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Imprensa

Sem 30 moedas

Um dos temais mais polêmicos no seminário que a Folha de S. Paulo organizou para comemorar os seus 95 anos, na semana retrasada, foi o patrocínio da Odebrecht. A Fiesp, a federação das indústrias, também patrocinou o acontecimento, mas ninguém ligou para ela. As atenções se concentraram na Odebrecht, a maior empresa privada do país, a principal do escândalo de corrupção na Petrobrás.

A intenção da empreiteira era evidente: retocar sua imagem junto ao público, aparecendo ao lado mais vendido dentre os jornais de primeira linha do país. Era uma jogada incerta e acabou não dando certo. Na mesa redonda sobre a cobertura da Operação Lava-Jato sobraram críticas à Odebrecht.

Era um claro sinal de que o patrocínio não tornaria a empresa inimputável durante o encontro. Nenhum dos convidados foi submetido a qualquer restrição. Mesmo que o jornal quisesse controlar o que iriam dizer, não conseguiria.

O protesto feito por algum deles, ao cancelar suas participações em protesto pela presença da construtora, foi pura e desnecessária demagogia. Alguns, atuando em empresas como a TV Globo, são donos de telhados de vidro atirando na vidraça alheia, sem motivo para isso.

Como o próprio ombudsman da Folha reconheceu, o jornal nem precisaria recorrer à empreiteira ou ao órgão corporativo da indústria para realizar o seminário. Os convidados não receberam honorários e parte das despesas foi encontro de contas através de permuta. O encontro deve ter saído barato.

Eu não sabia ou não me apercebi da presença da Odebrecht quando recebi o convite da Folha para ser debatedor em uma das mesas. Coerente com a diretriz que este jornal adotou desde o seu primeiro número, de não ter publicidade, não aceitaria pagamento se ele viesse da Odebrecht (embora aceitasse – achando-o mesmo justo e normal – se o próprio jornal me tivesse remunerado). Como não houve honorário, apenas ressarcimento de despesas, a questão desapareceu antes de poder existir.

Saí satisfeito do seminário porque disse o que quis, contei com toda atenção dos organizadores e ganhei um destaque imerecido no noticiário da Folha. Não falei da Odebrecht porque ela não cabia no tema para o qual fui escalado, os desafios ao jornalismo por pressão política, ao lado de um jornalista venezuelano e outro argentino.

Espero que a empreiteira e qualquer outra empresa tenham aprendido do episódio a lição de que há jornalistas que vendem sua força de trabalho, mas não sua independência, integridade, autonomia e honestidade. Ser honesto é fácil, disse certa vez Millôr Fernandes: não há concorrência.

Discussão

2 comentários sobre “Sem 30 moedas

  1. é mto cômico ver aquela figura do xico sá(funcionario da GNT E SPORTV) desancando a “imprensa burguesa” …são esses os caras “admirados” na imprensa brasileira, hipocrisia a gente vê por aqui

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    Publicado por ricardo | 2 de março de 2016, 11:17

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  1. Pingback: Sem 30 moedas | Jrmessi's Blog - 2 de março de 2016

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