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Cultura

Cultura para quem?

Reproduzo a seguir – para destacá-lo – comentário de um leitor do blog. Com ele, espero atrair outros leitores para a discussão sobre a política cultural do Estado do Pará. Não em tese e teoria, mas na prática, com dados concretos, sobre os quais se possa definir uma trajetória alternativa à que vigora há duas décadas, personalizada na figura do polêmico arquiteto Paulo Chaves Fernandes.

Será considerável a herança que o secretário mais duradouro na história da administração pública estadual certamente deixará. Mas novamente ele confirma o dito popular: o poder absoluto corrompe absolutamente. Não estou me referindo a corrupção lato senso, pelo desvio de recursos. Mas pela vontade solitária (ou partilhada com uns poucos mais próximos) de quem decide tudo sem se submeter a qualquer órgão colegiado.

Para chegar neste ano à 15ª versão do festival de ópera do Teatro (o “th” é presunção; se valesse, teríamos que grafar pharmácia; o mesmo se aplica a Payssandu) da Paz, o secretário e seus acólitos sacrificam todos os ramos restantes na já não tão frondosa árvore da cultura. Sem falar nas verbas parlamentares destinadas ao setor, sem qualquer mediação valorativa, apenas para fazer o jogo fisiológico e de compadrio político.

Por que não fazer um projeto, a ser submetido a quem de direito (o Conselho Estadual de Cultura, por exemplo), com prova de títulos e outras exigências? Para onde vai o cenário e todos os apetrechos das óperas depois que o festival chega ao fim? Qual é a folha de pessoal e de despesas gerais dessas encenações? Os diretores e demais componentes do espetáculo fazem oficina, dão cursos, conversam com os artistas locais, transmitem seu saber e experiência?

Uma vez apresentados os números e encerrada a salva de palmas, tudo retorna ao que era. Qualquer acidente de percurso interrompe o festival e o que dele resta?

É isso que a sociedade precisa discutir, motivada pela carta do leitor, como se segue.

A hegemonia das casas de ópera na Amazônia é assustadora. Para além dos desmandos políticos de Paulo Chaves, também me percebo diante de desmandos estéticos. Os pequenos grupos e grupos históricos do teatro paraense, por exemplo, estão há décadas se fortalecendo e resistindo sem nenhum tipo de apoio do governo do estado.

Abrem teatros particulares que rapidamente são fechados pela falta de suporte financeiro para a sua manutenção, e mais ali adiante abrem de novo novos projetos para tentar continuar nadando contra a maré. Essa “precariedade” foi o que formou a todos nós nas escolas de teatro e de música da Universidade, por exemplo.

Ali gerações e gerações de artistas paraenses fizeram teatro nos porões de casas antigas, constituindo um público fiel da região que mais de uma vez ia assistir aos espetáculos em cartaz. Enquanto o Theatro da Paz brilha catatônico, embalsamado, com seus grandes festivais para inglês ver, os teatros de porões respiram, sempre vivos e em transformação.

Que Paulo Chaves tenha consciência do que está plantando, quando ele cair não haverá como se levantar.

Discussão

10 comentários sobre “Cultura para quem?

  1. Prezado Lúcio Flávio
    Por estar há quase 30 anos radicado no Espírito Santo, infelizmente não poderei, honestamente, fazer comentário com fatos e dados, a respeito da tão longeva gestão da cultura (?) no Pará. No entanto, creio que o leitor do blog, em seu inquiridor texto, mostra um caminho a ser percorrido por quem, verdadeiramente, está preocupado com os destinos desse segmento vital para a saúde cidadã de um povo – a cultura, em suas mais variadas manifestações. Endosso a preocupação de que, se após os aplausos não sobrar para os locais, produtores, criadores, artistas, sejam eles músicos, profissionais de cenografia, cantores, esses festivais são, mesmo, para inglês ver – e nada entender. Por fim, mas não menos importante, é imprescindível que se coíba a destinação de verbas de emendas parlamentares para “eventos culturais”, que nada agregam, e servem para cevar o fisiologismo e manter o nome dos autores dessas emendas em cena, com vistas às eleições vindouras. Não se pode sustentar essas “mamatas” a leite de pato.

    Jorn. José Maria Souza

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    Publicado por jmbsouza | 2 de março de 2016, 16:41
  2. na década de 1990 o governo do Amazonas conseguiu chamar atenção para a mídia trazendo músicos do leste europeu , resultado (não sei se as pessoas gostam) White stripes, Roger Watters e vários artistas para desespero da mídia do sudeste , eu era adolescente na época do guilherme della peña (governo Jader , a qual e detesto O PMDB paraense) haviam vários show de rock (que eu amo) e a cena de belém era infinitamente melhor , nada disso incomoda o pavão da cultura , talvez o pessoal do liberal goste em 2018 a parti de agosto que vier a suceder o belezão aparecerá liderando as pesquisa e subindo, subindo ,subindo até ganhar o 2 turno , e mais 4 anos de PSDB , esse cara que já encheu e muito o saco.

    oh prof. lúcio e demais leitores , falando em rock o maior festival do pará O SE RASGUM (muito dinheiro público) , até onde eu saiba as bandas paraenses não recebem cachê ,bem que merecia uma reportagem de algum colega ligado a cultura, eu não tenho competência pra fazer.

    essa e a cultura do Pará que ninguém divide :eu digo, não é, não.

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    Publicado por MARCO F.F | 2 de março de 2016, 16:59
  3. falando nesse cara professor lúcio, o senhor tem alguma informação onde está o MUIRAQUITÃ CARÍSSIMO QUE SUMIU DA ESTAÇÃO DAS DONDOCAS, este senhor já deu alguma explicação.

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    Publicado por MARCO F.F | 2 de março de 2016, 17:04
  4. Republicou isso em Jrmessi's Blog.

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    Publicado por jrmessi | 2 de março de 2016, 18:37
  5. Lúcio,
    Grata pela citação nessa postagem.
    A população precisa se reconhecer em suas tradições e imaginário. Aniquilar a cultura popular (ou dos populares) é uma forma de contenção política.
    Abs,

    Paloma

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por pal0 | 3 de março de 2016, 15:59

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