//
você está lendo...
Economia, Política

Delfim: de czar a Rasputin

O paulista Antonio Delfim Netto, que em 2018 completará 90 anos de idade, foi o homem mais poderoso da ditadura militar quando ela combinava violenta repressão política com os maiores índices de crescimento econômico, na casa dos dois dígitos.

O “milagre” brasileiro, equiparado ao japonês desse período, servia de legitimação do regime de exceção e anestesia da população, atraída para o consumismo e o enriquecimento súbito através da loteria esportiva.Ao todo-poderoso ministro da Fazenda e czar da economia atribuía-se a frase: “é preciso fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo”. Quatro décadas depois ele desmentiu a autoria em entrevista ao jornal O Globo, do Rio de Janeiro:

– Esta frase nunca passou pela minha boca. Disse que não se pode distribuir o que você ainda não produziu, a não ser que você tome emprestado.

Delfim é um dos mais brilhantes economistas brasileiros de todos os tempos, mas mente maliciosamente (e com inventiva) ao tratar do seu papel na ditadura, sem deixar, porém, de preservar um traço de verdade.

No caso da retificação da frase que renega, o que ele deixou de acrescentar foi que realmente o tal milagre se fez com poupança alheia, o que provocou a mais dívida internacional do mundo.

Ele também desvendou seu truque de inflação menor do que a real, em 1973. Disse que fazia um controle arbitrário dos preços dos alimentos no Rio de Janeiro, o único lugar onde era feita a apuração dos preços. Assim, manipulava o índice, calculado pela Fundação Getúlio Vargas.

Mas não foi só assim, não. Como ajudei a demonstrar em matéria publicada na época em O Estado de S. Paulo, Delfim interveio diretamente na FGV, fraudando os números, não apenas fazendo o truque nas feiras e supermercados. Ele não tinha escrúpulos nessas operações.

Influente durante toda a república, mantendo seu poder mesmo na passagem da ditadura à democracia, ele era ouvido com atenção por Lula e Dilma, incluindo nas decisões dos dois presidentes petistas. Tão influente que a Operação Lava-Jato investiga a participação dele na definição da licitação para a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Tocantins, no Pará, obra que já chegou a 32 bilhões de dólares. Delfim é suspeito de ter levado propina do consórcio construtor.

Ele continuará a atuar nos bastidores, agora no governo de Michel Temer? Como a grande imprensa não tem ido atrás da resposta para esta interessante pergunta, aproveito para aquecer o tema com um texto que o professor Ricardo Bergamini me enviou, conforme se segue (com alguns ajustes para facilitar a leitura).

“Com a quase certa vitória do candidato à Presidência da República pela Aliança Democrática, Tancredo Neves, chega ao fim um período da vida econômica do país marcado pela presença de um homem que foi, sem dúvida, czar da economia.”

Quando a frase foi publicada no GLOBO, em 30 de dezembro de 1984, esses dois fatos pareciam certos: que Tancredo assumiria a Presidência e que Antonio Delfim Netto se afastaria do comando da economia brasileira. Mas a História mostrou dois desfechos surpreendentes.

A trágica morte de Tancredo foi acompanhada pelo país inteiro, mas não tão conhecida é a história do homem que comandou a economia durante a ditadura como um czar e, depois, continuou no poder – não mais como czar, mas como Rasputin: um homem que, mesmo sem ocupar cargos no Executivo, aconselhou governantes, influenciou poderosos, como o conselheiro dos Romanov, a família imperial russa. E que não sai de cena.

Não é à toa que, mais de 30 anos depois de deixar o seu último ministério, Delfim continua relevante, dando pitacos, e sendo ouvido e lido (ele tem uma coluna semanal no jornal “Valor Econômico”) por cidadãos comuns e governantes.

Nada mais adequado para alguém como ele do que ter nascido no Dia do Trabalho, em 1º de maio de 1928, já que Delfim é conhecido por ser um workaholic. Reportagem publicada no GLOBO, em 28 de maio de 1973, conta que ele “dorme normalmente 4 a 5 horas por dia, acorda às 6 horas e frequentemente pode ser encontrado no Gabinete a partir das 7 até às 22 horas”.

Ele é dedicado desde menino: começou a trabalhar aos 15 anos como contínuo de uma empresa de sabonetes, enquanto, à noite, estudava no equivalente ao ensino fundamental. Iniciou o curso de Economia da Universidade de São Paulo (USP) em 1949, e, enquanto estudante, trabalhou no Departamento de Estradas de Rodagem de São Paulo e na Bolsa de Mercadorias de São Paulo. Além disso, foi eleito presidente do Centro Acadêmico Visconde de Cairu, que representa os alunos de Economia, Administração e Contabilidade da USP.

Em 1965, entrou para o Conselho Consultivo de Planejamento (Consplan), chefiado por Roberto Campos, para assessorar o primeiro governo da ditadura militar (1964-1985), comandado pelo general Humberto de Alencar Castelo Branco. Durante a presidência de Castelo, ele também foi assessor do Ministro da Fazenda, Octávio Gouvêa de Bulhões. Delfim foi ainda um dos criadores do modelo matemático do Plano Decenal e colaborou no projeto que criou o FGTS.

Durante essa época, também fazia trabalhos acadêmicos na cátedra de Economia Brasileira da Faculdade de Economia de São Paulo e colaborava com órgãos privados e públicos. Entre 1966 e 1967, por poucos meses, foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo na gestão de Lauro Natel.

No começo de 1967, ele foi surpreendido ao receber o convite para o Ministério da Fazenda do general Arthur da Costa e Silva. Delfim, aos 38 anos, era o mais jovem do Ministério e o único solteiro. Ficou no cargo até 1974, sendo então o único a participar de três governos (Costa e Silva, Junta Militar e o do general Emílio Garrastazu Médici) desde o início da República.

Durante a passagem pelo ministério, ele foi tão lembrado por sua política econômica quanto por suas atitudes nos bastidores do governo. Ele foi personagem importante na criação do Ato Institucional nº 5 (AI-5) que, entre outras medidas, aumentava os poderes do presidente e retirava o direito de habeas corpus para vários crimes. Em depoimento à Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo, em 25 de junho de 2013, ele afirmou que não se arrependia de ter sido um dos elaboradores do Ato.

— Se as condições fossem as mesmas e o futuro não fosse opaco, eu repetiria. Eu não só assinei o AI-5 como assinei a Constituição de 1988 — disse, referindo-se à sua eleição como deputado constituinte.

Quanto a uma suposta participação para arrecadar, junto a empresários paulistas, fundos destinados à Operação Bandeirante (Oban), um centro de informações montado pelo Exército em 1969 para combater as organizações armadas de esquerda, ele nega. No depoimento à Comissão da Verdade, Delfim afirmou:

— Duvido que tenha existido esse processo de arrecadação com o empresariado.

O economista garante que não sabia sequer da existência de torturas durante o regime militar. Em entrevista ao GLOBO, publicada em 23 de março de 2014, declarou:

— Uma vez perguntei ao presidente Médici se havia tortura. Ele me disse que não. Nós ouvimos, como todos, coisas aqui e ali. Acreditei nele.

Durante o período em que Delfim Netto ficou à frente da Fazenda o país mergulhava nos “anos de chumbo”, devido à forte repressão política, mas foi também nessa época que ocorreu o “milagre econômico”.

O Brasil vivia um momento de forte crescimento com taxas de dois dígitos: entre 1967 e 1973, o aumento médio do PIB, segundo o IBGE, foi de 10,16%.Também no período, cresceram a inflação (média de 19,97% no período, segundo o IBGE) e a desigualdade de renda – ou, como descreveu o próprio Delfim no GLOBO, em 19 de março de 1978:

— Umas classes melhoraram mais do que as outras.

A política econômica do ministro era descrita por seus críticos como “fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo”, embora em entrevista ao GLOBO, em 23 de março de 2014, ele afirme:

— Esta frase nunca passou pela minha boca. Disse que não se pode distribuir o que você ainda não produziu, a não ser que você tome emprestado.

A época do “milagre” também foi marcada por um forte ufanismo, devido à melhora na economia, à alta nas bolsas de valores do país e à conquista da Copa do Mundo de 1970. Nessa época, foi criado o lema: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Tudo isso chegaria ao fim, começando com a queda da bolsa, em 1971, e sofrendo seu ataque final com o primeiro choque do petróleo, em 1973, que causou forte inflação, desequilibrou a balança comercial do país e diminuiu o crescimento do PIB.

Mario Henrique Simonsen, o ministro da Fazenda seguinte, já sob o governo do general Ernesto Geisel, declarou que a inflação divulgada na era Delfim era falsa, já que simplesmente mostrava os índices de um congelamento imposto pelo próprio ministro, que não eram seguidos pelo mercado real.

Mais tarde, em 11 de novembro de 2001, O GLOBO publicou a reportagem “Delfim diz que manipulou inflação em 1973”, sobre o recém-lançado livro “Mario”, de depoimentos de colegas e amigos de Simonsen. Na obra, Delfim Netto afirma que conseguia conter os índices aumentando a oferta de alimentos no Rio, que era a única cidade onde a Fundação Getúlio Vargas (FGV) apurava os preços no varejo. Com o aumento na oferta, os preços caíam.

O fim do “milagre” parecia ser a despedida do poder de Delfim Netto, especialmente quando o presidente Geisel o nomeou embaixador do Brasil na França, um quase exílio, até porque ele não tinha perfil para o cargo, segundo alguns críticos. Como afirmou o jornal francês “Le Monde”, em análise do novo ocupante da embaixada brasileira, publicada em outubro de 1974:

“É um Embaixador pouco comum o que o Governo brasileiro acaba de nomear para Paris. Nem diplomata, nem militar, nem sequer homem de Partido, Delfim Netto é, sobretudo citado nestes últimos anos nos círculos do show business internacional”.

O jornal afirmou ainda que, “se já não encarna como antes a filosofia do regime militar brasileiro, Delfim Neto pode prestar ainda preciosos serviços”.

Depois do período como embaixador, ele voltou ao Brasil em 1978 e tentou, sem sucesso, se lançar como candidato do PDS ao governo de São Paulo (quem levou a nomeação foi Paulo Maluf). Em 1979, porém, já sob o governo do general João Baptista Figueiredo, ele voltou ao centro do poder.

Após exatamente cinco meses no Ministério da Agricultura, Delfim substituiu Mario Henrique Simonsen no Ministério do Planejamento, em 15 de agosto, sob promessa de uma política desenvolvimentista, o contrário das propostas de recessão do seu antecessor. Uma manchete do GLOBO de 25 de outubro de 1979 mostrava a sua influência: “Delfim, ministro de fato da Economia, é quem decide”.

A economia, novamente sob sua batuta, desaqueceu, os juros aumentaram e a dívida externa também. Em 1982, o Brasil recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI). O GLOBO conseguiu, por meio da Lei de Acesso à Informação, documentos que mostram que o governo esperou até dezembro para ir ao Fundo, para que isso não o prejudicasse nas eleições para governadores, em novembro daquele ano.

A reportagem foi publicada no dia 2 de setembro de 2012. O então presidente do Banco Central, Carlos Langoni, confirmou a história em declaração ao GLOBO:

— Sem dúvida, houve decisão de segurar o acordo com o FMI, que era inevitável — afirmou Langoni.

O aumento insustentável da dívida externa foi o que marcou a passagem de Delfim pelo Ministério do Planejamento no fim da ditadura militar. Em 1983, ele chegou a ser convocado pelo seu próprio partido, o PDS, para explicar o tamanho da dívida ao Congresso.

A situação da economia fez com que Delfim deixasse o ministério com baixa aprovação, ainda que fosse quase unanimemente considerado um dos economistas mais brilhantes do Brasil. O motivo pode ter sido resumido pelo ex-Ministro da Fazenda Octávio Gouvêa de Bulhões, em declaração reproduzida pelo GLOBO em 23 de julho de 1982: “Delfim é competente, mas sua política está errada.”.

Após sair do cargo, em 1985, ele foi o coordenador da campanha vencedora de Jânio Quadros à Prefeitura de São Paulo, e, no ano seguinte, elegeu-se deputado federal pelo mesmo PDS, antiga Arena, partido do governo militar. Ficou na Câmara por cinco mandatos.

Em seguida, Delfim surpreendeu mais uma vez: tornou-se conselheiro do então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda durante a campanha de 2002, Delfim foi interlocutor frequente do futuro Ministro da Fazenda Antônio Palocci.

A relação entre Delfim e o PT foi tamanha que, em 13 de outubro de 2002, duas semanas antes do segundo turno da eleição que levou Lula ao poder, a coluna de Elio Gaspari no GLOBO começou assim: “Se Lula vencer a eleição, seu governo terá começado na tarde de terça-feira, numa sala do Hotel Sofitel, em São Paulo, quando ele sentou-se com o deputado Delfim Netto”.

Gaspari afirmou que eles combinaram que, se eleito, Lula faria uma presidência mais moderada, de respeito aos contratos e à propriedade, reforma tributária e cedendo independência ao Banco Central. Gaspari afirmou ainda que Delfim ajudou na elaboração da “Carta aos brasileiros”, em que Lula prometera não fazer um governo radical.

Apesar de algumas críticas, a surpreendente influência do antigo czar da economia permanece ainda durante o governo petista. Em 26 de janeiro de 2016, uma manchete do GLOBO afirmava: “Delfim Netto sugere que Dilma vá ao Congresso apresentar projetos”. Uma semana depois, nova manchete: “Dilma decide ir ao Congresso, onde defenderá recriação da CPMF”.

Discussão

5 comentários sobre “Delfim: de czar a Rasputin

  1. O ex-Ministro Delfim Neto entra para os Anais da história econômica republicana. No entanto, a ele, seja evitado o mesmo fim que vitimou Rasputin.

    Curtir

    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 5 de novembro de 2016, 20:36
  2. Mais um exemplo do poder longevo da USP, que queira ou não, na direita ou na esquerda, e apesar de todo o apadrinhamento interno, corporativismo, e pessima gestão, continua influenciando alguma das políticas brasileiras. Lucio, como ex-aluno de lá, você ainda acha a Influência da USP continua a mesma?

    Curtir

    Publicado por José Silva | 5 de novembro de 2016, 21:32
    • O poder da USP resulta da receita certa que tem, com a porcentagem que lhe cabe na receita de ICMS de São Paulo. Mas ela tem perdido em qualidade nos últimos tempos por excesso de politicagem interna e mau uso da sua autonomia. O gigantismo pelo critério quantitativo é um vírus que está agindo na sua estrutura, corroendo-a por dentro.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 6 de novembro de 2016, 08:30
      • Isso é verdade. Com todo o dinheiro que recebem deveriam ser muito melhores do que são. Infelizmente contrataram muitos doutores inéditos, abusaram da endogamia, da ma gestão e do corporativismo extremo. Abriram mão de ser uma universidade moderna para se transformar em uma organização semi-falida.

        Curtir

        Publicado por José Silva | 6 de novembro de 2016, 10:54
  3. Delfim Neto, comemoraremos sua morte como fizemos com a Dama de Ferro.

    Curtir

    Publicado por Proletário | 5 de novembro de 2016, 23:54

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: