//
você está lendo...
Política, Violência

A morte dos PMs

O repórter de O Liberal pediu a opinião do comandante geral da Polícia Militar, identificado apenas por “coronel Campos” (seu primeiro nome é Roberto, o mesmo do pai, que também foi coronel da PM) sua opinião sobre a informação dada pela Associação de Cabos e Soldados da corporação, de que 19 militares já morreram neste ano.

O coronel Campos fez reparo à estatística. Disse que cinco desses mortos foram vítimas de acidentes de trânsito. Assim como não perguntou o nome do comandante, o repórter também não pediu ao entrevistado um esclarecimento importante: esses acidentes de trânsito aconteceram em missão? Ocorreram porque os policiais, em suas viaturas, perseguiam criminosos? Ou eles foram acidentados em sua vida de paisanos, fora do trabalho?

Sejam 19 ou 15 os PMs que morreram antes que o ano complete 10 meses, é um número assustador. Tem semelhança com os óbitos de militares no conturbado Rio de Janeiro, que tem exatamente o dobro da população do Pará. Significa dizer que a morte para os PMs paraenses tem o dobro do grau de risco dos seus colegas cariocas.

As causas são várias, desde o imprevisto no exato cumprimento do dever, em defesa da sociedade, para isso expondo sua vida, como dever de ofício, até acidentes em operações mal explicadas. De qualquer maneira, as baixas na força armada estatal são enormes e dizem bastante sobre o que está acontecendo nas ruas da capital paraense – e por todo Estado.

O governador Simão Jatene prestigiou, com sua presença, a posse do coronel Roberto Campos, em 9 de janeiro deste ano, no cargo que seu antecessor ocupara por três anos. Manifestou então seu  desejo que o novo comandante “consiga se impor o desafio de viver todos os dias do seu comando como se fosse o primeiro e o último. O primeiro, porque é fundamental ter a capacidade de se emocionar com as coisas simples, e o último porque, a medida em que o tempo se esgota para nós, nossas urgências aumentam. E a sociedade tem urgências que precisam ser encaradas por todos nós”, disse Jatene, com seu estilo floreado, abstrato e vazio de conteúdo por trás de palavras bonitas e conceitos decentes.

Mas até agora quase não se vê a sua presença nem o toque da sua condição de comandante-em-chefe da corporação. Por uma ironia bem tucana, o governador se apoderou da sede da Polícia Militar, num vasto conjunto de prédios e áreas que fora da Aeronáutica, na esquina da Almirante Barroso com a Doutor Freitas, ao lado da luxuosa sede do poder judiciário, arrebatada ao seu uso original, de escola de artífices, quando os líderes paraenses, sempre déspotas, também eram esclarecidos.

Ali, imitando o que o governador Jader Barbalho fez com a sede da Emater, na avenida Augusto Montenegro, para onde se mudou, abandonando o Palácio Lauro Sodré, tradicional sede do poder executivo estadual, no centro antigo da cidade criou seu bunker e se isola do povo e da vida real, protegido pela guarda na entrada e a muralha em torno.

O coronel Campos prometeu, nove meses atrás: “Acima de tudo vamos buscar melhorar os serviços prestados à comunidade. Cada vez mais queremos ouvir as pessoas, e isso, com certeza, vai ser uma das marcas da PM a partir de agora. Queremos que a polícia seja valorizada pela própria sociedade e vista como uma parceira. E para isso, também vamos capacitar e aprimorar nossos policiais”.

De lá para cá, 19 efetivos da Polícia Militar morreram em ação. Ou 14, como ele se permitiu corrigir o repórter do jornal, de olho nas estatísticas e, quem sabe, sem o mesmo cuidado pela realidade, Ou tem sustentação sua crença de que “Todo esse problema surge com o tráfico de droga”.

O problema existe e é sério. Mas agora virou um selo, ao qual se recorre para carimbar tudo, servindo de justificativa ou pretexto para violências físicas e manipulação de informação. Contra ou a favor dos protagonistas, mas, invariavelmente, à margem da sociedade.

Discussão

Um comentário sobre “A morte dos PMs

  1. Lúcio,
    Tive o prazer de conhecer Campos a uns 25 anos atras quando ele nem poderia imaginar chegar onde chegou
    Pelo que conheço dele, posso afirmar ser uma pessoa muito seria, determinada, competente e que nunca foge das suas responsabilidades.
    Nessa relação de mortes de PMs (e de muitos outras pessoas de bem) eu acredito que estamos já pagando o preço de uma permissividade que se implantou no pais onde todo mundo tem direito a tudo e ninguém tem nenhum dever, nenhuma obrigação para com nada.
    Está ruim, mas ainda vai ficar muito pior, a menos que se dê um basta nessa permissividade que vivemos
    Hoje um bandido vale mais que um policial, pelo menos na cabeça da turma dos direitos humanos.
    Pergunte a alguma viúva ou familiar desses 14 ou 19 _PMs se alguém do DH esteve na casa de pelo menos um deles para se solidarizar, para pelo menos dizer uma unica palavra de consolo que seja.
    Os valores de nossa época foram invertidos e que Deus nos proteja

    Eduardo Daher

    Curtir

    Publicado por Eduardo Daher | 31 de outubro de 2015, 10:35

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: