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Política

A sabedoria popular

O líder do governo na Câmara Federal, José Guimarães afirmou que a proposta de acabar com a reeleição para os cargos eletivos do Executivo, aprovada em 1º turno na véspera, foi votada sem discussão adequada e que só passou por causa de uma “onda” que se formou no plenário pela sua aprovação. Mas garantiu que essa decisão “não representa, necessariamente, apoio à ideia”, segundo a Folha de S. Paulo.

A declaração interpreta o fato como produto de oportunismo político ou interesse menor do que uma tese, uma ideia ou uma contribuição ao aprimoramento da democracia. Mesmo sendo contra a proposta, o representante do Ceará admitiu que seguiu a mesma onda que condenou em relação aos outros e votou a favor do fim da reeleição. Sem deixar de dar uma lição professoral, típica da mania de partido escolhido que tem o PT: “a ausência da possibilidade de reeleição é coisa de país atrasado”.

As palavras do deputado podem significar que o governo, defensor do instituto da reeleição, é claro, pode agir para derrubar a medida quando ela for a votação em segundo turno na Câmara e em dois turnos no Senado. Dilma não será atingida pela restrição porque não poderá se reeleger pela terceira vez. Lula também não porque seu último mandato já foi interrompido e o veto é a novas reeleições contínuas.

Guimarães se disse convencido de que o voto a favor do fim da reeleição “foi um voto da dúvida”. Evidentemente, quem pretende disputar pela primeira vez o cargo de presidente da república, governador ou prefeito há de preferir não enfrentar um concorrente já exercendo o cargo. Apesar de todas as restrições e vigilâncias, a máquina oficial age em favor do seu chefe, desequilibrando a disputa.

No caso paraense, por exemplo, o economista Simão Jatene jamais seria eleito governador se o seu principal cabo eleitoral na primeira campanha não fosse o governador Almir Gabriel, que não se desincompatibilizou para concorrer a outro cargo ciente de que nesse caso o seu principal secretário – escolhido por ele como o delfim – dificilmente seria eleito.

Daí a mágoa de Gabriel quando Jatene começou a ter voo próprio e, no entendimento do padrinho, deixou de ser leal a quem lhe deu o mandato. Jatene não fez carreira política: saiu de um cargo administrativo no serviço público diretamente para o topo do poder estadual.

Mas se foi por razões pessoais e mesmo fisiológicas que muitos dos integrantes da maioria esmagadora dos deputados que votou pelo fim da reeleição, em relação à qual apenas 19 votaram contra, unindo todas as legendas, inclusive o PT do líder do governo, a onda não se alimentou apenas dos ambientes internos do parlamento, dos conchavos de bastidores ou de acertos de contas em gabinetes empresariais: veio também – e, talvez, majoritariamente – das ruas, da tradição e da história política brasileira.

Deve fazer parte da sabedoria popular o fato de que a reeleição só se viabilizou por manobra de um intelectual arguto, que entrou em contradição com o melhor do seu ideário do passado ao ser picado pela mosca azul. Tinha que vir de um leitor erudito de Maquiavel e Marx uma inovação com esse calibre de agressão à prudência dos brasileiros.

Ao contrário da lição de meia água do deputado petista, o Brasil não é atrasado por não adotar o instituto da reeleição dos países atrasados: é por ter plena consciência das suas limitações estruturais e, mais do que isso, da qualidade de políticos que, infelizmente, elege.

É por isso que um político do grupo das exceções disse que a democracia nunca deixou de ser uma planta tenra no Brasil. É preciso ter muito cuidado pelo seu desenvolvimento, preservando-a da erva daninha de mais um tacape na mão do dono do poder executivo: a possibilidade de se eleger mais uma vez.

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