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Cultura

Barata sob tapete de concreto

Um leitor, que preferiu se manter sob anonimato, comentou e enriqueceu a nota que escrevi sobre o abandono do museu dedicado a Magalhães Barata. Endosso os dados porque os divulguei na época em que foi construído o prédio.

O Museu foi objeto de um concurso no governo de Hélio Gueiros, que teve uma ideia aparentemente boa – pelo menos na perspectiva dele – tal seja a de designar sua própria filha para presidir a comissão do concurso (uma modalidade de licitação).  A mesma filha, aliás, cujo casamento provocara uma mutação importante na então residência oficial do Governador – atual sede da Secult – que foi a construção de um gazebo para a boda (depois transformado em restaurante da cadeia Pomme d´Or, pelo menos até a última vez que lá estive).

A comissão preteriu a proposta do arquiteto Euler Arruda, uma lâmina de concreto que se elevava do solo por uma das pontas e servia de porta de acesso para um museu totalmente subterrâneo. A comissão preferiu o chapéu do Barata, que logo foi confundido com a nave da Xuxa, então muito conhecida por ser o cenário do programa matutino da Rainha dos Baixinhos.

Não sei se foi uma boa escolha e tampouco recordo quem é o autor da obra, mas depois fiquei sabendo, por boa fonte – o arquiteto Paulo Elcídio – que o preterido colega Euler Arruda lhe explicou que sua proposta era, na verdade, sugestiva da ponta de um tapete para baixo da qual se varreria o lixo da história, que seria Barata. Admitamos a sutileza do opróbrio. A comissão livrou Barata dessa sutil ignomínia.

Mas, a esta altura, não se pode deixar de reconhecer a má sorte do caudilho, que se livrou de ser varrido para baixo de um tapete de concreto, mas não se livrou de ser varrido pela incúria oficial, muito semelhante a que vitimou o Monumento à Cabanagem – única obra de Niemeyer no Pará – e seu acervo, nada mais nada menos que os despojos mortais de alguns de seus líderes.

E assim vai sendo contada a (des)história do Pará.

Discussão

2 comentários sobre “Barata sob tapete de concreto

  1. Querido Lúcio,

    Recentemente, tomando um ônibus “errado”, que escapuliu de repente pros lados da Augusto Montenegro, eu entre sobressaltado e exasperado a vista de qualquer nova paragem, tarde da noite, em Belém, pensava, “onde é que vou descer?” e, emendava, “será que escapo dos malacos dessa vez?”… nisso, olhei pela janela e vi o monumento à Cabanagem, afundado, soterrado entre concretos, fumaças e ignorâncias, decadente, mas ainda respirando, como a história e a cidade…

    Parabéns pelo blog, sou leitor assíduo e divulgador dele.
    Ps. Preciso de um contato seu pra agendar de buscar a tese. Meu email: pauloforest@gmail.com

    Abraços,

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    Publicado por Paulo Vieira | 31 de agosto de 2016, 10:33
  2. Com relação ao abandonado do monumento aos cabanos, lá no Entroncamento, me lembro que fui cumprir uma pauta do meu jornal em Barcarena e Abaetetura, pois Carlos Rocque, conhecido nosso, havia anunciado que iria exumar corpos que acreditava de pessoas ligadas àquele movimento revolucionário. E, em seguida inumar os restos naquele mausoléu idealizado por Niemeyer que, inclusive, tem um vitral de Marianne Peretti, a mesma que criou os vitrais da catedral de Brasilia.
    Rocque, um esforçado, acabou encontrando num certo local, que foi por ele escavado, um cranio e um osso que especialistas não confirmaram e nem desmentiram, ter pertencido a qualquer pessoa envolvida na Cabanagem. Então, munido de suas descobertas, Rocque retornou de lá com os ossos e um saco de terra. E tudo foi parar na inumação que ele cerimoniosamente, com pompas e circunstâncias, instalou no Entroncamento. Um dia, nova pauta: moradores de rua invadiram o mausoléu, reviraram tudo e acabaram, definitivamente, com a homenagem pretendida pelo saudoso Carlos Rocque naquele expressivo monumento.

    Curtir

    Publicado por agenor garcia | 31 de agosto de 2016, 10:48

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