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Cidades

Numa parada de ônibus

Dois ônibus seguidos com destino à Presidente Vargas, que são os menos frequentes no trajeto, passam e não param, apesar dos acenos dos candidatos a passageiros. Outro que passa espalha lama sobre quem está na parada da avenida Pedro Álvares Cabral. À minha frente, uma senhora ficou com o rosto e os braços sujos.

Meto a mão no bolso e de lá trago um lenço, que lhe ofereço. Ela olha como se estivesse diante de um OVNI. Olha atentamente, como se quisesse entender o significado do objeto antediluviano. Depois sorri desarmada, pega o lenço rindo, se limpa, me devolve e segue seu caminho.

Cena entre rotineira e rara numa das sempre sofridas paradas de ônibus em Belém do Pará, onde o responsável pela prestação do serviço de utilidade pública diz que a melhora foi de 100%. Provavelmente a ex-diretora da Semob errou de Mercedes: trocou o de passeio pelo “busão”, o único no qual toma assento o povão (rima, mas, como de praxe, não é a solução).

Discussão

14 comentários sobre “Numa parada de ônibus

  1. Considerando, que gentileza gera gentileza, e em grandes metrópoles é artigo de luxo receber nas ruas de representantes da pós-modernidade.

    Realmente, atos de empatia, não são processadas por mentes aturdidas e desconfiadas, logo, quem os faz, por descontextualizar dos hábitos do terráqueo belenense comum é considerado marciano ou venusiano.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 31 de outubro de 2016, 19:44
    • E meus filhos, netos, sobrinhos e alguns amigos jovens me olham como um ser primitivo quando puxo pelo lenço. “Ninguém mais usa isso, tio”, me alertam para a prova de um crime: a minha idade sexagenária.
      Em compensação, outro dia me encolhi na lateral de uma escada íngreme para que uma senhora passasse. Ela não captou a princípio o meu gesto, mas quando viu que eu aparentava ser de carne & osso, avançou, agradecendo: “Ainda bem que ainda existem cavalheiros”. Ao que respondi: “Ainda bem que ainda existem damas merecedoras de cavalheirismo”. Rimos ambos gostosamente e cada um seguiu sua sina, em aliteração suave.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 31 de outubro de 2016, 19:59
      • Uso lenços no bolso desde os 20 anos.

        E continuo a portá-los, indefectivelmente. Também já tive olhares desconfiados quando os tiro. E tiro-os em qualquer lugar, sem cerimônia. E tenho alguns anos a menos que vc.

        Os seus tem monograma ? Tenho alguns que possuem.

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        Publicado por Sou daqui. | 31 de outubro de 2016, 23:10
      • Também tenho alguns assim. Mais velhos.
        Uma das razões para condenar o lenço é que não seria higiênico. Foi substituído pelo lenço descartável de papel. Mas como andar com um pacote desse lenço no bolso? Para homens, como colocá-lo na pasta, que é depósito de papeis e ferramenta de trabalho? E como transferir para o papel o charme do bom lenço de pano?
        Posso sair de casa sem outros elementos da indumentária, mas não sem o lenço, que compõe a minha personalidade (ou, pelo menos, para quem me vê de fora, minha imagem).
        Ah, sim: tenho 67 anos.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 1 de novembro de 2016, 08:15
      • Também não saio sem lenço no bolso, até quando vou apenas na padaria, mesmo de bermuda.

        O lenço não é útil apenas quando o nariz pede. Tem muitas outras utilidades. Como consolar uma bela moça chorosa sem um lenço no bolso ?

        Mas vc tem razão também quanto a personalidade, nos dias de hoje ele pode denotar alguma. Sempre fui taxado de mais velho do que sou por causa deles.

        Ah, sim: tenho – alguns anos a menos que – 67 anos.

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        Publicado por Sou daqui. | 1 de novembro de 2016, 17:26
  2. Gosto bastante dos seus textos sobre cotidiano. Espero vê-los mais por aqui.

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    Publicado por Jonathan | 31 de outubro de 2016, 19:48
  3. Lucio,

    A situação da falta de civilidade dos motoristas de ônibus de Belem que você narrou eu vejo desde criança e olha que isso já faz muito tempo. Nunca muda. Pior, creio que os motoristas estão mais agressivos devido aos congestionamentos e à música de qualidade duvidosa que ouvem. Comparado com os ônibus de hoje os velhos sacrabala-nazare que eu andava eram uma maravilha. Creio que é melhor você ir preparando a nova geração da família para carregar centenas de lenços nos bolsos, pois com o prefeito que temos, nenhuma mudança ocorrerá.

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    Publicado por José Silva | 1 de novembro de 2016, 08:23
  4. Falndo nisso, operarios e maquinas começaram a sumir das ruas de Belem, por que será?

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    Publicado por Hernani Filho | 1 de novembro de 2016, 17:51
  5. Lúcio, como sofri nessas paradas da presidente vargas ( a pior era aquela próxima à agência dos correios)! Quantas vezes os ônibus me deixaram na mão! Queimavam direto. Em vez de entrarem na “fila” da parada, se aproveitavam da barreira de ônibus parados e se mandavam, certos da impunidade. Isso acontecia diariamente. E para piorar, o meu ônibus era daqueles que passavam a cada 30 min. Fiquei com reputação de atrasada no trabalho.

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    Publicado por mamaetadeolho | 3 de novembro de 2016, 08:40
    • Ainda bem que você sofreu “apenas” a queimada de parada. Temo pelo que de pior pode acontecer ali: um ônibus se desgovernar, pelo motivo que for, e atropelar pessoas que ficam na rua tentando pegar ônibus. Devia existir uma longa e boa parada, faixa exclusiva de ônibus, fiscalização do cumprimento das obrigações pelos motoristas e, de medida em media, redução drástiuca da quantidade de ônibus que chegam ao núcleo mais antigo de Belém.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 3 de novembro de 2016, 17:16

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