais do que seis acessores, precisa publicar na net um diario de serviços ao público, etc…
    Talvez o sistema tenha que ser renovado por dentro, e quem sabe, teremos um Gandi dentro com congresso.

    Curtir

    Publicado por Renato | 27 de outubro de 2014, 16:23
  3. Esse poema de minha autoria acho que serve bem para identificar pessoas como você.
    VEM NOVO DIA
    Redemoinho de vento
    Batento em meu peito
    É um novo amanhecer
    Ideias germinam
    Não sei donde, sem saber
    Ao novo dia, reclino a minha alma.
    Oi Sol! Seja bem vindo,
    Meu irmão.
    Iluminai, iluminai
    Meus pés, minhas mãos
    meu louco coração

    Curtir

    Publicado por Eduardo Barbosa | 27 de outubro de 2014, 22:28

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: