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Cultura

Dylan é Nobel

Bob Dylan prêmio Nobel de Literatura deste ano, aos 75 de idade: quem esperava por essa? Velho admirador do cantor e compositor americano, não só não esperava como acho que não lhe cabia a premiação. Suas letras são poéticas, com versos que lembram Bertolt Brecht, com sua impura dicção de rua.

Mas poesia por poesia, em música, Chico Buarque de Holanda o supera. Sem bairrismo. Talvez ele seja um dos maiores criadores da música mundial. Teve a infelicidade de nascer no Brasil, que fala o belo português, não o inglês planetário.

Parece claro que a Academia Sueca não optou por Dylan em função da elevada qualidade literária da sua criação através da música, criteriosamente avaliada. Foi para atrair a atenção, causar impacto, dar sinal de vitalidade, manifestar-se como organismo vivo, quitando dívida de muito tempo, já que Bob estivera cotado antes.

Não por acaso, a notícia, anunciada no ambiente circunspecto, formal e sisudo da academia, foi recebida com gritos e aplausos em Estocolmo,  hoje de manhã (às 8 horas de Brasília).

Dylan foi agraciado por ter “criado novas expressões poéticas dentro da grande tradicional canção americana”, a partir de inspiração em clássicos gregos, como Homero e Safo. “Eles faziam poesia para ser ouvida e para ser apresentada com instrumentos. Nós lemos Homero e Safo e gostamos até hoje. É o mesmo com Dylan. Ele pode ser lido, deve ser lido, e é um grande poeta da língua inglesa. E ele faz isso se reinventando constantemente”, foi o que disse o comunicado.

Super-premiado nos Estados Unidos – acumulando 12 Grammy, um Oscar, um Globo de Ouro, um Pulitzer – Dylan se tornou agora o primeiro compositor de canções a ganhar o prêmio máximo da literatura, que rende o equivalente a três milhões de reais. Sua bibliografia computa 30 livros publicados, mas a maioria é uma extensão das suas letras de música. Não é grande literatura senão lateralmente.

O que a engrandece é o contexto em que Bob Dylan começou a produzir suas canções de protesto, isolado num ambiente ainda hostil junto com Pete Seeger e Joan Baez, que abririam caminhos para uma nova (contra)cultura, nos anos 1960.

Se fosse para realizar o objetivo da premiação, que não era concedida a um americano desde 1993, a Academia iria melhor escolhendo entre Don DeLillo, Philip Roth e Joyce Carol Oates. Ou dando o primeiro Nobel a um brasileiro, na área musical, se a intenção era agir de forma pioneira, estimulando a aproximação entre literatura e música, optando por Chico.

Falo isso olhando para o adolescente que entre 1964 e 1967 traduziu Dylan junto com o grande amigo Fernando Coelho de Miranda, o Fernando Arara. Passávamos madrugadas na casa da família, de Durval Machado e Lindanor Celina, na Frei Gil, a traduzir letras de músicas, como Mr, Tambourin Man, Like a Rolling Stone ou The times they are a changing.

Por esse ângulo, o Nobel para Dylan é um reencontro com uma história que já ia se transformando em arqueologia e que, enaltecida, nos dá uma sensação de reconforto: éramos felizes , não nos deram tempo nem espaço para perceber. Ou usufruir.

Discussão

9 comentários sobre “Dylan é Nobel

  1. Do Brasil, Lygia Fagundes Telles é quem foi indicada para o Nobel desse ano. O nome de Dylan passeava faz tempo por lá, sempre tido como uma zebra.

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    Publicado por Jonathan Pires | 13 de outubro de 2016, 13:56
  2. Quanto a Chico Buarque, acredito (não tenho certeza) que sua obra tenha um alcance limitado, quase restrito ao Brasil. Em minha opinião, um nome brasileiro que tem possibilidades de alcançar o nobel de literatura é Milton Hatoum, autor que já tem livros traduzidos para várias línguas.

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    Publicado por Jonathan Pires | 13 de outubro de 2016, 14:03
  3. Nesse caso ainda gosto mais do espírito anarquista/beat do Dylan. O Chico é meu herói, mas a transgressão de Dylan me encanta. Fiquei feliz por ele, assim como fiquei pela premiação da Svletana Aleksiévitch no ano passado, o seu livro “Vozes de Tchernóbil” me inspirou até para eu começar a pensar em um tema de mestrado.
    Há um ótimo filme sobre a carreira de Bob Dylan, chama-se “Não Estou Lá”, é um ficção em termos fantásticos sobre o processo de composição de algumas de suas canções.
    Por fim, não há nada mais lindo do que a rainha black Odetta cantando “Masters of War” do Dylan, ela deveria ser mais lembrada como uma grande cantora de protesto norteamericana, tão maravilhosa quanto Baez, mas sua pele escura fez com que ficasse apagada dessa parte da história.

    Paloma

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    Publicado por pal0 | 13 de outubro de 2016, 20:38
    • Eu não havia atentado para esse detalhe da Odetta, mas arrisco o palpite de que o maior destaque a Baez se deve a que ela é pioneira, não pela cor. Do contrário as divas Billie Holiday, Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald, dentre tantas cantoras negras, americanas e e maravilhosas teriam desaparecido. A interpretação de Odetta é divina. Eu a ouço de vez em quando. Ah, sim: há o precioso documentário de Martins Scorsese sobre o Dylan. É a ele que você se refere?

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de outubro de 2016, 21:20
      • Tendo a pensar que o racismo institucional é o maior responsável pela deleção dessas artistas e que Billie, Ella, Sarah e Nina são lembradas porque conseguiram sobreviver aos seus efeitos, mas posso estar enganada quanto a isso e ao caso de Odetta.
        O filme ao qual me referi é um documentário/ficção dirigido pelo Todd Haynes, lançado em 2007. Nele o Bob Dylan é uma espécie de arquétipo para os protagonistas dos diversos episódios apresentados. Eu gosto muito. Vou procurar o doc do Scorsese, não conheço.

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        Publicado por pal0 | 13 de outubro de 2016, 22:09
  4. Caramba…. o negócio tá ficando feio mesmo.

    Dylan Nobel de Literatura….vem alguém e imagina que poderia ser Chico Buarque no lugar….

    Me atrevendo a falar por um morto….

    Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.
    José Saramago
    Em 8 de outubro de 1998, Saramago se tornou o primeiro escritor da língua portuguesa a ganhar um Nobel da Literatura.

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    Publicado por Sou daqui. | 13 de outubro de 2016, 22:20
  5. Dylan é único, indivisível na sua universalidade. Tenhos todos os discos dele, bootlegs, as famosas basement tapes – período de reclusão, após o acidente de motocicleta que sofreu – vídeos e cinco livros, um de 800 páginas, sobre a obra, uma daquelas biografias não autorizadas, por isso mais genuínas. Enfim, um prêmio merecido. Pelo conjunto da obra, talvez. Poeta, escritor, compositor extraordinário. Meu disco preferido, de 1969 ( sempre na programação da nossa rádio Sintonia Web) é o Nashville Skyline. A voz dele, em estúdio, ficou muito sem aquele esgar característico de outros álbuns. Ficou mais limpa, firme, mas serena. Talvez as canções, com um toque country, como a clássica Lay Lady Lay, tenham contribuído para isso. Resumo da ópera folk-roqueira: uma obra prima.

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    Publicado por Carlos Mendes | 14 de outubro de 2016, 19:12
    • Sem dúvida, Mendes.
      Lembrança de adolescente, no bangalô rosa da Frei Gil, alta madrugada, depois de concluirmos a tradução de Dylan, Fernando Lúcio (morto tragicamente e muito cedo) largava o vozeirão, acordando sapos e pirilampos ou tecendo fios melódicos pelo sereno com essa maravilhosa Lay Lady Lay. Chegando das noitadas com Durval, Lindanor preparava um Nescau gelado para prosseguirmos, já com a adesão dela, festeira como sabia ser.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 14 de outubro de 2016, 21:12
  6. Faltaram as justificativas para não aceitar a premiação ao cantor. Aliás, as ponderações da comissão sobre os clássicos gregos Homero e Safo, sobre o agraciado ficaram meio esquisitas!

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    Publicado por Rodolfo Lisboa Cerveira | 17 de outubro de 2016, 21:38

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