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Cultura

A Elena de Petra

Acabo de voltar do Cine Líbero Luxardo. Quando lá cheguei a enorme fila já me dizia que eu não conseguiria entrar na sala para assistir Elena, o documentário de longa metragem de Petra Costa sobre a trajetória da sua irmã mais velha até o suicídio.

Fiquei agradavelmente surpreso pela quantidade excepcional de gente, principalmente jovem, atraída para a sessão única num início de tarde de sábado calorento. A fila (chamada de cobrinha na época em que Belém era Belém, cidade lusitana dos trópicos depois de passar pela casca do alho) ocupava quase toda extensão do saguão do Centur,

Candidatos a plateia estavam ali porque gostam de cinema, porque gostam especificamente daquele belo documentário, porque Elena já é tão cult à maneira de Clarice Lispector e Ana Cristina C., porque haveria debate com especialistas para explicar o conteúdo do filme (“obra aberta” a todas as interpretações e saques ou “sacações”), porque o debate seria tema de trabalho acadêmico e escolar, também porque era “de grátis”.

Já vi o documentário duas vezes. Tinha ido ao cinema para ouvir o que iam dizer os especialistas na matéria, a partir do suicídio de Elena. Eu era uma espécie de tio dela. Conheci-a ainda criancinha, quando seus pais – Manuel Costa e Marília Andrade – vieram para Belém por causa do projeto de colonização que a empresa do pai dela, Sérgio Andrade, a Andrade Gutierrez, pretendia implantar numa área de 400 mil hectares adquirida do Incra em Tucumã, no sul do Pará (que Petra pretendeu filmar também).

“Adotei” Elena. Porque era meiga, misteriosa, precoce, inteligente, forte e frágil. Meus filhos tentaram ser amigos dela, mas Elena estava muito além da sua idade – e seus paios queriam que fosse assim, contra a minha opinião. Eles se foram para o sul e depois se separaram. Marília teve várias residências e empreendimentos em São Paulo. Não se aclimatou a nenhum. Era cigana. Sempre esteve em busca de algo, sem saber o quê.

Quando estava no mesmo lugar, eu a procurava, conversávamos, divergíamos e trocávamos opiniões, a minha sempre preocupada pelo quanto a condição de Elena, cidadã do mundo e globe-trotter desde a mais tenra idade, andando sozinha ou ao léu, ia cobrar dela.

Antes que se mudassem para os Estados Unidos, conversei longamente com ela num restaurante paulistano, principalmente sobre a sua iniciante carreira de atriz. Deixei-a, alegre e confiante, eu preocupado.

Elena se suicidou diante da irmãzinha horrorizada e congelada no apartamento de Nova York, enquanto esperava a volta da mãe de uma viagem curta. O filme gira em torno da morte criada pela jovem mulher (muito mais do que pós-adolescente), que escreveu seu bilhete final com a tintura do seu sangue até desfalecer.

Voltei a conversar profundamente com Marília quando ela voltou dessa tragédia ao Brasil – e sobreviveu a ela. E Petra? Ela tinha pouco mais de 10 anos quando a reencontrei em Paris, na casa da mãe, e, todos juntos, fugindo do frio da madrugada, assistimos a um dos três filmes associando os direitos humanos a diversas cores. Ela parecia uma criança mais sadia do que autorizava a hecatombe familiar.

Foi ansioso e inquieto que comecei a ver seu documentário. Aliviado, pude ver que ela não sacrificara a expressão artística ao realismo do registro biográfico. É um filme de autor, que se tornou referência cinematográfica e fonte para intermináveis perorações psicológicas, psicanalíticas, psiquiátricas e tudo mais.

Acima de tudo, é um belo filme, com momentos sublimes, que saíram de Petra como num transe, num exorcismo, numa catarse. Ela buscou a verdade de Elena e, encontrando-a, finalmente ficou em condições de seguir seu próprio caminho. Seu tio-avô adotivo torce para que a leve ao melhor que ela merece.

Discussão

5 comentários sobre “A Elena de Petra

  1. Que pena que você chegou tarde, Lúcio. O debate foi excelente, seria muito gratificante vê-lo lá.

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    Publicado por Caio | 18 de setembro de 2016, 19:39
    • Obrigao, Caio. Você podia fazer um relato dos debates para nós?

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 18 de setembro de 2016, 20:58
      • Posso sim, Lúcio. O debate contou com a participação do Edvan Brandão (acadêmico de medicina e crítico de cinema), Dr. Kleber Oliveira (Psiquiatra) e Rose Daise Melo (Psicóloga). De início, o Edvan fez uma análise do filme e citou Émile Durkheim pra falar que o suicídio é, antes de mais nada, um fato social. O ser humano precisa se sentir acolhido em um grupo e quando isso não ocorre a frustração é tão grande que pode levar ao suicídio. Por isso, ateus tem uma tendência maior a cometer suicídio do que pessoas religiosas, por exemplo. Fazendo um paralelo com a vida da Elena, ela possuía a ambição de ser uma grande atriz. O documentário mostra que ainda que fosse talentosa (Foi aceita na Universidade de Columbia), Elena não era aceita nas grandes produções em que tentava entrar. A frustração de não se sentir uma grande atriz corroborou para a depressão e, por fim, para o suicídio (“Arte para mim é tudo. Sem Arte prefiro morrer” – Elena diz em certo momento).
        Terminada a fala de Edvan, foi a vez do Dr. Kleber adentrar no tema. Não lembro detalhadamente da sua fala, mas lembro que falou de como pessoas propensas ao suicídio costumam dar sinais de que vão cometer o ato. O primeiro sintoma é a Anedonia, perda da capacidade de sentir prazer. A pessoa não sente mais vontade de fazer coisas que lhe eram rotineiras (como andar de bicicleta, ir ao cinema, jogar bola, por exemplo). O médico também ressaltou que, de acordo com as estatísticas, a partir da terceira tentativa de suicídio é certo que outras ocorrerão (pelo menos enquanto o problema não for tratado adequadamente).
        A psicóloga, por sua vez, falou do tema tendo como base a literatura de Freud. Ela falou que nós somos um conjunto de “eus'”. Cada “eu” sendo o pedacinho da personalidade de alguma pessoa que passou por nossa vida. De acordo com ela, quando uma pessoa tenta cometer suicídio o seu objetivo na verdade não é acabar com a própria vida, mas sim eliminar algum aspecto da sua vida que não gosta, algum desses “eus”.
        A plateia também discutiu o filme. Lembro do relato de uma mulher que contou que teve depressão em 2000, quando perdeu o filho e o marido. A moça contou que superou o problema graças a um apoio muito importante da família, além de ajuda espiritual e médica.

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        Publicado por Caio | 19 de setembro de 2016, 00:34
      • Já estou postando seu artigo. Muito obrigado, Caio. Depois mande o seu nome completo para eu acrescentar.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 19 de setembro de 2016, 13:19
      • De nada, caro Lúcio. Meu nome é Caio Pinheiro.

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        Publicado por Caio | 19 de setembro de 2016, 18:46

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