//
você está lendo...
Política

Projeto 5: história e gente

Quem circula pela cidade constata: é grande a quantidade de pessoas, sobretudo as mais velhas, que ficam à porta das suas casas sem qualquer atividade, passivas e desmotivadas. Parte considerável delas, no entanto, ainda tem vigor e condições físicas suficientes para permanecer ativas, mesmo depois de aposentadas. Mas não se prepararam adequadamente para a nova – e final, mas com muito tempo ainda pela frente – etapa da vida.

O projeto consiste em criar centros de convivência em todos os bairros de Belém. A prefeitura compraria imóveis para sediar o centro e os cederia, em regime de comodato, com cláusulas resolutivas impondo obrigações mútuas e contrato anual de gestão, a ser submetido à administração municipal e com o acompanhamento do Ministério Público do Estado.

O imóvel seria cedido a uma associação de moradores, criada com a assistência do poder público para se enquadrar em todas as exigências legais e ter existência jurídica, além de autonomia e capacidade de gerir seu funcionamento e prestar contas aos órgãos públicos. Sua diretoria teria mandato de três anos, com direito a nova eleição apenas depois de um período de quarentena (que se estenderia pelos três mandatos seguintes de novos diretores). A função seria voluntária, mas se credenciando a receber o reconhecimento oficial por serviços prestados à sociedade.

O centro teria primeiro a função óbvia: ser um local de encontro para os associados, devidamente inscritos e pagando uma taxa mínima, cujo valor eles próprios definiriam em assembleia de constituição da entidade, aprovação dos seus estatutos e eleição da primeira diretoria. Na sede eles poderiam ter acesso a uma biblioteca, incluindo jornais locais (comprados depois de licitação pública, definida pelo critério do menor preço, incluindo a entrega de cinco exemplares em cada centro). Teriam jogos à sua disposição, veriam sessões de cinema e teatro e outras atividades culturais.

O centro não teria apenas uma função passiva, de acolhimento dos associados do bairro, com assistência social, psicológica e jurídica aos indivíduos e suas famílias. Ele criaria seus espaços na internet para os contatos, alimentando-os periodicamente. E o mais importante: instalaria um departamento de memória, encarregado de levantar a história do bairro, gravar depoimentos dos seus moradores capazes de contribuir para essa pesquisa, produzir documentários (exibidos em seu salão ou em outros locais) com base nesses dados e, quando possível, fornecer os originais de um livro sobre o bairro, a ser editado e distribuído pela prefeitura, que, em tudo, prestaria assistência às associações, montando para isso um setor especializado no seu organograma, através de lei.

Uma vez realizada esta última tarefa, a pesquisa recomeçaria, gerando seus documentos intermediários até que resultasse em nova edição, revista e ampliada, do primeiro trabalho. Quando todos os bairros fizessem trabalho semelhante, uma equipe formada por representantes de cada um dos centros, sob a supervisão da prefeitura, escreveria uma história de Belém através dos seus bairros e seus moradores, com lançamento solene, na qual os autores seriam homenageados com a medalha Caldeira Castelo Branco (ou a medalha Tupinambá, a ser criada, em referência aos primeiros habitantes da cidade) e farta.

O primeiro centro, por motivos óbvios, seria instalado na Cidade Velha. A cada novo semestre um novo centro seria criado. Talvez Belém se tornasse a cidade mais comunitária do Brasil e a que melhor conheceria a si própria e a sua gente.

Discussão

16 comentários sobre “Projeto 5: história e gente

  1. “….Centro de convivência no bairro do Tapanã transforma vida de idosos…. ”
    Da Redação – Agência Belém de Notícias – 06/04/2016 10:06

    Estou tratando apenas da “originalidade” da proposta.

    Cazuza vive!
    “…….Eu vejo um museu de grandes novidades…..”

    Curtir

    Publicado por Sou daqui. | 18 de setembro de 2016, 10:18
  2. Lúcio , é preciso examinar com muito cuidado essa questão . Afinal , o ser humano tem direito ao ócio criativo ou simplesmente contemplativo .É verdade que pessoas viciadas em trabalho como você , como eu , inquietam- se quando diante de “pessoas que não estão fazendo nada “, sobretudo quando temos a consciência social e a crença moral de que muita coisa pode ser feita coletivamente , muitas sociabilidades podem ser construídas e solidariedades podem ser praticadas em comunidade visando o bem comum e o compartilhamento social dos seus resultados .

    Curtir

    Publicado por Marly Silva | 18 de setembro de 2016, 10:37
    • Duvido que o que eu vejo nas caminhadas pela periferia seja esse ócio contemplativo, Marly. Na maioria dos casos, é espera pela morte por falta de objetivo. O estado dessas pessoas em suas cadeiras é de prostração ou as vejo em atividade improdutiva, inócua ou inútil. Um senhor idoso, mas ativo, varria a rua do seu quarteirão em plena madrugada, todos os dias. Podia fazer coisa melhor ou adicionar criação à contemplação. O núcleo de memória iria aproveitar o que essas pessoas acumularam na vida e fazê-las contemplar essa obra. E se é para o simples ócio, que tal ficar num lugar decente, com apoio, cafezinho, água e fazer nada nessas condições?

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 18 de setembro de 2016, 10:54
  3. Lucio,

    A ideia é muito boa. Entretanto, sugiro que ao invés de comprar prédios e criar esses centros e inúmeras associações, o que demandaria um investimento enorme e a criação de uma capacidade gerencial que a prefeitura atualmente nao tem, que a Prefeitura trabalhasse com as associações e organizações já existentes para alavancar a ideia. Desta forma, compra de imóveis e criação de novas associações seria a exceção e não a norma.

    É muito mais simples e muito mais legítimo construir o processo junto com a sociedade. Muitas destas instituições têm espaços sub-utilizados, passam por dificuldades financeiras e, principalmente, tem ou tiveram um grande número de sócios. A elas é preciso dar um novo desafio.

    Pegue, por exemplo, o Círculo Operario, perto de você. Tem um potencial enorme se receber ajuda. Pense, por exemplo, nos espaços das escolas como o Salesiano do Trabalho. Pense em clubes com estruturas imensas e pouco aproveitadas, tal como a Tuna. Fazendo parcerias estratégicas será possível fazer muito mais, ajudar essas associações a se reerguerem e, claro, recuperar associações com um bom histórico de trabalho pela coletividade.

    Cidade forte requer uma sociedade civil forte e organizada. Se apoiar, o efeito positivo será imediato.

    Curtir

    Publicado por José Silva | 18 de setembro de 2016, 11:14
    • É correta a observação. Mas é preciso verificar se os centos existentes ou instituições como o Círculo Operário (onde eu assistia missa, menino, de olho no padre Thiago Way) são realmente adequadas para realizar a proposta. Há o risco de o projeto ficar à margem e perder a sua originalidade. O investimento em imóveis não seria grande. A prefeitura podia se acertar com a empresa imobiliário do município (meu outro projeto) para adquirir ou desapropriar imóveis de valor histórico ou de menor valor (imóveis pequenos e mais baratos), combinando assim os dois objetivos (o social e o empresarial-cultural) e ainda gerando renda e emprego, além de induzir o investimento particular.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 18 de setembro de 2016, 11:31
  4. Lúcio, não sei se você leu, mas acho que vai te interessar:

    http://www.jesocarneiro.com.br/artigos/santarem-revive-batalha-do-tostao-contra-o-milhao.html

    Curtir

    Publicado por Wagner | 18 de setembro de 2016, 11:17
    • Obrigado, Wagner. É um texto do Fernando Pinto, meu primo, apoiando a candidatura de Márcio Pinto a prefeito de Santarém, usando o mote de campanha eleitoral do meu pai, na eleição de 1966, da luta do tostão (dele) contra o bilhão (do seu adversário, Ubaldo Correa). Um esclarecimento: Márcio Pinto não é do galinheiro da nossa família, apesar do sobrenome. É de outro.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 18 de setembro de 2016, 11:45
  5. Mesmo assim , Lúcio , eu não generalizaria . Você sabe, é do nosso ofício não fazer generalizações ou afirmações categóricas sem um conhecimento mais objetivo , analítico das situações dadas e contextualizadas . Aprendemos que o que parece ser, não é , daí a necessidade da investigação social , da observação sistemática para além da observação ordinária .Sobretudo temos que ouvir as pessoas .
    Não ando tanto pela periferia quanto você , mas por onde ando vejo as pessoas conversando , com parentes , netos(as) , vizinhos(as) , amigos(as) , quase sempre eles tem uma ” vendinha” , quando se trata de uma rua mais popular . Moro num bairro interclassista então vejo os dois lados , as duas classes sociais como se comportam . E de fato, no comportamento dos idosos quem desfruta mais da rua nos fins de tarde é a classe média , e em família . Mas em geral as duas classes vem nos finais de tarde para a porta de casa para se refrescar . O pessoal que mora às margens dos canais costumam dizer que vão curtir o ” ar -condicionado “. Enfim , acho que é interessante você chamar a atenção para essa questão e quem sabe motive pesquisas a respeito . Se elas existem eu não as conheço. Agora , no que diz respeito à juventude , aí sim , falta muito coisa , nossa !

    Quanto à estruturas de suporte para o seu projeto-idosos : Você já se perguntou por que o sistema ” S” ( Sesc, Senai, Sesi) não se expande para fora do centro antigo , me parece que o limite deles é a primeira légua ( o bairro do Marco ) desde sempre , não ? Como eles funcionam com dinheiro público e da classe trabalhadora ( e não é pouca a grana , são bilhões ) talvez fosse o caso de pensar em introduzir nas suas funções e atividades o que você sugere , descentralizando-os para a segunda légua , para novas centralidades periféricas , distritos de Icoaraci, Outeiro e Mosqueiro . As atividades do SESC da Doca para idosos é algo muito previsível : ginastica , caminhada , excursões ( e os idosos pagam ) , festinhas tradicionais (São João, Círio , natal , dia dos pais , etc) . O mesmo do mesmo . Nem mesmo ao teatro ( que o SESC oferece no Boulevard/artpistico ) eles são estimulados a frequentar .

    Curtir

    Publicado por Marly Silva | 18 de setembro de 2016, 14:06
  6. O que o Zenaldo fez pelas ruas do comercio de Belem? Ambulante pra tudo quanto é lado, uma avacalhacão, verdadeira terra sem lei. Cadê o shopping popular? Os ambulantes do burado da palmeira sumiram, nao se consegue mais trafegar pelas ruas, um verdadeiro caos.

    Curtir

    Publicado por Amilcar Barros | 18 de setembro de 2016, 14:47
  7. “….Se eu estiver errado me corrija, mas senti um ranço de “tolerância esquerdista” à crítica nesse “hiena”….”

    Por isso fiz a ressalva. Já que não há ranço, vamos em frente.

    Curtir

    Publicado por Sou daqui. | 18 de setembro de 2016, 20:31

Deixe uma resposta para Sou daqui. Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: