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Política, Violência

Estado à deriva

O poeta alemão Bertolt Brecht alertou certa vez para o risco de se condenar um rio, por ser revolto, esquecendo as margens que o comprimem.

O alerta cabe muito bem ao comportamento dos responsáveis pela segurança pública no Pará e, em particular, em Belém. Considerando “atípico” o acúmulo de 21 mortes na capital e mais 20 no interior num único fim de semana, recorreram ao cinturão de mil utilidades de sempre, com medidas de emergência, na presunção de poder satisfazer o clamor da sociedade e restabelecer a “tipicidade” criminal.

O problema é que o rotineiro já não é mais normal faz tempo. A frequência de homicídios no dia a dia se tornou tão grave que o acúmulo de tantas mortes teve o efeito de um detonador de dinamite. De fato, 41 mortes em dois dias é de chocar e aterrorizar. Mas tomando-se apenas o caso de Belém, com seus 21 assassinatos no último fim de semana, o número está na faixa ou um pouco abaixo da ocorrência de muitos outros dias. O que escandalizou foram dois dias seguidos no pique das mortes violentas. O efeito do pânico, contudo, já está instalado. A cidade foi tomada pelo medo.

Gente do governo (e, talvez, o próprio governador) pode estar achando que há aproveitamento político da ocorrência policial. De fato, há. Mas é uma utilização a partir de um fato consumado. A inação – ou a ação ineficiente – do aparato de segurança pública se prolongou por tanto tempo que se tornou acusação ao governo por si, independentemente de eventual manipulação. Transformou-se num efetivo problema de segurança pública.

Depois da aguada manifestação do secretário de segurança pública, que não quebrou a tensão no ambiente, era a vez de o próprio governador Simão Jatene se comunicar com a sociedade. Já se fez necessária a presença da autoridade máxima da administração pública, sobretudo pela sua condição de comandante de todo o aparato policial. Até parece que o governador não se sente compelido a desempenhar esse papel, deixando criar um vácuo que assusta ainda mais os cidadãos e corrói sua autoridade, além de começar a soterrar a sua liderança.

Parece ser uma falha de todos os líderes tucanos, que se autodefiniram supondo-se sociais-democratas à moda europeia, como elite ilustrada e déspotas esclarecidos, não assumir o comando inerente aos seus cargos de direção e muito menos a responsabilidade por erros e desmandos dos seus subordinados.

Foi pateticamente exemplar desse modo de proceder a atitude do governador Almir Gabriel diante do massacre de militantes do MST no sul do Pará, em 1997. O comandante-em-chefe sumiu do seu posto, deixando que seus subordinados trocassem acusações mútuas e fugissem às suas responsabilidades. Uma manobra de gabinete isentou o governador da cadeia de comando, que obrigatoriamente o devia incluir.

Quando outra onda de medo tomou conta de Belém por causa do acúmulo de mortes em pouco tempo, o governador tucano saiu-se com uma expressão que, desligada do seu contexto, não seria imprópria; nele, tornou-se desastrosa: não havia insegurança efetiva, mas sensação de insegurança por parte dos cidadãos.

Hoje a sensação é de falta de comando, de liderança, de quem se responsabilize pelo que é a mais nobre das funções públicas preenchidas pelo voto do povo: a defesa da dignidade, da segurança e da vida.

Cabe, ao final de um texto que começa por Brecht, parafrasear uma comédia cinematográfica: socorro, o comandante fugiu!

Discussão

3 comentários sobre “Estado à deriva

  1. Lúcio Flávio, por favor, comente a frase do Governador, dita há pouco: ” É importante que a população também tenha uma mudança cultural, como evitar lugares com grandes aglomerações, festas até tarde da noite, enfim, tudo isso já ajuda a diminuir os casos de violência.”

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    Publicado por Max Menezes | 29 de maio de 2015, 15:51
    • Só faltou o governador dizer para a população não sair de casa por ter sido revogado o direito constitucional de ir e vir sob a garantia do Estado. Segurança de que o governador e os barões da cidade dispõem, o primeiro de forma a diferenciá-lo do comum dos mortais, os segundos dispondo de policiais pagos pelo erário para serem seus capangas.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 29 de maio de 2015, 16:14
  2. O caso de Jatene é muito parecido com o de Dilma. Ambos não fizeram carreira política. Foram vendidos por Almir Gabriel e Lula, respectivamente, sob a falsa imagem da competência e da boa administração. A prática provou, amargamente, que o povo foi ludibriado quando comprou esses dois produtos. O nível de inoperância e incompetência de Dilma e Jatene é impressionante . A diferença é que o economista não parece nenhum pouco preocupado em eleger um sucessor. Aparentemente, sua última preocupação mesmo era vencer Hélder Barbalho,feito que conseguiu alcançar.Agora que conseguiu, parece não se importar mais com nada.Toda essa crise de violência poderá repercutir de modo extremamente negativo para o seu partido futuramente.Contudo, Jatene não faz o mínimo para tentar, ao menos, abrandar as coisas. Nem mesmo se pronuncia na TV e manda uma atriz em seu lugar. E ainda deu um cargo especial para sua filha. Será que Jatene simplesmente deixou de se importar ou acredita que a rejeição de Belém (maior colégio eleitoral do estado) aos Barbalhos farão o PSDB ser reeleito novamente, por mais que o partido tenha deixado o Pará em frangalhos durante todos esses anos? E o povo? Esquecerá toda a incompetência de Jatene e elegerão um sucessor tucano do economista? Elegerão novamente os Barbalhos cuja nocividade e corrupção é equivalente a do PSDB?Ou buscarão outra opção? O grande fato é: Jatene parece não se importar mais com nada. Se perdeu há muito tempo. Da mesma forma que Dilma se perdeu.

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    Publicado por Jonathan Pires | 30 de maio de 2015, 20:54

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