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Economia, Política

Um estado de guerra

O tesouro nacional emprestou 323 bilhões de reais ao BNDES, que repassou esse dinheiro a grandes empresas nacionais através de empréstimos subsidiados. “Mais de 60% das empresas beneficiárias eram de grande porte e tinham condições de tomar crédito em mercado sem subsídio do governo”. O saldo devedor do banco estatal de desenvolvimento junto ao tesouro foi além de meio trilhão de reais, o equivalente a 10% do PIB.

Essas grandes empresas não foram apenas subsidiadas para realizar negócios dentro do Brasil, o que teria pelo menos o efeito de retenção de parte dessa montanha de dinheiro, gerando efeitos internos, descontadas as remessas ilegais para o exterior. Elas também foram favorecidas lá fora com US$ 8,3 bilhões do BNDES para obras de infraestrutura em outros países, dos quais 76% em Cuba, Angola, Argentina e Venezuela, países amigos do PT e onde Lula tinha muita influência – não só política, sabe-se agora em maiores detalhes.

Esses são alguns dos números assustadores que o governo Temer divulga através da imprensa a partir deste fim de semana, em anúncio institucional. São duas páginas de estatísticas gravíssimas, apresentadas, porém, de forma superficial – naturalmente, porque seria demais ir além ao tratar de temas áridos e difíceis junto ao grande público. O governo deveria completar essa campanha, através de um dossiê técnico, estritamente técnico.

O leitor, espantado ao saber que as pretensas multinacionais, que o PT pretendia criar, abriram um buraco sem igual nas contas públicas, certamente haverá de querer a lista dessas empresas, quanto cada uma recebeu, a natureza dos projetos favorecidos pelos financiamentos, o saldo devedor junto ao banco, o valor da diferença entre os juros de mercado e o crédito subsidiado concedido e todas as informações necessárias para uma análise completa da questão.

Também é assustador saber que as duas maiores estatais, a Petrobrás e a Eletrobrás, tiveram prejuízo de quase 75 bilhões de reais em apenas dois anos, 2014 e 2015, dos quais R$ 56 bilhões da petrolífera, infiltrada pelo cartel das empreiteiras e seus associados políticos e técnicos. Também é o caso de divulgar uma análise do balanço das duas companhias do setor de energia, que é de importância estratégica para o país.

Não menor é o impacto da revelação de que, ao final do ano passado, R$ 54 bilhões de despesas realizadas pelo PAC (o Programa de Aceleração do Crescimento, que teve por madrinha Dilma Rousseff, quando ainda ministra e em campanha pela presidência da república), mas não pagas. Como é que uma obra de 2,4 bilhões de dólares, a refinaria Abreu e Lima, já custou mais de US$ 18 bilhões, quase oito vezes mais? Passadena, que é um escândalo, torna-se quinquilharia diante desse dinossauro de aço.

Ao revelar essas informações, Temer quer mostrar à opinião pública que “encontrou uma situação muito grave nas contas públicas”. É uma iniciativa que se mostrará mais positiva se fornecer um levantamento completo das contas e torná-lo acessível a todos. Qualquer que fosse o sucessor de Dilma, agora ou depois, através de uma intervenção que antecipou o seu fim, como o impeachment, ou pela sucessão normal, em 2018, o novo presidente teria um abacaxi de Itu para descascar a partir de uma herança realmente trágica. Mas teria que descascar a fruta maldita.

Até agora o governo de Michel Temer não se revelou à altura desse desafio. De sua dimensão dá uma ideia o próprio anúncio que mandou publicar na imprensa. Ele diz que extinguiu 4,2 mil dos 24 mil cargos de confiança da máquina pública cuja condução Dilma lhe deixou e que 10 mil só poderão ser ocupados por servidores concursados. Ainda assim restarão quase 10 mil cargos a serem preenchidos com nomes que o presidente poderá tirar do bolso do colete – seu e dos seus parentes, amigos e correligionários. Podia simplesmente ter cumprido a diretriz constitucional e impor o preenchimento de todos os cargos pela via legal do concurso público.

Um pequeno bom exemplo, cujo valor simbólico transcende seu significado econômico-financeiro e ajudaria o povo a comecer a crer num governo que até agora majoritariamente, rejeita.

Discussão

5 comentários sobre “Um estado de guerra

  1. Os números provam que Dilma foi um desastre para o país. Nunca na história desse país, alguém conseguiu ser tão incompetente na condução das finanças publicas. É preciso mesmo compartilhar as informações com o público para que as pessoas saibam a magnitude do estrago.

    Não se pode esperar muito do Temer. Ha tres razões: (a) país já está quebrado e somente vai se recuperar depois que ele sair do poder; (b) ele era aliado da Dilma e, portanto, esta cercado de gente de qualidade duvidosa; (c) ele tem problemas de legitimidade, por isso não pode propor medidas mais duras para resolver alguns dos problemas sérios do país.

    Se ele conseguir manter a inflação sob controle, reduzir o deficit fiscal e fazer o pais crescer pelo menos 1% ao ano até o fim do mandato, ele já terá feito muita coisa.

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    Publicado por Jose Silva | 10 de outubro de 2016, 09:06
    • Tudo com o “fundamental” apoio do PMDB, o coautor do “economicídio” populista do PT durante tanto tempo, e agora o maior beneficiário do próprio crime. É o cúmplice jogando a culpa de tudo no parceiro, criando o pior ambiente possível para escusar-se de futuros insucessos e amenizar sua culpa. Tomara tenham mesmo tomado ciência da dimensão do problema e contribuam de alguma forma para prender o monstro que geraram, propondo a adotando medidas de contenção de gastos e reequilíbrio das contas públicas.

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      Publicado por Frederico Guerreiro | 10 de outubro de 2016, 21:20
  2. De fato assustador a situação de ruína em que o PT deixou o país.

    Agora o que mais me assusta é observar boa parte da esquerda brasileira não se escandalizar com esses números,que mostram que,na verdade,o PT deu algumas migalhas aos pobres,mas deu muito,mas muito mais,aos ricos.

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    Publicado por Gabriel Braga | 10 de outubro de 2016, 16:49
    • Gabriel,

      O muito ruim virou a norma no Brasil. É o processo de amnésia seletiva. Se esya amnésia será transitória ou não, somente a nazica é que sabe.

      Sobre as dilmices, aparentemente há um livro novo (Como matar a borboleta azul, da Mônica de Bolle) que explica alguns dos paradoxos do desenvolvimentismo brasileiro a la PT e Dilma. Se o livro é bom ou não, eu não sei. Vou lê-lo na proxima semana se encontrar algum tempo.

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      Publicado por Jose Silva | 10 de outubro de 2016, 17:18

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