//
você está lendo...
Violência

Nunca mais?

A adolescente vítima de estupro coletivo numa favela do Rio de Janeiro saiu da sua casa e agora está sob a guarda do programa de proteção às testemunhas. Sua assistência jurídica foi assumida pelo Estado. O delegado por ela acusado de constrangê-la foi substituído à frente do caso por uma delegada muito experiente no trato da questão na polícia carioca. O Ministério Público abriu inquérito. O apoio a ela nas redes sociais se expandiu.

Para uma situação de emergência, não se pode exigir mais, ao menos para o padrão brasileiro. No entanto, uma reversão nos altos índices de agressão às mulheres, que vai da ofensa verbal ao estupro e ao homicídio específico, que tem por motivação a condição feminina da vítima (o feminicídio, que ainda não foi devidamente dicionarizado, como já está o infanticídio, outra chaga criminal no país), ainda é incerta.

Algumas mudanças, como as culturais, em torno do machismo e do patriarcalismo, ainda precisarão de muito tempo para se completarem, em alguns casos nem mesmo tendo se iniciado. Outras podem ser introduzidas de forma imediata por algumas leis, exigência de cumprimento de outras, programas dirigidos e recursos compatíveis com a extensão das iniciativas.

A situação nacional é calamitosa nesse item, como em quase toda a agenda social no Brasil. Pelo critério dos homicídios, o Brasil é o oitavo país mais violento do mundo. Aplicado o índice universalmente, é como se estivéssemos numa guerra civil declarada.

A declaração é repetida quase mecanicamente, esvaziando seu conteúdo dramático. Muitas pessoas falam disso da boca para fora. Ajudam – ainda que involuntariamente – a esvaziar o problema sem que a solução seja buscada. A guerra avança como se não tivesse limites possíveis no quadro legal.

Pessoas situadas no amplo espectro cultural, ideológico e político de posições, cada vez mais antagonizadas e reciprocamente intolerantes na atual conjuntura, costumam sentenciar sobre o que simplesmente desconhecem. Repetem palavras de ordem, chavões, frases feitas e pensamentos irredutíveis, que não se expõem à demonstração e à prova da verdade. Daí a proliferação de tabus e mitologias, que distanciam o pensamento da realidade, o programa do alvo a que se destina.

Milhões de pessoas devem ter adormecido ontem com a cabeça formada pela reportagem do Fantástico sobre o estupro. A entrevista com a adolescente foi evidentemente conduzida para enquadrá-la numa fórmula pronta, o roteiro de novela, para render sucesso comercial e difundir uma sutil interpretação.

A repórter do programa dominical da TV Globo parecia mais emocionada do que a jovem. com um tom de dramaticidade capaz de suscitar dúvidas sobre a sua autenticidade. A vítima respondia de tal maneira que parecia empenhada em se desvencilhar dos nós tecidos pela condução das perguntas. A repórter queria cada vez mais emoção, quem sabe um choro, para a dramaturgia jornalística, termos incompatíveis num procedimento profissional correto, que busca a realidade, não a ficção.

Garantida a incolumidade da vítima do crime hediondo e toda proteção possível à sua intimidade, à distância de todos, nas melhores condições de amparo e conforto para uma recuperação o mais próxima do desejável para a sua condição, a investigação prossegue.

E deve prosseguir numa direção: escancarar as condições que favorecem a proliferação dos crimes, sobretudo contra a vida, em versões cada vez mais selvagens. Passar da culpa e da responsabilidade individuais para o plano estrutural, das instituições, do sistema, de todos.

A pergunta fundamental quando fatos dessa gravidade se revelam é: eles poderiam ter sido evitados? Se a resposta é positiva, a questão seguinte passa a ser: por quem? De que forma? Por quais canais de acesso? Com que proteção?

A maior lacuna na reconstituição dos fatos nesse caso foi a demora numa iniciativa. A vítima, evidentemente, era a que estava em condições menos favoráveis a uma reação. Como a regra em tais situações, ela diz que teve vergonha de revelar o que lhe acontecera. Mas tem mãe e avó, no pouco que se sabe da sua vida. Tem família, portanto. Assim como, provavelmente, amigas.

A avó da menina disse à imprensa, no dia da revelação da agressão, que a neta costumava ir até a favela na região oeste do Rio desde os 13 anos e, às vezes, passava alguns dias sem dar notícias. Ainda segundo a avó, a garota é usuária de drogas há cerca de quatro anos. No entanto, segundo ela, nunca recebeu notícias de que a neta tenha sido vítima de outros abusos. Seu filho, um menino de 3 anos, teria por origem uma gravidez voluntária.

Uma violência tão degradante como a que ela sofreu jamais poderia ser perpetrada sob o manto protetor do silêncio. Abusada sexualmente, e das formas mais torpes, por três dezenas de homens (ou mais), que acabou desmaiando, com a possibilidade de também ter sido dopada, a adolescente devia estar em condições físicas terríveis, além das morais (já que, como ela disse, a violência lhe doía mais na alma do que no corpo).

A reação, porém, só começou com a divulgação do vídeo pelos próprios estupradores, com seus comentários vulgares e agressivos. A jovem foi ao hospital para atendimento e fez perícia, quatro dias depois das agressões. Ontem, os peritos anteciparam parcialmente o resultado do exame com uma frase que exigiria esclarecimentos: que a apuração do estupro da menor iria desfazer o senso comum da população sobre esse crime.

A nebulosa emanada dessa expressão teria que ser desfeita imediatamente para não induzir interpretações estabanadas ou indevidas. O exame foi prejudicado pela providência tardia, justificada naturalmente pelo receio de ir à polícia e outros hábitos decorrentes do descrédito popular nas instituições.

Por isso, não havia mais sangue no corpo da jovem quando ela foi submetida à perícia. Esta limitação, porém, não impede outros métodos de abordagem para esclarecer os fatos.

O esclarecimento é absolutamente necessário para que esse caso seja realmente um demarcador histórico. Antes da agressão sexual coletiva o Brasil era um em matéria de violência contra a mulher. Passou a ser outro a partir daí, quando o país encarou a verdade e tomou-a como parâmetro e inspiração para coletivamente proclamar: este tipo de violência, nunca mais.

Nunca mais?

Discussão

2 comentários sobre “Nunca mais?

  1. Lúcio,

    A violência contra a mulher sempre foi muito alta no país. Relito das culturas passadas. Foram adotadas novas leis para reduzir esse abuso visando acelerar a nossa marcha a uma civilização mais respeitosa e harmoniosa. A aplicação da lei é um instrumento importante para produzir a mudança esperada de comportamento, mas ela sozinha não fará a diferença.

    Minha hipótese de 20 anos atrás é que com democracia e mais acesso a educação, a nossa sociedade ampliaria os seus horizontes, abraçaria as diferenças, desenvolveria a tolerancia e se tornaria mais responsável com os destinos da nação.

    Vã ilusão. Estamos caminhando para a barbárie. Nunca se roubou tanto, nunca se matou tanto, nunca se violentou tanto e nunca se radicalizou tanto. De vez em quando, ficamos assustamos com o rumo que estamos tomando. Em vez de entender bem o problema e resolvê-lo, fazemos um puxadinho e vamos empurrando as coisas com a barriga. Conseguimos sobreviver até aqui como uma nação por uma combinação de sorte e jeitinho. O jeitinho não funciona mais e a sorte já nos abandonou.O que será do futuro?

    Curtir

    Publicado por Jose Silva | 30 de maio de 2016, 12:25
  2. Lendo as notícias sobre isso me fez lembrar o caso da jovem que acabou presa por engano (?) e sodomizada em uma ala masculina de uma delegacia no Pará (Santa Izabel?). Foi um escândalo do governo Ana Júlia. O que aconteceu com essa garota e com os responsáveis por essa bárbarie?

    Curtir

    Publicado por Daniel Santos | 30 de maio de 2016, 13:15

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: