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Ecologia

Motosserra no campus florestal

Fui ontem dar a aula magna na abertura do II Congresso Amazônico de Meio Ambiente e Energias Renováveis (Engenharia, Meio Ambiente e Desenvolvimento Energético na Amazônia). Ao chegar ao campus da Universidade Federal Rural da Amazônia (antiga FCAP), tomei um susto.

Ao lado do ICA, (o Instituto de Ciências Agrárias, onde é dado o curso de engenharia florestal), está instalado um escritório comercial do fabricante de motosserras Stihl. Sim, a ferramenta que contribui decisivamente para a destruição da floresta amazônica.

A empresa tem o direito de produzir e comercializar essa máquina, em tese neutra, como um revólver ou um míssil, mas que na prática é a principal ferramenta usada para por  abaixo a mata nativa da região e desencadear uma série de efeitos maléficos, alguns ruinosos, uns tantos desastrosos.

Mas que ela se instale num centro de saber voltado para o conhecimento da natureza amazônica e para o ensino do respeito ao meio ambiente é um absurdo. Pois lá está há mais de dois anos a Stihl fazendo palestras, treinando os alunos dos cursos de agrária e florestal a manejar o equipamento, realizando exposições e feiras, sob o manto protetor de uma instituição do ensino superior dedicada ao meio ambiente. Nem o mais predador dos sujeitos conceberia tamanha impropriedade.

Ao iniciar a minha palestra pedi à direção da Ufra que desfizesse a relação com a fábrica de motosserras e a retirasse de dentro do campus. Meu apelo foi público, sincero e candente. Vou esperar agora pela resposta concreta da direção da universidade.

Discussão

23 comentários sobre “Motosserra no campus florestal

  1. Lúcio, os engenheiros florestais precisam aprender a manejar a motoserra para fazer manejo sustentável da floresta. Não dá mais para fazer isso com machado. Agora, eu concordo integralmente com você que ter uma empresa instalada no Campus fazendo propaganda é demais. Seria o mesmo que ter uma empresa de defensivos agricolas ensinando os alunos de agronomia.

    A UFRA deveria ser a instuição lider mundial no ensino de manejo florestal sustentável e de sistemas agroflorestais. O que falta para isso? Será que a instituição virou apêndice das grandes empresas e seus pacotes “tecnológicos”?

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    Publicado por Jose Silva | 13 de setembro de 2016, 16:21
    • Realmente as motosserras são necessárias e reconheci no artigo o direito da Stihl de vendê-las tanto quanto o fabricante de revólver. Mas não no ambiente acadêmico. O campus universitário deveria ser impermeável a esse tipo de companhia.
      Vou aguardar uma resposta da direção da Ufra.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de setembro de 2016, 18:37
      • Você está completamente equivocado Lucio. Não cabe fazer este juízo de valor desta maneira. Se houve um processo licitatório versando sobre publicidade e a empresa venceu: tchau. A Eletrolux tem uma divisão de motosserras chamada Husquarna e nunca vi alguém criticar a publicidade da empresa ou fazer esta injunção indevida

        Estás confundindo o mensageiro com a mensagem. Isto é uma decisão interna da UFRA.

        É sim direito Dela empresa anunciar onde licitamente puder.E onde couber publicidade.

        Mau momento Teu.

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        Publicado por Celso. | 7 de janeiro de 2019, 11:25
      • Uma empresa privada se instalou dentro do campus de uma universidade pública federal. Só esse fato já não é razoável nem lógico nem ético. A Stihl tem todo direito de anunciar e vender o seu equipamento, mas não dentro da Ufra. Ah, disseram e dirão sempre os que se colocam a favor dessa iniciativa: a motosserra é um equipamento como outro qualquer, podendo ser usado em grandes desmatamentos ou no preparo de um jardim. O problema seria o seu uso. No caso da Ufra, o problema é que a Stihl, além de se aproveitar comercialmente de um ambiente acadêmico, inocula a sua mensagem, patrocina atividades e deve gerar um estado de espírito desfavorável às críticas.
        Nenhum curso de engenharia florestal (ou agronômica) tem o direito de pretender formar pessoal habilitado para o desenvolvimento sustentável, como diz a Ufra ser uma das suas missões sem uma visão bastante crítica do uso e abuso das motosserras e a falta de uma regulamentação para o seu uso. Em matéria de floresta, a motosserra é uma arma, não exatamente uma ferramenta.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 7 de janeiro de 2019, 11:47
  2. Nossa , Lúcio , que horror!
    Definitivamente você não merecia isso , e muito menos as árvores .Parece pura provocação .
    O mundo acadêmico está andando selvagemente para trás sob a ingerência de gente estupida, hipócrita , oportunista , corrupta . Não faz muito tempo houve denuncias de corrupção na UFRA , no Instituto Federal Tecnológico ( antiga Escola Técnica) e também na Fadesp na UFPA .
    Daqui para frente pense duas vezes antes de aceitar convites acadêmicos : pode ser uma cilada !

    No ultimo domingo também levei um baita susto . Sai de casa no final da tarde para dar uma olhada na Feira de Artesanato do Hangar , disparecer um pouco , mas quem disse ! Quando passo na frente da Escola Profissional do SENAI ( na esquina da Duque de Caxias com a Barão do Triunfo ) deparo com uma paisagem simplesmente deprimente .Todas as cinco arvores antigas, históricas , de flamboyants viçosos , floridos , derramados no amplo jardim do prédio , foram impiedosamente reduzidos a cavaco de madeira nas laminas das eficientes motoserras ( devem ser da STHIL) . E justamente na data em que o sistema S ( SENAI, SESI E SESC) fazia publicidade nos jornais daos 70 anos de sua existência . Uma existência que no bairro do Marco esta se configurando um atentado ao patrimônio arquitetônico e agora , paisagistico com a reforma do prédio . Crime ambiental 😕 Com certeza , afinal o sistema S funciona com recursos públicos ( creio que é a mais longeva parceria público-privada do pais ) , o p´redio em reforma é público , as arvores são patrimônio público e não deveriam ser executadas .
    resta saber o seguinte : A Secretaria Municipal de Meio Ambiente – SEMA , na pessoa do seu secretário , deu autorização para a derrubada das árvores ? sob que argumento ? que estavam doentes ? Não duvido , porque em Belém toda vez que engenheiros e arquitetos resolvem eliminar arvores de suas fachadas revitalizadas , eles logo arranjam um atestado de doença terminal para as arvores que os incomoda . A estupidez é geral .
    E o prefeito Zenaldo Coutinho, o que tem a dizer sobre toda essa devastação na “cidade das mangueiras ” ?
    Coma palavra , o Secretário de Meio Ambiente da Prefeitura e o Prefeito .
    Aproveito para denunciar a devastação total que excessos de estações de BRT , para que , tantas ? ) que vai de São Brás até o Mangueirão . Devastação total , cadê os Verdes , hein ? As Ongs , os partidos verdes ?

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    Publicado por Marly Silva | 13 de setembro de 2016, 18:40
    • O escritório da Stihl já estava ali, Marly. E, na verdade, eu quebrei o protocolo para fazer a denúncia, ouvida em silêncio.
      O encontro foi muito bom, com abertura para o MAB (Movimento dos Atingidos pelas Barragens), através do Rogério, se pronunciar – e muito bem. Uma programação de qualidade, graças à iniciativa de professores, à frente dos quais está a professora Paula. Eu me senti muito honrado em ser convidado para a abertura e ter espaço para me manifestar com plena liberdade.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de setembro de 2016, 19:09
  3. Quem quiser a prova do crime ambiental do SENAI é só entrar no facebook do movimento25compesnochao

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    Publicado por Marly Silva | 13 de setembro de 2016, 18:56
  4. Pior ainda , não é Lúcio ? Antes fosse um simples acampamento , provisório e demonstrativo ! ” uma provocação” como eu digo , que você resolvia essa parada ali mesmo , num ato público de desmontagem . Mas não, é algo estabelecido , incorporado ao patrimônio, à rotina da instituição e do processo educativo dos alunos , com direito à auto-publicidade periódica através de feiras no mesmo espaço ….
    Acho que você fez muito bem em denunciar , quebrando o protocolo , apelando para o bom senso da direção no sentido de desfazer o mau-feito , porque as grandes multinacionais da industria farmacêutica já invadiram os laboratórios dos cursos de ciências biológicas com os seus kits-padrão e isso foi denunciado por cientistas num debate sobre ética &ciência , durante o ultimo/ou penúltimo, encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência -SBPC realizado em Belém . Se a coisa continuar nesse ritmo ( que eu chamo ” para trás”) daqui a pouco vamos ter escritórios da Thaurus nos campi das universidades , sob os auspícios dos seus serviços de segurança ( que foram privados/terceirizados ) sob o pretexto de que a comunidade universitária precisa aprender a manejar um arma de fogo para se proteger da ” bandidagem”; de que alunos(as) de cursos de Segurança Pública precisam deste treinamento in locu, ou até mesmo sob o pretexto de treinar atletas para as próximas Olimpíadas de tiro . Coisa séria , hein ? considerando o poder de mercado , corporativo e de lobby da Thaurus , a maior produtora e comerciantes de armas da América Latina .
    No mais , as instituições universitárias tem eventos muito bons, críticos , reflexivos , abertos à pluralidade de vozes e aos movimentos sociais , como este que você foi chamado a colaborar , merecedores de nossos aplausos e incentivo .Mas também tem o outro lado , infelizmente . Foi para isso que quis chamar a atenção . A aproximação das universidades do mundo corporativo-empresarial é uma faca de dois cumes e deve ser objeto de rigoroso controle social , coisa ainda muito distante de nós.

    E o que você acha da devastação ao longo do BRT ? e dos nossos históricos flamboyants ?

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    Publicado por Marly Silva | 14 de setembro de 2016, 06:46
  5. Lúcio,

    Vc acaba de lançar a Versão Ambiental do conhecido…..

    “Tirar o sofá da sala”

    Em tempo.
    Quanto a desarborização de Belém, lamentável e degradante. Mas pode e deve ser revertido.

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    Publicado por Sou daqui. | 14 de setembro de 2016, 06:58
    • Há quantas décadas venho tirando sofás da sala e denunciando que a sala está deteriorada? Um jornalista local deve saber disso. Mas, ao menos neste blog, não quer saber do que sabe e o que ainda sabe esqueceu. Não é mesmo?

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 14 de setembro de 2016, 09:35
      • Sempre vou achar que sei muito pouco. Por isso dia a dia tento saber mais. E este pouco que sei me esforço para não esquecer (espero morrer antes que o alzheimer chegue) e sobretudo praticá-lo.

        O grande lamento é justamente que alguém que passou décadas denunciando a deterioração da sala, agora prioriza, fazendo seu cavalo de batalha, a presença do sofá.

        Nota: Que fique bem entendido. Longe de mim achar que um stand da Sthil embeleze o campus da UFRA.

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        Publicado por Sou daqui. | 14 de setembro de 2016, 16:27
  6. Lúcio,

    Eu, engenheiro florestal que sou, formado pela UFRA, leio sua notícia com vergonha, mas não com espanto! Falta agora uma lojinha da Monsanto lá, e um telão dentro do R.U. para acompanhar o preço da arrouba de gado! É uma pena, mas essa é a cara da Universidade de “Ciências” Agrárias que sempre tivemos (e não pensem que numa ESALQ da vida seja diferente!)…. E, caro José Silva, preciso informá-lo que engenheiros florestais nunca (ou raramente) manuseia motosserras, porque não sabem, não vão aprender, e não se ensina isso no curso. Os engenheiros se servem do trabalho de nativos assalariados ou diaristas, que, esses sim, aprendem a utilizar a fera, e tantas vezes têm suas colunas vertebrais quebradas em acidentes na exploração ilegal de madeira… (basta visitar grandes hospitais, e fazer um levantamento sobre os casos graves de traumatismo vindos do interior do estado…)… Quanto ao Manejo Florestal Sustentável, aquele de “baixo impacto”, na prática quase não existe na Amazônia, é um caso aqui e outro acolá… a devastadora maioria da exploração é ilegal, mas, seguramente, feita com Stihl, para um bom corte, a UFRA garante!… Lembro de um dia de tédio numa aula na UFRA com transparências dada por um professor igualmente transparente… aula sobre processamento da madeira… um tédio… rdaí, rabisquei e rabisquei um poema, uma trova, que mais tarde ficaria bastante conhecida no movimento estudantil da Floresta, deixo aqui a vocês, está no meu “Livro para pescaria com linha de horizonte”:

    A Amazônia já não dorme
    ante o brutal pesadelo
    em que uma tesoura enorme
    corta o seu verde cabelo.

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    Publicado por Paulo Vieira | 14 de setembro de 2016, 10:01
    • Sua mensagem já foi para a vitrine do blog, Paulo. Obrigado.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 14 de setembro de 2016, 10:57
    • Paulo,

      Obrigado. Então a situacão é pior do que pensei. Pelo que você descreveu, a UFRA está formando Engenheiros Florestais que não sabem orientar os trabalhadores labutando sob a sua direção no manuseio da sua ferramenta de trabalho. Pior ainda, está formando engenheiros florestais sem a capacidade de transformar a indústria florestal da região, pois o número de projetos de “baixo impacto” permanece baixo.

      Lúcio, bom tema de discussão para os leitores. Qual o papel da UFRA?

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      Publicado por Jose Silva | 14 de setembro de 2016, 11:13
  7. Que lindo , Paulo !
    Vou ler o seu livro . Está a venda na Edufpa ? Vc sabe ?

    Posso imaginar o que foram essas “aulas de tediosas transparências ” (rs), com o reverso positivo do tempo aplicado em bela poesia .
    Você sabe que fiz uma dissertação de mestrado sobre a história da industria madeireira no Pará ,suei para escrever 110 laudas , ilustrada , com fotografias descrevendo todo o processo de trabalho tradicional de extratores numa floresta de várzea ( portanto, com ciência e sem moto-serra ) e nunca fui convidada para dar uma palestra , que dirá um curso nas ” agrarias e florestais” , estranho , não ?
    Concluído o estudo , escrevi um artigo sintetizando aquilo que eu considerava uma das principais contribuições do meu trabalho , que era a exploração comercial do mogno e madeiras de lei para fabricação de dormentes no pós-guerra e o redirecionamento dos capitais da economia gomífera para a economia madeireira .Pois, bem , o meu artigo foi recusado pelo “comitê cientifico” de um Encontro Nacional de Pós-Graduação em Economia , sob a justificativa de que não se enquadrava na temática ” história econômica” ! Incrível , não ? Descobri através daquele oficio-recusa , que no ultimo quartel do ´seculo XX , a Amazônia ainda não tinha entrado no mapa dos economistas acadêmicos pós-graduados do sul maravilha .(rs) . A Academia é assim, tem cada coisa bizarra …

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    Publicado por Marly Silva | 14 de setembro de 2016, 11:03
  8. Olá, Marly, Reitero o pedido de Lúcio, mande o trabalho! O Livro para pescaria com linha de horizonte, foi editado pela Embrapa, numa inédita e ousada investida (é ilustrado, com poemas para adultos e crianças, e traduzido para o braille, tudo num livro só). Você encontra na loja da Embrapa em Belém, ou compra pelo site da Embrapa, aqui ó: http://vendasliv.sct.embrapa.br/liv4/buscaProduto.do

    divirta-se e grande abraço,

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    Publicado por Paulo Vieira | 14 de setembro de 2016, 21:01
  9. Caríssimos , sinto-me lisonjeada com o sincero interesse demonstrado pelo meu trabalho , mas ele é pioneiro na temática[década de 1980 ], foi escrito antes das duas ultimas revoluções tecnológicas , de modo que não o tenho em nenhum outro suporte a não ser o papel . O problema vai ser encontra-lo , provavelmente numa pasta fina de “papers” sob uma montanha de outras pastas e impressos , “nessa bagunça do meu quarto ” !.
    No recesso das aulas que teremos na segunda semana de outubro , vou dedicar algumas horas para procura-lo e aviso . Ok?
    De todo modo , obrigada . E obrigada por terem trazido à tona um problema tão grave/gravíssimo que é o desmatamento de nossas terras rurais ou urbanas , das florestas , dos rios e das ruas citadinas , que arrasta-se desde sempre , por não atacarmos o problema na sua raíz que é politica e não econômica .

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    Publicado por Marly Silva | 16 de setembro de 2016, 07:25
  10. Esclarecendo que o problema está colocado de uma nova perspectiva : o envolvimento de uma instituição de educação superior especializado em formar engenheiros florestais e agrônomos , a subsunção da instituição aos ditames da industria que treina e comercializa a ferramenta-chave na destruição das matas , florestas , arvores avulsas , o que seja .

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    Publicado por Marly Silva | 16 de setembro de 2016, 07:49

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  1. Pingback: Motosserra fora da Ufra? | Lúcio Flávio Pinto - 5 de janeiro de 2019

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