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Lula, a vítima

Para os investigadores da Operação Lava-Jato Lula é culpado e só interessam as provas que confirmam essa hipótese; provas em contrário são descartadas. O ex-presidente da república tem que ser condenado e ir para a cadeia, de qualquer maneira.

É a tese dos lulistas. Ela se comprova através de uma matéria publicada hoje pela Folha de S. Paulo. O jornal anuncia que a proposta de acordo de delação premiada de Alexandrino Alencar, ex-diretor da Odebrecht  e um dos executivos da empreiteira mais próximos de Lula, foi negada pelos procuradores da Lava-Jato e da Procuradoria-Geral da República.

Investigadores ouvidos pela Folha consideram que as informações dadas por Alexandrino estão incompletas. Também essas fontes perceberam indícios de que ele estaria protegendo personagens que são alvos de seus depoimentos, como o ex-presidente.

Pessoas ligadas à Odebrecht que acompanham as tratativas também avaliam que os investigadores querem um conteúdo mais incisivo sobre as práticas criminosas que envolveriam o petista – acrescenta o jornal, geralmente apontados pelos petistas como integrante do PIG (o Partido da Imprensa Golpista).

“Reservadamente, Alencar tem relatado que um dos fatores que incomodaram os procuradores, por exemplo, foi insistir que Lula, de fato, fez palestras pela Odebrecht. Para os investigadores, parte delas não foi realizada e há indícios de casos de superfaturamento”, acrescenta a matéria.

Ela diz que o sítio em Atibaia, em São Paulo, seria outro ponto de atrito. “O ex-executivo afirma que o valor de R$ 1 milhão gasto em benfeitorias pela Odebrecht na propriedade frequentada por Lula foi um agrado pela atuação do petista a favor do grupo baiano, e não uma contrapartida a determinados contratos com o governo federal”.

Outro complicador seria a versão de Alencar, contrária à hipótese dos investigadores sobre a empresa Exergia Brasil, do sobrinho da primeira mulher de Lula Taiguara Rodrigues. A companhia foi alvo de denúncia apresentada ontem pelo Ministério Público Federal, em função da sua subcontratação pela Odebrecht para atuar em obras em Angola. Os empreendimentos contaram com recursos do BNDES.

“Em sua pré-delação, o ex-executivo confirmou que a empresa de Rodrigues foi contratada a pedido de Lula, mas negou que os serviços não tenham sido realizados”, informa a reportagem.

Apesar da negativa ao acordo na semana passada, a posição dos investigadores de não fechar o acordo com Alencar não seria definitiva. “A defesa do ex-diretor se comprometeu a levar novos elementos sobre Lula para a negociação. Parte dos procuradores crê que, com o material, há chances de o cenário mudar”.

Advogados ligados à Odebrecht contatados pela Folha trabalham com essa perspectiva e têm se dedicado a levantar informações e provas solicitadas pelo Ministério Público. Sabem que têm pouco tempo para mudar os rumos da negociação.

Além de Alencar, outros executivos do grupo estão em risco de não ter acordos fechados com a Procuradoria e a força-tarefa, segundo envolvidos nas investigações, que o jornal cita sem dar-lhes os nomes.

A empreiteira baiana estaria tentando concluir a delação de 53 funcionários. Ao longo da semana passada mais de 20 advogados ligados à Odebrecht estiveram em Brasília, onde se reuniram com os procuradores.

A Folha lembra que essa é a segunda vez que as declarações de Alencar são consideradas insatisfatórias pelos procuradores. “Há pouco mais de um mês, eles fizeram uma rodada de entrevistas com os candidatos à delação da Odebrecht em Curitiba e em Brasília”.

Condenado por Sergio Moro a 15 anos e sete meses de prisão sob acusação de corrupção e lavagem, Alencar ficou quatro meses detido. Foi preso em 2015 na mesma fase que deteve Marcelo Odebrecht, herdeiro do grupo, mas saiu com um habeas corpus concedido pelo STF.

Se verdadeiras, as informações dadas pelo jornal paulista suscitam várias reflexões.

A primeira é quanto ao PIG. Não há dúvida que a grande imprensa nacional não gosta de Lula e dos petistas, muito menos de Dilma Rousseff, e em especial desconfia das suas políticas sociais e da sua diplomacia, mas não há qualquer prova de que atuou nos bastidores para derrubá-los ou encurtar os seus mandatos.

Lula exerceu plenamente a presidência da república durante os oito anos que conquistou através do voto. Todos os jornais noticiaram que ele deixou o poder com o mais alto índice de aprovação da história republicana.

A fama que ele atribuiu a Dilma como gerente eficiente foi aceita e ela surfou sem problemas na enorme onda deixada pelo seu antecessor (muito mais de espuma do que de água), até a onda quebrar e a realidade se apresentar, depois da eleição de 2014.

Nesse momento a bolha de tolerância da grande imprensa também estourou e começaram a se suceder editoriais em progressão até o impeachment. Mas não num coro monocórdio. A aversão a Dilma teve tons e semitons, cores fortes e também neutras. Todos a queriam fora, mas o país continuou funcionando quando ela caiu e o pregão golpista afinou. Porque se é certo que o Brasil não engoliu Temer, também só os fanáticos para negar que também já deglutiu Dilma – e Lula.

Demonstração dessa diversidade é a própria notícia dada pela Folha. Certamente muitos petistas vão apregoá-la aos quatro ventos como a prova de que Sérgio Moro & equipe nada mais fazem do que uma perseguição sem trégua, a serviço de forças ocultas ou não, mas sempre conspiradoras, para evitar que Lula volte em 2018 e dê um passeio até a presidência de novo.

Mas não é exatamente assim. O homem da Odebrecht mais próximo de Lula, seu acompanhante em muitas viagens e interlocutor em diversos encontros, não negou nenhum dos fatos postos sob quarentena pelos correligionários do ex-presidente.

A Odebrecht realmente gastou a nada desprezível soma de um milhão no sítio paulista, que ele nega ser de Lula, que por lá apenas passaria, em vacances (como dizem os colunistas sociais). Foi só um mimo desinteressado da construtora, reconhecida pela atuação patriótica e positiva do chefe da nação. Imagine-se quanto não gastaria se o sítio fosse realmente de Lula.

Da mesma forma, confirmou que a empreiteira subcontratou uma firma do sobrinho do então presidente, mas ele realmente prestou os serviços que lhe foram dados. E a participação de Lula se restringiu a promover os negócios do Brasil em Angola. Se a Odebrecht faturou em cima dessa diplomacia, é coisa do acaso.

Da mesma forma, a empresa pagou dos maiores honorários do mercado internacional para que Lula desse suas fabulosas e incomparáveis palestras pelo Brasil e o mundo, pelas quais podia até ter merecido um prêmio Nobel da paz. Nada a ver com transferência camuflada de recursos que os espíritos malévolos teimam em chamar de propina, comissão ou pró-labore, ou non-labore.

A verdade, como se está a ver, não é produto fácil ou abundante na praça. Mas pode ser encontrado se quem o busca olhar com atenção, acuidade e competência as prateleiras em oferta.

Discussão

14 comentários sobre “Lula, a vítima

  1. Lúcio,

    O Alexandrino está correto. Foi só um agradinho. Como estamos em um mundo onde não há almoço grátis, a Lava-Jaro precisa calcular rapidamente o quanto esse agradinho custou ao país.

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    Publicado por Jose Silva | 11 de outubro de 2016, 13:05
  2. Lúcio, gostaria que focasses tuas atenções também na pauta da PEC dos gastos públicos. Lula já foi tão falado aqui. Tu, escrevendo sobre essa PEC, pode ajudar teus leitores a ter um entendimento mais claro também neste assunto.

    Curtido por 1 pessoa

    Publicado por Rafael | 11 de outubro de 2016, 22:32
    • É verdade, Rafael. O problema é que ainda não consegui acesso a certos dados para uma análise satisfatória. Há aspectos que me agradam na iniciativa e outras que me lançam na dúvida. Por isso preciso esclarecê-la, o que, também por falta de mais tempo, ainda não consegui. Fica o débito.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 12 de outubro de 2016, 11:42
  3. Bom dia.

    Lúcio,
    Vc usando a expressão PIG, mesmo tratando no sentido de desmontá-la, me remete a pessoa que mais a usa e que se tornou um jornalista caricato.

    Imagino que vc não queira inflá-lo.

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    Publicado por Sou daqui. | 12 de outubro de 2016, 09:36
  4. “A verdade, como se está a ver, não é produto fácil ou abundante na praça. Mas pode ser encontrado se quem o busca olhar com atenção, acuidade e competência as prateleiras em oferta.” Sim, Lúcio, isso é um terrível problema aqui no Brasil. Não encontro fontes confiáveis e profundas de informação sobre a realidade política e econômica. Por isso agradeço por cada artigo seu em que você nos ajuda a pensar.

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    Publicado por rbmoura | 12 de outubro de 2016, 12:54
  5. Lúcio,
    Na matéria você diz duas coisas que me chamaram a atenção:
    – Que não existe a PIG;
    – Que a agora ex-presidenta surfou na onda de espuma deixada pelo Lula, e que apenas após às eleições de 2014 a realidade apresentou-se;

    Bom, se não houve imprensa golpista, é de muita suspeita que todos os editoriais apontaram as falcatruas envolvendo apenas os figurões do agora falido PT. Notícias atrás de notícias envolvendo o Lula.
    É claro que não tem santo nessa história, mas, o que houve, foi um verdadeiro processo de desconstrução da imagem do PT (por conta dos seus próprios crimes e conchavos com outros partidos) e do líder maior do centro-esquerda, encarnado na figura do Lula.
    O que é mais difícil aceitar, são os mesmos caciques de sempre da direita (também envolvidos em rapinagem) apresentarem-se como agentes da mudança.
    O crescimento do PSDB nas eleições municipais, é reflexo direto desse processo de ruína e desconstrução da imagem do PT .
    O Lula sabe que só chega a presidência se: não for preso antes (se o SuperMoro conseguir jogar ele na cela) e a mídia parar de desconstruir a sua imagem (coisa que sabemos que não vai acontecer).

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    Publicado por Sanderson Araújo | 13 de outubro de 2016, 16:01
    • Já escrevi outros artigos sobre o mesmo tema, além deste que você comenta e que, ao meu ver, respondem às suas perguntas. Entendo que só existiria golpe se fosse uma conspiração articulada nos bastidores.
      A grande imprensa, porém, diz o que quer e pensa às claras, em editoriais e matérias. Sempre criticou o PT, Lula e Dilma, mas Lula desceu do poder, depois de exercer plenamente oito anos em dois mandatos, sendo noticiado como o presidente mais popular de todos os tempos.
      Mesmo combatida, inclusive por ser mulher, Dilma ganhou e levou. Sob críticas, cumpriu o primeiro mandato. A campanha cresceu a partir de 2014 quando, para vencer a eleição (e por apenas 3% de vantagem, no 2º turno), ela usou e abusou da máquina pública, deixando-a totalmente desregulada, na iminência de colapso fiscal e de quebra de regras de gestão e de contas. A grande imprensa não a queria mais e defendeu o impeachment, como passou a atacar intensivamente Lula. Os motivos, porém, são de natureza ética e moral, ainda que esteja subjacente a luta política.
      Lula teria outro destino se os pretextos fossem apenas políticos. <as mão são. Tanto ele quanto Dilma favoreceram a grande empresa e foram os que mais bilionários induziram através de dinheiro público, principalmente através do BNDES, numa conta de R$ 500 bilhões.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de outubro de 2016, 16:25
      • Respeito o seu pensamento Lúcio, mas, não tenho como concordar quando você fala que a imprensa pensa às claras.
        Todo dia o maior veículo de comunicação do país, bombardeia os seus telespectadores com notícias envolvendo figurões do PT, principalmente o Lula.
        O PT e está cheio de bandidos, é fato! Entretanto, cadê a guerra para o fim da corrupção? Primeiro, fora Dilma, depois os outros?
        Ninguém aguenta mais a corrupção do Lula e do PT, a dos outros partidos, para elas ninguém está nem ligando.

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        Publicado por Sanderson Araújo | 14 de outubro de 2016, 15:04
      • O alvo está se ampliando. Mas o jogo de bastidores é pesado. Não disse que a grande imprensa é absolutamente cristalina, mas que ela expressa o que quer em boa medida através dos seus veículos. Do contrário, de que vale tê-los? O que digo é que não há prova alguma de que algum dos capitães da imprensa esteja participando ou tenha participado de articulações contra Lula e Dilma.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 14 de outubro de 2016, 15:22

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