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Justiça, Política

Sangria republicana

Agora não há mais dúvida: com a decisão retalhada de hoje do Senado, que destituiu Dilma Rousseff da presidência da república, mas manteve intactos os seus direitos políticos, a elite política brasileira deu o mais largo passo na direção contrária à que foi desencadeada pela Operação Lava-Jato.

Políticos de numerosos partidos que atuam no Congresso Nacional começam a abrir válvulas de escape para colegas e correligionários que estão sendo processados pelo juiz Sério Moro, por ele já foram condenados ou com ele negociam delações premiadas, ou respondem a processos em outras comarcas e instâncias judiciárias. Entre eles, quase seis mil prefeitos e ex-prefeitos, que certamente vão pedir a extensão para si do insólito benefício concedido hoje a Dilma Rousseff.

Para espanto geral, ao final da estranha votação, que separou punições umbilicalmente conexas, os líderes dos partidos, inclusive do PSDB e do DEM, admitiram que vão se conformar com a decisão para não sujeitar todo processo a uma anulação em caso de questionamento judicial. Apenas o fisiológico Solidariedade, talvez em função do ponto a que a impetuosidade do seu líder maior o conduziu, disse que irá bater à porta do Supremo Tribunal Federal.

A mais estranha das reações foi a da advogada Janaína Paschoal, uma das autoras da denúncia original contra Dilma. Ela também antecipou que não recorrerá, embora não se possa especular sobre uma revisão completa do processo a partir de questionamento específico sobre a inovação de última hora no julgamento final.

A metamorfose que aconteceu como por passe de mágica no ambiente no Senado, antes e depois do salvamento do mandato da presidente, sugere que cada partido está tratando de providenciar um salvo conduto político para seus integrantes em má situação perante a justiça, tirando-os da órbita do juiz federal de Curitiba, contando para isso com a adesão tácita do presidente do STF, Ricardo Lewandowski. Sua participação no grand finale explica os elogios rasgados e unânimes que recebeu.

Tão ou mais surpreendente foi a reação da agora ex-presidente. Sem esperar pelo segundo ato da tragicomédia, ela convocou a imprensa para anunciar que não se conformará com a perda do mandato. Vai reagir ao ato, que para ela continua a ser golpista. Mas também pretende liderar um combate sem tréguas ao governo intruso e traidor de Michel Temer.

Como interpretar essa sua posição? Ela achava que também seria inevitável a inabilitação depois da cassação? Não sabia dos acertos de bastidores? É uma pantomima para que, com suas pretensões ao seu dispor, já vai começar uma campanha para as eleições de 2018? Ou não acertaram com ela o esquema ou não lhe deram ciência para preservá-la?

Numa sucessão de espantos, outro adveio das declarações do líder do PT no Senado, Humberto Costa. Ele disse que a questão de saber se, punida por um colegiado da justiça, como é o Senado  no exercício de função judicante ao julgar crime de responsabilidade do presidente da república, sua elegibilidade teria que ser submetida ao STF por causa da lei da ficha limpa.

É uma supina asneira. A lei não abrange o presidente da república, “apenas” governadores, prefeitos e parlamentares. Não por incúria ou imprevisibilidade, mas porque a questão é definida – direta e originalmente – pela Constituição. Tão categórica e determinante no seu comando que dispensou qualquer forma em lei inferior de complementação ou regulamentação.

Entendimento manso e pacífico até os senadores montarem a farsa de hoje, livrando a presidente da punição integral e abrindo as porteiras da impunidade para alguns dos piores políticos da história do Brasil, às vésperas de finalmente serem pegos em flagrante delito, junto com seus cúmplices.

A república sangra.

Discussão

5 comentários sobre “Sangria republicana

  1. E como sangra. A Dilma está acabada politicamente e ninguém em sã consciência a colocaria em um cargo público. Desta forma, a decisão do Congresso para ela não tem valor algum. Com isso, ela perdeu a sua posição de mártir.

    Essa jogada de hoje tem certamente múltiplas más intenções escondidas. Saberemos mais a medida que a Lava-Jato colocar na rua, de fato, tudo o que ela conseguiu apurar. Acho que o MP estava aguardando a hora certa. Espero que não sobre pedra sobre pedra.

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    Publicado por José Silva | 31 de agosto de 2016, 21:20
    • Não descarte de vez o molde de mártir para Dilma.
      Não subestime a capacidade dessas raposas de criar entraves para a Lava-Jato.
      De qualquer maneira, tudo está se acirrando ainda mais. É difícil que a decisão de hoje consiga anestesiar completamente o país.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 31 de agosto de 2016, 21:30
      • Creio que as coisas se acomodarão somente um pouco, até a nova investida da Lava-Jato. Tudo tem o seu tempo. Essa semana foi o tempo de nos livrar da presidenta eleita cuja competência era fraudulenta na teoria (você lembra que ela dizia que tinha o mestrado sem nunca ter concluído o curso?) e na pratica. Creio que logo, logo, a Lava-Jato vai anunciar algumas coisas interessantes que devem ajudar um pouco a limpar a política brasileira.

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        Publicado por José Silva | 1 de setembro de 2016, 08:31
  2. As pedaladas fiscais foi só uma desculpa para o impeachment, não tenho duvida que outros presidentes irão dar suas pedaladas no futuro sem que os mesmos sejam punidos. O objetivo de todo esse espetáculo era apenas tirar o PT do meio do caminho abrindo espaço para volta dos partidos de oposição. Objetivo conseguido o discurso vai ser de união em prol do país. O PSDB já está de olho em 2018, resta saber se o PMDB de Temer fará o mesmo que Itamar Franco abrindo espaço para o FHC.

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    Publicado por Marcelo Gomes | 31 de agosto de 2016, 21:51
  3. A meu ver os grandes partidos , a começar pelo PMDB , pactuaram o calendário do impeachment da presidente eleita Dilma Roussef para imediatamente antes das eleições , e (pasmem!) antes do julgamento do corruptíssimo e desprezível Eduardo Cunha – que nem a Sara Nossa Terra conseguiu corrigir com a sua conversão religiosa – já pensando nas tramas que poderiam ser tecidas e vir a beneficiá-los no jogo jogado nesta semana de trabalho intensivo no Senado , de modo a render dividendos partidários-eleitorais para 2016 e 2018 . O apetite pelo poder é insaciável …
    O Brasil e os brasileiros ? Ah! ” deixa pra lá” …
    Só uma Constituinte Popular e não esta que está aí , pactuada por um Congresso elitista , que deixou outras tantas ” válvulas de escape ” e distorções, de que o sistema politico-eleitoral brasileiro é testemunho , poderá por fim a este triste cenário institucional .

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    Publicado por Marly Silva | 1 de setembro de 2016, 06:48

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