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Imprensa, Política

Uma e outra América

Pablo Martinez Monsivais, da Associated Press, fez a foto do ano, reproduzida em todo mundo, inclusive por O Liberal, na sua primeira página da edição de hoje. “Donald Trump e Barack Obama se cumprimentam protocolarmente no primeiro encontro após as eleições”, escreveu na lenda o redator do jornal. Mas o cumprimento não foi apenas protocolar, imposto pela função pública que o presidente dos Estados Unidos ocupa e pela ambição do seu sucessor, já eleito.

É um dar as mãos entre um branco supremo, de tez vermelha como a cor do uísque nativo e cabelos oxigenados no tom do velo de ouro, e um negro esbelto, que envelheceu cinco anos a cada ano de exercício do cargo mais poderoso do planeta, negando o velho ditado brasileiro (hoje fulminado pela heterodoxia do direito, que impõe regras de proteção e azeda o humor): quando negro pinta, três vezes trinta.

Trump está de olhos fechados, concentrado e fazendo o máximo de força no aperto de mão, para impor a sua força, concentrada num corpo maciço e obeso. Obama fixa-o olhando de cima, com ar superior, mas nada tolerante; pelo contráiro, exasperado, com mal contida fúria.

A mão livre de Trump, usada sobre a poltrona, está relaxada. Sugere que ele exauriu suas forças na outra mão, a direita, cruzada sobre o corpo para chegar ao interlocutor, que já antecipa a troca do bastão do poder, tomado antes do empo e da regra civilizada. A mão livre de Obama está tensa e rígida, como ele se segurasse no assento para não ser puxado pelo sucessor indesejado e indesejável, mantendo o que lhe resta de poder.

Uma América que sai, uma América que entra. O que sai com uma e o que entra com a outra?

Talvez nunca o mundo tenha encarado com tantas dúvidas, ansiedades, medos e incertezas a subida ao trono do distante e imprevisto imperador do renascido Sacro Império do Ocidente.

PS – Viva à tecnologia atual. Talvez só ela tenha permitido ao fotógrafo registrar a cena antológica num instantâneo tão revelador. Deve ter acionado o disparador da sua máquina sem levantar o dedo, acionando o motor de repetição. Na era anterior, seriam muitos cliques. No intervalo de um deles, o flagrante teria sido perdido.

Discussão

5 comentários sobre “Uma e outra América

  1. “….Uma e outra América …”

    Alguma melhor ?? Alguma pior ??

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    Publicado por Sou daqui. | 11 de novembro de 2016, 18:33
    • Acho que a América dominante elegeu Trump.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 11 de novembro de 2016, 18:52
      • Se o “dominante” significar a maioria, dentro das regras eleitorais de lá, então eles continuam sendo uma Democracia na sua essência.

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        Publicado por Sou daqui. | 12 de novembro de 2016, 00:14
      • Não há dúvida: é uma democracia. Feiosa em função do velho método eleitoral para preservar um bipartidarismo caduco. Democracia também pode morrer por esclerose.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 12 de novembro de 2016, 07:18
      • Quem ganhou no voto nacional foi a Hilary. Tem que lembrar que há o colégio eleitoral por causa do histórico do país. Diferente foz Brasil, os estados tem realmente poder. Por isso são Estados Unidos. O colégio eleitoral é a forma que encontraram de criar um balanço entre os estados. Para mudar precisa de emenda constitucional ou que todos os estados decidam que ao invés do vencedor receber todos os votos do colégio eleitoral os votos sejam distribuídos aos partidos de forma proporcional ao voto popular recebido. A juventude quer voto nacional, mas os mais velhos preferem manter o sistema tradicional.

        Outra coisa importante…Houve um grande número de eleitores que não apareceram para votar, principalmente entre negros e latinos. Acho que assumiram que a eleição da Hilary estava certa ou preferiram se abster. Em contrapartida os brancos, religiosos, das cidades pequenas, e que nunca se recuperaram dos efeitos da crise econômica, pois não podem competir por empregos pela falta de qualificação, foram em massa votar no Trump. Lá tal como cá, iludir o povo com propostas mirabolantes que não podem ser cumpridas ainda é o caminho para a vitória política. É a democracia…

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        Publicado por José Silva | 12 de novembro de 2016, 10:33

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