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Imprensa

Meio século (11)

Em 1969 a imprensa brasileira estava proibida de fazer qualquer referência a D. Helder Câmara, o arcebispo de Olinda e Recife, “o vermelho”, detestado pelo regime militar.

A censura marcava em cima. Não permitia nem a transcrição dos numerosos telegramas de agências internacionais de notícia sobre as andanças do religioso pelo mundo. Cotado para prêmio Nobel da paz, foi sabotado pelo governo do seu próprio país.

Mas meu chefe no plantão do Diário de S. Paulo, José Eduardo de Faro Freire, era tinhoso. Soubera que D. Helder estava na capital paulista e queria que o localizasse. Mesmo que a matéria não saísse, ia endossá-la junto aos editores. Era preciso abrir uma fenda no bloqueio e o jornal dos Diários Associados, já em decadência, talvez burlasse a vigilância do Grande Irmão (não confundir com essa “coisa” de Big Brother de hoje).

Passei toda a manhã e parte da tarde circulando pelas casas religiosas da cidade e nada do bispo subversivo. Já quase três da tarde bati à porta do convento dos dominicanos, na aprazível rua Caiubi, em Perdizes. Lá estivera várias vezes para conversar com meu colega do curso de sociologia, frei Tito de Alencar (que se suicidaria na França, atormentado por pesadelos com seu torturador, o delegado da polícia civil Sérgio Paranhos Fleury). E mais adiante para conversas com o poeta e crítico Augusto de Campos, irmão do parceiro de vanguarda literária, Haroldo.

O porteiro, normalmente atencioso e gentil, quase não abriu a enorme porta e só faltou me enxotar, antes de fechar de novo a entrada do convento. Na saída, vi uma Veraneio na contramão, desocupada. Era a viatura símbolo da repressão, com uma frota doada por empresários à terrível Oban (Operação Bandeirantes). Embarquei na sutil Rural do jornal, pintada de amarelo e vermelho (antes de Carlos Santos expor suas lojas em Belém com as cores discretas).

O motorista, um cearense arretado da peste, ligou o motor. Eu lhe disse que ficaríamos mais um pouco à espreita. Eu estava desconfiado daquele cenário, que cheirava a polícia. O motorista bufou e o fotógrafo, Narciso (esqueci do sobrenome), já em vias de se aposentar, ameaçou se rebelar.

Felizmente, porém, ainda prevalecia a regra de que o comandante da expedição era o repórter. Eles podiam ir, mas eu ia ficar e na volta relataria o caso à chefia. De mau humor, os dois cederam.

Esperamos mais de meia hora até que as portas do convento se abriram. Seis agentes da Polícia Federal (à moda da ditadura, muito diferente da atual) saíram, armados de metralhadoras. No meio deles, frei Ivo, um dos dominicanos presos por participar do esquema de Carlos Marighela, na luta armada contra o regime.

Desci da “perua” (como se diz em SP), tirei minha identificação de repórter e, exibindo-a, fui para cima do grupo, alertando-o da minha condição. Dois agentes vieram na minha direção, com a arma empunhada. Outro PF, mais atrás, orientou-os a nada fazer.

Caminhavam a passos apressados. Sem furar o cerco, comecei a tentar uma conversa com frei Ivo, que sabíamos preso desde a morte de Marighela, dias antes (que testemunhei, no fim do expediente noturno no Diário).

A primeira pergunta, para não variar, foi desastrada:

-O sr. está bem?

Resposta irônica de Ivo, que me conhecia das visitas a Tito:

-O que você acha?

Desconversei:

-O que veio fazer aqui?

-Buscar roupa e alguma coisa – respondeu.

-Está sendo bem tratado?

O agente que parecia o chefe cortou a conversa, com mais ironia:

-Ele está ótimo. Muito bem tratado.

Chegaram à caminhonete e empurraram frei Ivo para dentro. O motorista só destravou a marcha. O carro desceu pela ladeira e só um pouco depois o motor foi ligado. Sumiu numa esquina.

Voltei triste, mas empolgado pelo “furo”. Quando entrei na nossa Rural e olhei para o fundo, lá continuava, pálido, o fotógrafo. Narciso não saíra do carro. O motorista, sem olhar para trás nem para mim, comentou, quase não pronunciando as palavras, com ar de desprezo:

-Cabra frouxo. Se mijou.

Voltamos para a redação num silêncio de velório (que, aliás, não existe mais). Escrevi o texto e o entreguei ao Zé, que perguntou pelas fotos.

-Narciso não fez – respondi.

O grande José Eduardo de Faro Freire entendeu. Não disse mais nada. No dia seguinte a matéria saiu com destaque nos três jornais que “seu” Chatô ainda mantinha nas ruas na maior cidade da América do Sul e das maiores do mundo, o Diário de S. Paulo, o Diário da Noite 1ª edição (capa em azul) e o Diário da Noite 2ª edição (capa em vermelho).

Eles já não tinham qualquer influência, daí, talvez, a desatenção da censura. Sem foto a matéria perdeu uns 90% do seu potencial. Mas eu ficara sabendo pela primeira vez, de forma mais convincente, que não era um covarde.

Já era um começo.

PS – Estarei um pouco desligado do blog pelos próximos dois dias.

Discussão

5 comentários sobre “Meio século (11)

  1. Me lembro da posição de d., Helder, antes do golpe …que tanto apoiou.

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    Publicado por Dulce Rosa Rocque | 27 de junho de 2016, 20:18
    • Oi, Dulce. Dom Helder era, nessa época, sob o comando de d. Eugênio Sales, um arcebispo autoritário, de posição conservadora, depois de ter sido militante do integralismo, admirador de Plínio Salgado (como San Thiago Dantas e vários outros da chamada “esquerda positiva”, que se manifestavam contra o capitalismo e o comunismo ao mesmo tempo). Mas não chegou a apoiar o golpe.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de julho de 2016, 10:23
  2. Nossa!, Lucio , não sabia que você tinha sido colega do Frei Tito no curso de Sociologia em SP. Você realmente desfrutou de grandes companhias na sua juventude .Gente de fibra , batalhadora . Certamente isso também contribuiu na construção do teu espirito de resistência e na tua coragem diante dos desafios do mundo . Que bom !

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    Publicado por Marly Silva | 29 de junho de 2016, 19:47
    • De fato, Marly, essas companhias foram muito importantes para a minha formação. Tito era uma pessoa doce, que se ligara a Marighela por impulso generoso. Não tinha estrutura para suportar a tortura que sofreu. Fleury se apossou da alma dele. Só conseguiu se libertar da tortura mental pelo suicídio. Nunca esqueci as conversas que tínhamos no clima melancólico e pesado dos fins de tarde no barracão – literal – das ciências sociais do campus (às ciências sociais, consideradas subversivas pelo regime, sempre eram destinados barracões, como em Belém, na avenida Generalíssimo Deodoro).

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de julho de 2016, 10:26
  3. ” Voltamos para a redação num silêncio de velório (que, aliás, não existe mais)…… ”

    Realmente, passaram-se meio século !!

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    Publicado por Sou daqui. | 30 de junho de 2016, 17:53

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