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Imprensa

O grande repórter e os fascistas

Foi com tristeza, preocupação e indignação que acabei de ver as cenas de agressão ao jornalista Caco Barcellos, hoje, em frente à sede da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ele foi cercado, hostilizado e se tornou alvo de objetos atirados contra elespor servidores públicos que protestavam contra o pacote de ajuste fiscal proposto pelo governador Luiz Fernando Pezão, do PMDB.

Caco e sua equipe gravavam mais uma reportagem de um dos melhores programas da televisão brasileira, o Profissão Repórter, quando ele foi abordado por alguns integrantes do grupo que protestava no local. Garrafas, caixas e até um cone de sinalização foram atirados na direção do jornalista, que tentava se proteger colocando a mão sobre a cabeça. Caco só não sofreu danos maiores porque alguns policiais se incorporaram à equipe, que tentava protegê-lo.

A agressão foi a pretexto de combater a TV Globo, citada através do velho bordão: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”.

O Brasil vive numa democracia. Há meios legais, alguns deles úteis, outros eficazes, para combater a manipulação das informações pela Rede Globo, contestar sua diretriz editorial, fiscalizar suas atividades empresariais, controlar o uso das concessões públicas que detém.

Mas só os fascistas passam desse exercício democrático de crítica e reação para a supressão da liberdade de expressão e da integridade do outro, principalmente do oponente. Orgulho-me profundamente de ser colega de profissão de Caco Barcellos, a quem passei a acompanhar e, às vezes, contatar, desde que dávamos a nossa colaboração – eu ao Opinião, a partir de São Paulo. ele ao Repórter, no Rio de Janeiro – à imprensa alternativa no tempo da ditadura, nos anos 1970.

Caco me supera em muito como repórter de rua e apurador de informações em cima do acontecimento. Por isso, me serve de inspiração, como um mestre. Há muitos anos ele está na Globo, como estão outros jornalistas que admiro, um dos mais destacados sendo o decano José Hamilton Ribeiro.

Sim, está na Globo como profissional, não para vender a alma, entregar sua consciência. Profissionais de valor, como ele e Zé Hamilton, melhoraram em muito o indiscutível – ao menos do ponto de vista formal – padrão de qualidade da Globo. Mas descendo-o ao plano da realidade caótica, suja e hostil das ruas. Sem a bitola da norma diretriz.

O Profissão Repórter já foi premiado no exterior, o que significa que divergências ideológicas e políticas à parte, manobras de poder inclusas, a Globo é uma ilha da fantasia, mas também uma ilha de excelência num mar encapelado de mediocridade e vilania da TV brasileira. Ela é um item da democracia brasileira.

Para combatê-la pelos métodos fascistas de hoje de manhã, os que querem uma imprensa melhor acabam por deixar o Brasil com imprensa alguma. Passam a ser os donos da verdade no país, arrogantes e intolerantes, agressivos e malsãos. Sabemos a que conduz essa presunção de propriedade, a ação de partido único, o desejo do poder a qualquer custo.

Vendo as imagens da agressão, lamentei não estar ao lado de Caco para ajudá-lo a enfrentar os selvagens ou padecer com ele, me solidarizando com a sua figura franzina, definida por uma biografia pela qual seus cabelos brancos exigem respeito.

Discussão

15 comentários sobre “O grande repórter e os fascistas

  1. Lamentável.

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    Publicado por Edyr Augusto | 17 de novembro de 2016, 13:31
  2. Bando de insensatos! Acreditam que batendo panelas na porta da Alerj, resolverão os graves problemas do que tem sobrado deste país pilhado. Reivindicam seus direitos, mas desrespeitam o direito alheio. Agindo assim, acreditam que estão no legítimo exercício da cidadania?

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    Publicado por Marilene Pantoja | 17 de novembro de 2016, 14:16
  3. Não entendi seu ponto quanto ao Globo Repórter.

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    Publicado por Carlos Marques | 17 de novembro de 2016, 14:17
  4. Não existe democracia no socialismo.
    Quem eram os manifestantes? pelas bandeiras e cor da maioria das camisas…….
    Onde tem manifestantes da esquerda, tem baderna.

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    Publicado por EDSON | 17 de novembro de 2016, 18:48
  5. REAGIR À VIOLÊNCIA ESTATAL COM VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS TEM EFEITO BUMERANGUE – É indiscutível que os servidores públicos estaduais do Rio de Janeiro e familiares, e a sociedade fluminense como um todo, têm motivos de sobra para reagir contra a violência estatal que no momento os vitimiza de forma aguda, e mais intensamente poderá vitimizar. Mas convém a esses servidores não esquecerem que tal violência é um drama criado por desastrosos atos de ação e omissão praticados por dirigentes estatais nos governos do RJ e do país: no governo estadual, sob a responsabilidade de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, ambos do PMDB, basicamente quando eles promoveram gastança irresponsável por conta de futuros royalties do petróleo do pré-sal; no governo federal, por Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, ambos do PT, quando nomearam e mantiveram na Petrobrás diretores que, em conluio com empreiteiras de obras, fragilizaram a maior estatal brasileira por meio do saque que causou o escândalo do Petrolão, frustando expectativas que eles, os dois presidentes da República, haviam criado. Além disso, os servidores estaduais não devem esquecer um outro fato: agredir trabalhadores do jornalismo na tentativa de impedir a cobertura jornalística pela TV de maior audiência no País das reações que realizem, além de atentar contra o direito ao trabalho que tais trabalhadores têm, atinge a sociedade no direito de livre acesso à informação de interesse público, e mais, é ato de burrice. Afinal, a tendência é que a violência contra os trabalhadores de jornalismo interfira negativamente na ampliação da solidariedade da sociedade brasileira aos manifestantes, no mínimo, por dar motivo à imprensa em geral para focalizar no noticiário muito mais a violência do que o proposto por meio da manifestação.

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    Publicado por avelinovdovale | 18 de novembro de 2016, 04:32
  6. Correções: “…os VITIMA de forma aguda, e mais intensamente poderá VITIMAR”. || “…frustrando…”

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    Publicado por avelinovdovale | 18 de novembro de 2016, 05:23
  7. Primeiro: não são meus adversários políticos. Dois: são servidores públicos: tratar mal servidor público é crime; por que não a recíproca? Terceiro: o comportamento deles é fascista, por ser intolerante, agressivo e recorrer à violência física. Alguma dúvida?

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    Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 18 de novembro de 2016, 12:29

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  1. Pingback: Rotular nossos adversários políticos de fascistas é impreciso e arcaico | afalaire - 18 de novembro de 2016

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