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Cidades, Violência

Belém: a rotina da violência

Eram 9 e 40 da noite de sexta-feira, 27. Dois meninos vinham da travessa Piedade para a Aristides Lobo, a uns 100 metros da bela praça da República, bem no centro de Belém. Quando se aproximavam da sua casa, três homens os abordaram, arrastando-os pelas camisas (uma delas imediatamente foi rasgada). Fizeram-nos bater na porta de entrada da residência. A resposta demorou. A família estava nos fundos da casa.

Nesse momento chegou, de carro, o namorado da filha do casal. Os bandidos largaram os meninos e renderam o motorista, obrigando-o a levá-los. Pessoas da família que testemunharam a ação saíram em perseguição aos já então sequestradores. Também avisaram a polícia, que despachou as viaturas mais próximas. Uma delas se aproximou do automóvel em fuga e passou a investir.

Dentro do carro, o bandido que estava no lugar do carona colocou o revólver no pescoço do motorista e ameaçou:

 – Sou bandido e não escondo isso de ninguém. Estou preparado para matar e mato.

Um dos integrantes do grupo, no banco de trás, insuflava o comparsa a matar o rapaz, mas o homem armado não disparou. Certamente porque nesse caso o carro, em extrema velocidade, colidindo com a calçada, iria se desgovernar.

Um policial começou a atirar para forçar o carro perseguido a parar. Fez oito disparos, que cruzaram o interior do veículo – felizmente, sem ferir ninguém, exceto as normas de abordagem de um sequestro, que colocam acima de tudo a vida do refém

Afinal, outras viaturas fizeram o cerco, às proximidades do santuário de Fátima, de onde os fugitivos pretendiam chegar ao bairro da Matinha, um dos pontos vermelhos da cidade. O homem armado desceu do automóvel e se lançou sobre um dos PMs, atirando no peito dele. A bala ficou retida pelo colete de proteção do policial, que nada sofreu. Outro PM atirou e feriu o agressor, que sobreviveu e foi levado para o hospital. Os outros dois foram presos e autuados em flagrante. Serão mantidos presos. Por quanto tempo?

Milagrosamente, ninguém morreu nesse episódio. Mas os moradores da área, já receosos, ficaram em pânico. Dois postes de luz estão apagados no perímetro e a esquina da Aristides Lobo com a Piedade virou ponto de encontro de gente suspeita. Um terreno baldio e uma casa abandonada se transformaram em covil. O movimento é intenso e crescente. Os moradores não se lembram da passagem de alguma viatura da polícia pelo local, onde os episódios de violência vão se tornando rotina e o medo dos moradores cresce.

Isto no Reduto, estrategicamente situado entre alguns dos “melhores” bairros de Belém. Por ele dá para imaginar como está a periferia da capital do Pará, uma das mais violentas e perigosas do mundo, título para o qual a administração pública tem dado a sua poderosa contribuição.

Discussão

5 comentários sobre “Belém: a rotina da violência

  1. Lucio,

    Onde está a turma de D H da OAB que agora não aparece para se solidarizar com a familia vitimada ?
    Enquanto continuarmos considerando bandido mais valioso que um policial, não deixaremos de afundar mais e mais nesse mar de violencia.
    Em qualquer epoca da historia SEMPRE se teve medo da policia (ou seu equivalente), mas hoje são os policiais que tem medo dos bandidose com toda razão.
    Em São Paulo se chegou ao cumulo de um policial só poder atirar DEPOIS que o bandido atirar nele. Isso parece loucura mas é lei.

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    Publicado por Eduardo Daher | 28 de fevereiro de 2015, 18:00
  2. As periferias estão bem “seguras” porque os comerciantes e endinheirados que moram nas proximidades pagam as milícias para sair atirando em todos, sem nem querer saber quem é Bandido ou quem é trabalhador.

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    Publicado por Jonathan Pires | 28 de fevereiro de 2015, 18:30
  3. O criminoso, ciente de sua retaguarda legal, atirou no peito do policial, sem nenhuma hesitação. Imagina se ele (assaltante) leva o tiro no peito: a notícia seria divulgada no Brasil inteiro, engrossando rapidamente as estatisticas da famigerada “violência policial”. Na verdade, o que está faltando é coerência entre o que se vive e o que se deveria viver, segundo os nossos manuais de processo penal – para rememorar as inquietações de Kelsen.

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    Publicado por Marilene Pantoja | 2 de março de 2015, 20:27
    • Uma situação definidora desse momento de confronto é o auto de resistência à prisão. Ele tem servido de instrumento para muita violência policial. Mas sua extinção, como proposto, criará o extremo oposto, consolidando o poder de iniciativa do bandido. Hoje há instrumentos eficazes de controle da abordagem policial: as microcâmeras obrigatórias tanto no policial quanto na viatura. Parece ser a melhor forma de controle dos excessos e abusos, sem ceder ao bandido direitos que não lhe cabem quando delique.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 3 de março de 2015, 09:16

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