//
você está lendo...
Violência

Violência escancarada

Junto com muitas outras pessoas, Gilson das Neves Carvalho, 26 anos, deixava o templo da igreja evangélica da Assembleia de Deus, na Santa Fé, principal rua do bairro Icuí-Guajará, em Ananindeua, às duas e meia da tarde de ontem. Dois homens se aproximaram e lhe disseram que iam matá-lo. Desesperado, Gilson voltou para dentro da igreja, tentando se esconder atrás do altar. Ali mesmo foi executado a tiros. Depois de baleá-lo, os matadores saíram. Não esconderam o rosto. Não foram perseguidos.

No ano passado Gilson também foi baleado, provavelmente pelos mesmos homens, mas escapou com vida. Igual destino não teve o seu irmão, que tentou impedir a invasão da sua residência pelos pistoleiros e foi morto, conseguindo, porém, salvar o irmão, que era o alvo da caçada. A sentença de morte foi dada por um assaltante de banco. Ele não concordou que a ex-namorada se relacionasse com Gilson e mandou os pistoleiros atrás do inadvertido rival.

Parentes que chegaram à igreja depois de ouvir os tiros teriam tentado carregar Gilson para levá-lo para um hospital, mas ele já estava morto. Essa é uma versão. A outra é de que os próprios membros da igreja arrastaram o cadáver e fecharam a porta do templo, talvez para que o local não fosse novamente invadido, ou para estancar a repercussão ruim. Se nem igrejas são mais respeitados por matadores, onde o povo indefeso se protegerá?

Esse foi um dos sete homicídios que a imprensa paraense noticiou ontem, quatro deles em Belém. Dois dos assassinados tinham 18 anos. Outros tinham 21, 23, 26 ou eram jovens, no caso de dois cujas idades não foram fornecidas.

Eles foram mortos por pelo menos 15 homens, dois deles adolescentes, um dos quais ligado a outra adolescente. Dois dos assassinados eram ex-usuários de droga que tentavam a regeneração, como Gilson, que já fora preso por assalto a mão armada, passando a se dedicar a uma religião. Todos os crimes foram praticados à luz do dia, na periferia da cidade, atingindo pessoas anônimas. Sempre com mais de um tiro. Quatro, em dois casos.

Os criminosos não esconderam seus rostos. E, mais uma vez, o Diário do Pará não usou tarja eletrônica para poupar as famílias das vítimas de contemplar os parentes nessa exposição final.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: