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Educação

Abaixo a Unama, viva a Unama

Causou-me surpresa e provocou reflexões a notícia, agora divulgada, de que o grupo Ser Educacional foi eleito o melhor do país em educação, no ano passado, pela segunda edição do anuário Empresas Mais, realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo em parceria com a Fundação Instituto de Administração.

O ranking avalia o desempenho econômico e as melhores práticas de gestão de aproximadamente 1.500 empresas de 22 setores econômicos. O grupo também recebeu também o prêmio de governança corporativa, concedido pela primeira vez. O prêmio será entregue hoje, em São Paulo.

O desempenho do grupo pernambucano é realmente de impressionar. Em pouco mais de 20 anos, se expandindo por 12 Estados brasileiros, com 140 mil alunos, tem porte nacional para receber o destaque que o jornal paulista lhe reconheceu. No Pará, controla, na capital, a Unama e a Faculdade Maurício de Nassau, e, em Santarém, a FIT (Faculdade Integrada do Tapajós).

Mas o excelente negócio é realmente a melhor educação? A centralização do comando em Recife faz bem às unidades paraenses? O poder de mando à distância não é atrofiador das qualidades que esses centros locais podia desenvolver?

Acompanho a trajetória de Edson Franco desde que ele, jovem promissor, assumiu, em 1964, a secretaria de educação no governo de Jarbas Passarinho, o primeiro do regime militar, quando eu ainda era adolescente. Continuei de olho nele quando ajudou a revolucionar o setor de publicações didáticas, paradidáticas e culturais da Editora Abril, sob o timão de Victor Civita e a ação incrível de Calazans Fernandes (e com a decisiva ajuda de Passarinho como ministro da Educação). Nessa época, eu também trabalhava na Abril.

Depois, estive no rastro dele e da sua equipe quando, de embrião em embrião, chegou à Unama, que tornou o melhor centro particular de ensino superior do Pará. Temos nossas diferenças e tivemos nossos conflitos, mas sempre prestei mais atenção à pessoa de Edson Franco. Por ele, tinha-se a Unama em forma de gente – e como faz a diferença lidar com pessoas, a substância de instituições mais saudáveis, sem elas necrosadas pela burocracia e a regra de Talião.

Fiz muitas palestras na Unama e antes dela, raramente com remuneração. Mesmo quando forçado à gratuidade, tinha como compensação a forma engenhosa e inteligente de Edson anunciar o calote. Saía com o bolso vazio e a alma cheia. Por isso sou pobre e alegre.

Nas incursões à universidade, detectava o rastro do reitor pelos comentários dos alunos, ou flagrando-o recebendo à porta os seus clientes da educação, indo às salas de aula, puxando papo numa fila de pessoas que iam pagar a mensalidade, telefonando para dar parabéns a professores e funcionários, mandando cartões, conhecendo todos pelo nome, fazendo alguma gentileza pessoal, investindo sempre (o que também garantia as condições fiscais e tributárias especiais para uma organização sem fins lucrativos, mesmo sendo altamente lucrativa), mantendo um boletim interno longevo, pontual e de qualidade, que só parei de ler quando pararam de me remeter – e por aí afora.

Sabia-se que, sem desmerecer os demais sócios e os associados de talento e bravura, para o bem e para o mal a Unama era Edson Franco, o seu reitor único, até que a crise interna e os atritos (os militares diriam ser a cizânia) esfacelou a obra, afastou Edson e ofereceu a autêntica universidade paraense, já desfigurada, em bandeja de latão ao grupo Ser, que dourou a peça sem tirá-la, contudo, da condição de latão (ou pirita, para ir além).

E assim a Unama deixou de ser e Edson foi cantar em outra freguesia. Como sempre, bem.

Discussão

3 comentários sobre “Abaixo a Unama, viva a Unama

  1. Olhei rápido as posições das nossas universidades de Belém no ranking nacional da Folha. Aqui estão os resultados:

    UFPA. 2012 (24), 2013 (26), 2014 (29), 2015 (27), 2016 (29)

    UNAMA. 2012 (124), 2013 (136), 2014 (139), 2015 (108), 2016 (124)

    UFRA. 2012 (95), 2013 (128), 2014 (145), 2015 (124), 2016 (134)

    UEPA. 2012 (125), 2013 (127), 2014 (163), 2015 (125), 2016 (132)

    O declínio não é somente na qualidade de vida da população. As nossas torres estão em declínio também. Reflexões?

    Curtir

    Publicado por Jose Silva | 29 de setembro de 2016, 13:40

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