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Justiça, Política

Pastelão brasileiro

A história da prisão do ex-ministro Guido Mantega foi uma trapalhada sem fim. Mas sua autoria não é exclusiva da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e do juiz (também federal) Sérgio Moro, que acolheu o pedido dos investigadores da Operação Lava-Jato, mandou recolher o indigitado e transferi-lo para Curitiba, onde seria ouvido, e cinco horas depois revogou a ordem. Esse imbróglio é um retrato do jeito brasileiro de ser institucional.

Agora se sabe que a maior preocupação da Polícia Federal, autora original da proposta de prisão, era com a possibilidade de Guido Mantega fugir do Brasil. Ele é cidadão italiano, além de brasileiro, como o bancário Henrique Pizzolato, que fugiu por força do escândalo do mensalão e ficou evadido por longo tempo. Assim como o banqueiro ítalo-brasileiro Cacciolla.

De certo, é a viagem que Mantega e a esposa programaram fazer a Paris. Segundo a PF, a data seria no dia seguinte ao da prisão, por isso ela foi realizada. Uma vez frustrada, a viagem teria sido adiada para 8 de outubro. Acabou cancelada, mas a passagem permite ao seu detentor embarcar no primeiro voo que haja com vaga disponível. Cláusula que dá desenvoltura ao ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma, inspirando um novo pedido informal da PF a Moro: que retivesse os passaportes do casal, o que o juiz se negou a fazer. Pelo menos até agora.

O advogado de Mantega, que já presidiu a OAB nacional, nega tudo, para ele nada mais do que invencionice. Haveria a viagem para Paris, mas em 8 de outubro mesmo. Ela foi cancelada diante do agravamento do estado de saúde da esposa do ex-ministro.

Sua filha adotiva nega a versão da defesa do pai, de que a madrasta iria ser submetida a uma cirurgia contra o câncer. Diz que se tratava de uma endoscopia. A princípio, a declaração de Marina foi negada pela defesa. Depois surgiu a explicação que o exame era para verificar se havia câncer no estômago.

No entanto, o câncer foi diagnosticado em 2011. Desde então, Eliana Berger teria se submetido a três cirurgias. Como o casal marcou a viagem para 8 de outubro (fiando-se no que diz a sua defesa), não havia expectativa negativa sobre o estado de saúde dela. O câncer é considerado sob controle, não impedindo uma vida quase normal.

O anormal foi o marido sair de casa às quatro e meia da madrugada, vestindo um pesado capote de frio, boné e óculos escuros para ficar ao lado da esposa no hospital Albert Einstein, que estaria na sala de cirurgia, a inspirar cuidados. E depois a cirurgia anunciada não ter acontecido, sem que o famoso hospital Albert Einstein tivesse divulgado o tradicional comunicado quando atende pacientes famosos.

Se toda essa história da cirurgia for uma farsa, Mantega, a mulher, Eliane Berger, e talvez o notório advogado estarão sujeitos a uma ação por obstruir a justiça, que pode ser proposta agora ou depois, ao final do processo já em curso.

Essa algaravia de versões e mal-entendidos ofuscou um aspecto menos doloroso e emocional para os atores do drama, porém de maior relevância para o país, que é a origem da ordem de prisão. Ela se nutre na informação dada espontaneamente pelo ex-bilionário Eike Batista, de que quitou uma dívida de 5 milhões de reais do PT, relativa à campanha de eleição de Dilma Rousseff em 2010. junto ao marqueteiro João Santana. E que o dinheiro foi transferido para uma conta dele num paraíso fiscal no Caribe – não contabilizada, é claro.

Provavelmente para não ser indiciado e preso, e antes de ser obrigado a uma delação premiada, o esperto e – agora – muito religioso empresário alegou que o dinheiro saiu do seu próprio bolso (e que bolso!) e que o ministro, que fez o pedido dentro do seu gabinete, na sede do Ministério da Fazenda, em Brasília, não exigiu nada em troca – sem reciprocidade, como se diz na linguagem dessa gente fina, de colarinho branco. Logo, era para morrer ali ou só incriminar o ministro devoto do PT.

A denúncia levou quatro meses para dar fruto, mas se concretizou na 34ª fase da Lava-Jato – sem indiciar ou prender o (corruptor? Corrupto? Corrompido?) ex-bilionário. Trazida a cena para um ambiente verdadeiramente republicano (se os que repetem ad nauseam a exporessão sabem de verdade do que se trata), ela se traduz no seguinte: um empresário, que diz ter 40 bilhões de reais investidos no país, conversa a boca pequena com o principal ministro do governo (dizem que é o da Casa Civil, mas esse papel é figurativo, de boneco de ventríloquo, se quiser aparentar força).

Ministro que, por ser também membro do conselho de administração da maior empresa do país, a Petrobrás (conselho presidido pela presidente da república, que vociferava ordens para o seu ministros e todos os demais), e, por isso, podia influir sobre um contrato bilionário com a estatal, assinado por Eike e seu sócio no negócio, a Mendes Júnior, cinco meses antes. Como assim, cara-pálida, a conversa foi uma tertúlia cívica?

Alguém há de lembrar que o economista teórico Guido Mantega montou no primeiro naco de poder quando substituiu Carlos Lessa no BNDES. Lessa sempre foi polêmico por colocar em prática as suas ideias e levá-las ao extremo da radicalidade.

Por isso, uma das suas primeiras providências foi proibir que operações do maior banco de desenvolvimento do Brasil acima de 10 milhões fossem intermediadas por bancos privados, que ficavam com 4% do valor do financiamento sem aplicar um único tostão. Uma operação de simplórios R$ 15 milhões transferia no ato R$ 600 mil para o intermediário putativo.

Ficou famosa então a frase de Lessa: “Não posso pagar 4% aos bancos para o BNDES emprestar à Petrobras, porque o dinheiro só vai atravessar a rua”, referindo-se, com seu jeito cáustico, ao fato de a sede do BNDES se localizar em frente ao prédio da Petrobrás.

Empossado, Mantega restabeleceu os 4% que o BNDES se obrigava a pagar pela intermediação. Nada mais natural do que logo em seguida assumisse o ministério da Fazenda, se tornando o cidadão que por mais tempo (oito anos) permaneceu à frente do órgão do governo mais cobiçado, principalmente pelos bem aquinhoados banqueiros.

Lembram-se do fato que fez Mantega chegar à Fazenda? O escândalo político, financeiro e moral de Antonio Palocci e seu harém de festas e núcleo de lobby em Brasília, que pôs fim à sua fama de sanitarista que conhece muito bem a economia, administra com competência e está sempre aberto ao diálogo.

Por ironia, Palocci está preso, teve R$ 33 milhões seus e da sua poderosa empresa de consultoria e palestras bloqueado, e, por enquanto, tem rumo incerto e ignorado, mas sem qualquer ligação com a sua história de sucessos. Mantega aguarda o próximo capítulo da parte que lhe cabe nessa novela macarronicamente brasileira.

Discussão

2 comentários sobre “Pastelão brasileiro

  1. Lessa era sério. No primeiro governo Lula, quem era sério não ficou!

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    Publicado por Jose Silva | 29 de setembro de 2016, 18:47
  2. Apenas resgatando.

    “Prisão era necessária?”
    “….ao tirar o marido do leito de hospital onde a sua esposa seria submetida a uma cirurgia de câncer…..”
    “…. o abalo que Guido Mantega sofreu, …..”

    “Pastelão brasileiro”
    O anormal foi o marido sair de casa às quatro e meia da madrugada, vestindo um pesado capote de frio, boné e óculos escuros para ficar ao lado da esposa no hospital Albert Einstein, que estaria na sala de cirurgia, a inspirar cuidados. E depois a cirurgia anunciada não ter acontecido, sem que o famoso hospital Albert Einstein tivesse divulgado o tradicional comunicado quando atende pacientes famosos.
    Se toda essa história da cirurgia for uma farsa, Mantega, a mulher, Eliane Berger, e talvez o notório advogado estarão sujeitos a uma ação por obstruir a justiça, que pode ser proposta agora ou depois, ao final do processo já em curso.

    Curtir

    Publicado por Sou daqui. | 29 de setembro de 2016, 18:52

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