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Violência

Chame o ladrão!

Talvez os responsáveis pela prisão do casal proprietário do bar alternativo 8 Bistrô imaginem que o final de semana com Karllana e João Pedro fora de circulação esvazie o caso. Eles pertencem a um mundo que é ignorado, hostilizado ou combatido pela maioria (geralmente silenciosa) da sociedade e por seus representantes institucionais, além dos poderes estabelecidos.

No entanto, não se trata – para esses setores – de um abuso a mais de autoridade ou da violação dos direitos de cidadãos que nem são reconhecidos como tal. Pelo contrário, são pessoas consideradas, em princípio, suspeitas. Para elas, não prevalece o princípio jurídico universal de que o acusado é inocente até prova em contrário. Ele é suspeito pela própria circunstância de existir.

Se fosse conforme a lei, os dois teriam prestado depoimento e sido liberados para responder em liberdade ao inquérito e eventual processo na justiça. Não apenas são trabalhadores com endereço certo. São também comerciantes, com estabelecimento em total regularidade para funcionamento.

A acusação que pesa sobre eles é grave: tráfico de drogas. Mas é uma acusação tão frágil que, mesmo com a prova material principal, os 44 papelotes de cocaína, não devia sustentar uma prisão em flagrante.

Karllana e João moram nos andares superiores do prédio onde funciona o bar, localizado num ponto central da cidade. Na vizinhança está uma boate ainda mais alternativa, para gays, travestis, transexuais e quem mais quiser frequentá-la. Alternativa, sim, mas comercial e convencional como negócio. Diferentemente do bar 8, que decidiu ocupar uma posição política no espaço onde também convive o comércio e a diversão.

Os 44 pacotes contêm algo em torno de 20 gramas do que a polícia apreendeu como cocaína. Abstraindo as notícias sobre a penetração clandestina de um homem encapuzado, antes do ingresso formal da polícia, que teria percorrido a casa e acordado o casal para abrir a porta principal, no que podia caracterizar a montagem do flagrante, o fato concreto é a pequena quantidade de droga para o tamanho do risco que ela acarretaria, sem falar na relação custo/retorno, tornando o negócio pouco atrativo.

Ainda mais porque, desde a primeira instalação do bar, em 2013, seus proprietários vêm litigando com a polícia, insubmissos aos métodos e objetivos das fiscalizações que ela tem feito ao estabelecimento comercial, provido de todas as autorizações e licenças necessárias, além de medidor de decibéis para prevenir problemas na vizinhança por causa de barulho. Não se sabe de um traficante de droga que se expõe voluntariamente diante do adversário, inclusive recorrendo ao órgão correcional da polícia, como Karllana diz que fez. A atitude é garantia de hostilidade por parte dos policiais. Não seria então para se precaver?

Ontem a polícia incinerou mais de uma tonelada de drogas, a maior operação desse tipo já realizada, com predomínio da maconha, cada vez mais consumida e em vias de descriminalização, conforme tendência mundial. As drogas pesadas – e baratas – são um problema de saúde pública, antes de o serem de segurança, justamente pelo acesso mais fácil. As drogas pesadas e caras, como cocaína e LSD, são um problema social e policial grave. De tal proporção e características que o episódio dos jovens donos do bar soa como despropósito.

Se a existência do tráfico for desfeita, como sugerem as aparências e a lógica, numa apuração séria, aí, sim, as autoridades terão que fazer uma investigação ainda mais rigorosa. Porque se estará confirmando um procedimento policial desonesto e ineficaz, a lançar suspeitas sobre essa forma já rotineira (e trivial mesmo) de operação, para a qual um problema grave se transforma em pretexto útil. Sem a devida seriedade, o braço armado do Estado transforma cidadãos em bandidos. Por isso, Chico Buarque eternizou a situação dramática da gente dita marginal (e largada à própria sorte) que, vendo a polícia, chama pelo ladrão.

É uma inversão de valores, mas ela só pode ser retificada por exemplo que restitua a confiança do povo na polícia. Não é a regra de hoje. Pelo contrário: é a exceção.

Discussão

5 comentários sobre “Chame o ladrão!

  1. Nos idos de 1992, época em que eu trabalhava como repórter do extinto jornal A Província do Pará, uma alta patente da PM/PA me perguntou, com insistência, o que eu estava achando do desempenho da PM. Fui educada mas esquiva na resposta. Ele insistiu e pediu: seja sincera! Usei a mesma expressão da música. A Segurança Pública no Pará NUNCA me inspirou confiança. E olha que, SEM NENHUM ORGULHO, tenho um irmão tenente coronel. O episódio envolvendo o assassinato da minha irmã apenas reforçou o que me apavora há décadas! E, justamente em razão de uma Segurança Pública eivada de falhas e ineficiências, optei, plena de serenidade, em deixar o Pará e morar em outro estado. Minha história de vida e minha dignidade podem ser destruídas de uma hora para outra nas mãos de pessoas capciosas, nas quais temo confiar por não me inspirarem nada de positivo.

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por Daely Cunha | 28 de junho de 2015, 06:25
    • Prezada Daely. Não sei se leu o que escrevi aqui sobre a morte da sua irmã. Ela não teria esse destino trágico num país civilizado, que, infelizmente, não é o status do Brasil. Num país civilizado a polícia não tem o direito de colocar em risco a vida de uma pessoa. Num sequestro como o que atingiu sua irmã, seria regra elementar acompanhar o sequestrador a uma distância prudente e jamais atirar num carro em movimento com um refém dentro. A violência, quando tolerada, liberada ou estimulada, perde os freios. Quem paga a pior conta é quem morre sem o mais elementar dos direitos: de defender a própria vida.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 28 de junho de 2015, 15:08
  2. Republicou isso em Tropposfera Plus.

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    Publicado por ASCOM | 28 de junho de 2015, 10:43
  3. Caro Lúcio Flávio,

    Não me surpreende a prisão do João e da Kaká, e nem muitas outras coisas semelhantes, como a expulsão recente da ocupação do Solar da Beira pelas forças policiais. Infelizmente, eu me fazia a pergunta fatal “e quando a polícia vai aparecer pra acabar com isso?”. Digo isto de acordo com a lógica da cidade, a qual nem preciso explicar aqui. Nem também me surpreende que uma parte grande da população de Belém nem sequer reconheça a existência desses abusos de autoridade, dado o nível de isolamento mental no qual as pessoas vivem por conta do medo da vida pública, das ruas e dos debates, gerado pelo preconceito estimulado pela mídia. Mas, ao contrário, me surpreende a reação à prisão do casal. E me surpreende positivamente. Gostaria de ressaltar aqui a importância da repercussão desse caso, a sua devida investigação e a exposição de todos os elementos envolvidos nele, do que tu estás, devidamente, participando, além de muitos outros. A opressão em Belém eu a sinto na carne, encravada na minha história de cidadão da classe média privilegiada. Sim, de classe média, filho dessa classe que não consegue pensar cinco frases sem quatro delas começar pela palavra “não”. Digo isso porque conheço de dentro. O problema não é apenas de segurança pública, é também de saúde pública, porque as cabeças do nossos cidadãos estão cheias de medo, medo gerado pelo simples preconceito para com o vizinho. A nossa classe média acha que é a legítima herdeira da civilização francesa e luta quixotescamente pela sua defesa, julgando, por exemplo, os frequentadores e os donos do Oito e torcendo pelo seu desaparecimento, simplesmente porque, vivendo em seu mundo de fantasia, detesta quem tenta viver na realidade. O grande dilema da classe média é: como eu posso ser feliz num lugar onde não posso usufruir em paz dos bens (carro, celular, roupa etc.) que eu tenho? E, por isso, não entende um dilema muito mais simples: qual o problema de eu ser quem eu sou? A força policial de Belém e do Pará (e, por que não, do Brasil?) está a serviço da proteção de bens, de propriedades, garantidos pelo status daqueles que os possuem. Uma história: certa vez eu estava com minha mãe conversando num banco da casa das onze janelas. Eu sentei no banco com as pernas cruzadas. Como já era de se esperar, veio o guarda dizendo que não podia. Eu perguntei por quê. Ele disse: o banco é para sentar, não para pôr as pernas. conversando um pouco mais ele desabafou “não é por mim, é pela direção, eu não me importo, aliás, acho isso até estúpido, porque essas regras só servem pro status, e status não significa nada”. É a mesma situação do Oito. Fechar o Oito é uma questão de proteger o status de uma cidade com manias de grandeza, de “metrópole da Amazônia”, do seu passado glorioso etc. Tudo bobagem. Importa a Belém de agora, importa a Belém que precisa abrir as suas ruas e suas praças a todos, transeuntes, artistas, comerciantes, jovens, velhos etc. Não é preciso glamour, não é preciso abertura na Assembléia Paraense e nem foto no jornal. Não é preciso nada de grande para fazer o paraense se orgulhar no quadro nacional. É preciso que deixem os Oitos em paz e tirar o sono das Alunortes, dos Liberais, das RBAs, das Naturas e assim por diante…

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    Publicado por Estrela Canto | 28 de junho de 2015, 23:06

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