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Violência

Mais violência

Duas viaturas do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar foram enviadas ao bairro do Jurunas para dar segurança ao velório de Jaime Tomás Nogueira Júnior, que foi executado por oito homens encapuzados dentro de um hospital da Unimed, onde estava sob cuidados médicos, por ter sido baleado no abdômen, e sob custódia policial, por ter baleado e matado o soldado Vítor Pedroso, da PM.

Os homens do COE foram substituídos por uma guarnição da tropa de choque da PM quando saiu da casa em direção ao cemitério o corpo do criminoso, mais conhecido por Pocotó.
Enquanto a guarnição era mantida, estática, na casa de um bandido, deixando de cumprir a sua função, de atender a duas ou três mil pessoas na área da sua jurisdição, sua ausência contribuía para a insegurança de cidadãos. Nesse período, houve 320 boletins de ocorrência de furtos, bradou o deputado estadual coronel Neil, da tribuna da Assembleia Legislativa. Ele próprio, depois de 25 anos de serviço público, não teve direito a tanta deferência quando seu sogro morreu.

O povo, inseguro e revoltado pelo reconhecimento de direitos a bandidos que não lhe são estendidos, é terreno fértil para esse tipo de discurso, mas é preciso analisá-lo em profundidade para não permitir que, ao invés de contribuir para conter a violência, acabe por induzi-la a crescer.

O governo tem cometido erros crassos e constantes, que levaram ao descrédito o seu esquema de segurança. Mas agiu certo ao deslocar tropa tanto para a casa do homem que atirou no soldado quanto para o hospital, onde ele estava internado. Não foi para proteger bandido, como disse o experiente coronel da reserva, na condição de parlamentar, com isso insuflando a prática – cada vez mais constante – da justiça pelas próprias mãos, praticada individualmente ou em conjunto, por milícias paramilitares, bandos ou quadrilhas do crime organizado.

A iniciativa foi adotada justamente para prevenir nova chacina. No mundo da segurança (e da bandidagem, que com ela confina ou se embaraça), não havia dúvida: a invasão do hospital foi obra de colegas de farda do soldado Pedroso, não de criminosos. E o aparato montado para executar Pocotó e, em seguida, cobrar indenização na forma de outras vítimas humanas, era forte. Só com muito mais força podia ser dissuadido. A obviedade dessa situação é muito mais flagrante para uma pessoa como o coronel Neil, que atuou como militar em episódios parecidos ou equivalentes.

De fato, há uma inversão de valores que precisa acabar. Quem infringe as leis, em particular as penais, é bandido e deve ser tratado como criminoso. O rigor no cumprimento da lei, no entanto, não autoriza o lema de que bandido bom é bandido morto.

Alguém apanhado em flagrante delito ou preso no curso da investigação de um crime deve ser apresentado à autoridade judicial competente para que ela instaure o devido processo legal, com ou sem confirmação do que a polícia praticou até esse momento, e a partir daí a ação siga o seu curso até o desfecho justo.

Ninguém pode incorporar na sua pessoa a estrutura legal e os códigos, passando a ser a fonte de “justiçamento”. Quem assim procede também é criminoso e como tal precisa ser considerado. Rigor para todos, rapidez nas decisões e firmeza nos julgamentos.

Esse é o caminho necessário para enfrentar a gravíssima violência derivada da criminalidade sem limites, não o atiçamento de percepções primárias do problema e soluções à margem da ordem legal.

Quanto à reclamação do deputado de que seu sogro não teve a atenção dada ao bandido, apesar de seus 25 anos no serviço público, essa é uma pretensão incabível. A corporação não tem obrigação para com a sua família, que faz parte do seu mundo privado, como o dos meus leitores e o meu. Todos são iguais perante a lei.

Não seria o caso da morte do militar, mesmo quando fora de serviço, que deve merecer todas as homenagens de estilo se morreu cumprindo seu dever. Aliás, nesse ponto, os responsáveis pela segurança pública e a sociedade deviam meditar sobre as características das duas mortes.

Em ambas, os militares estavam à paisana, mas, armados, tentaram impedir a prática de um crime, num gesto de nobreza e desprendimento, até prova em contrário. Em ambos os casos, foram vencidos. Num episódio, com a perda da vida. Em outro, com ferimento grave.

Os criminosos saíram ganhando porque estavam em maior número (ou porque os militares estavam sozinhos), porque os militares foram surpreendidos ou porque os bandidos estão mais bem adestrados (ou dispostos) do que os policiais?

As perguntas merecem respostas.

Discussão

2 comentários sobre “Mais violência

  1. Lúcio é muita ingenuidade sua, achar que se entregue a justiça esse rapaz que matou o policial iria pagar pelo seu crime, os verdadeiros vilões são os que se alimentam das leis fracas que permitem a impunidade, tudo dentro da legalidade dos homens, por isso mesmo existe essa justiça paralela, esse rapaz era de família com dinheiro logo logo estaria nas ruas.

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    Publicado por Homem de Bem | 31 de outubro de 2015, 13:13
    • Será. Homem de Bem? Se a família se mobilizasse para valer, se engrossasse as adesões, de peitasse os ditos representantes populares, se fizesse manifestação em frente ao palácio da justiça, se fosse ficar na entrada do bunker do governador, se corresse pelas redações, se detonasse mensagens pela internet, se batesse à porta do Ministério Público e da Defensoria Pública – enfim, se saísse para a luta pelos seus direitos e a punição do criminoso, você acha que não teria resultado algum?

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 31 de outubro de 2015, 14:57

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