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Imprensa

Meio século (17)

DO alto do Cessna 320, teco-teco que fretei por três dias, eu podia ver lá embaixo a cena inédita: o ingresso no rio Amazonas de duas estruturas metálicas, que navegaram por 20 mil quilômetros pelos mares, comboiadas por quatro potentes rebocadores.

O milionário americano Daniel Keith Ludwig as encomendara ao estaleiro da Ishkawajima-Harima Heavy Industries em Kure, no Japão. Ludwig se tornara dono do estaleiro por ordem do general MacArthur, o vice-rei do Japão derrotado pelos Estados Unidos, no pós-guerra. Depois devolveu a propriedade. Mas reteve 20% das ações da companhia. Era ao mesmo tempo cliente e dono no negócio.

Uma transação pioneira de 200 milhões de dólares (valor da época). Uma daquelas enormes estruturas era uma fábrica de celulose. A outra, uma usina de energia, que podia funcionar a lenha ou a óleo diesel. Construindo-as no Japão, Ludwig, já com 80 anos, economizaria tempo e dinheiro para fincá-las em seu autêntico reino, no vale do rio Jari, entre o Pará e o Amapá, que ele imaginava ter pelo menos 1,6 milhão de hectares (ou 16 mil quilômetros quadrados)

Eu acompanhava o projeto Jari quase desde o início da sua implantação, em 1967. Primeiro, admirando os feitos de Ludwig na selva. Depois, duvidando que pudessem dar certo. Por fim, o combatendo. Sem deixar, contudo, de admirar sua disposição e inventiva. Um adversário (condição em que ele se declarou a mim) com quem se aprende.

Acompanhei as duas estruturas saírem do largo Amazonas e entrarem no nem tão estreito Jari, provocando perigosas ondas ao longo de sua navegação. Finalmente, se alinharam num dique montado no distrito industrial de Munguba.

Nesse momento o piloto começou a voar em círculos para que eu fotografasse por vários ângulos aquelas capitais capitalistas. Empolgado pelas imagens, perdi a noção de sistância com a teleobjetiva fixada ao rosto. Saí do transe ao sentir o impacto do puxão do piloto.

Sem perceber, eu estava ultrapassando o ponto onde devia estar a porta do passageiro, retirada (junto com o banco dianteiro) para não atrapalhar a ação do fotógrafo amador que eu era. Por pouco, não cai no vácuo. Morreria, talvez, como herói, não como o desastrado fotógrafo improvisado (porque alguns companheiros de viagem tolhiam os meus movimentos).

Passado o susto, concluímos a jornada. Não pudemos pousar porque eu era, na época, persona non grata ao dono do projeto, que se desagrada das minhas críticas e decidira proibir meu ingresso ao seu império, no qual exercia o mando ao estilo de um senhor medieval, voluntarioso e duro. Mas eu voltaria mais uma vez ao Jari para ver as duas máquinas funcionarem.

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