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Política

A moral pública

Moralismo udenista se tornou uma frase cabalística para a esquerda brasileira. De fato, a UDN utilizou o moralismo como arma substitutiva do voto, que nunca teve em quantidade suficiente para chegar à presidência da república, cargo para o qual ninguém mais do que os udenistas estava preparado para ocupar. Eles se consideravam os melhores, os mais inteligentes, os verdadeiros varões da república de Plutarco. Mas o ditador (do Estado Novo)Getúlio Vargas derrotou seu herói, o brigadeiro Eduardo Gomes, na eleição de 1950.

Carlos Lacerda, o mais brilhante orador a ocupar uma tribuna no Brasil, declarou guerra de morte a Getúlio. Quando capangas a serviço do guarda-costa pessoal do presidente, o “anjo negro” Gregório Fortunato, executaram um mal sucedido atentado a Lacerda, a UDN aproveitou para cravar o punhal no coração do presidente – odiado pela cúpula da elite nacional e amado pelo povo.

As provas contra os subterrâneos do palácio do Catete eram suficientemente sólidas para levar Getúlio à famosa e triste confissão: ele estava sendo afogado por um mar de lama, embora continuasse pessoalmente honesto em matéria de dinheiro. Falcatruas de várias ordens realmente havia, mas não o bastante para abalar a república. Getúlio não cairia se aceitasse virar marionete. Reagiu e se suicidou, revertendo a direção da história.

À medida que o tempo decorreu, o eficiente moralismo da UDN foi ficando caricato até se tornar absolutamente farisaico. No entanto, havia tonalidades várias na UDN, do mais culto reacionarismo ao mais desafiador espírito de renovação, que se agrupou na ala chamada de Bossa Nova, mais à esquerda do que o PTB de Getúlio (mas que também acabou dando políticos como José Sarney).

A esquerda, perfilada com Getúlio Vargas, desconstruiu (como se diz na academia) a seriedade do moralismo udenista até transformá-lo num traste da história. A Operação Lava-Jato está fundando, nos nossos dias, um novo conceito de moralidade pública, capaz de descartar o oportunismo político do que interessa: a gestão dos recursos públicos, o principal deles entesourado no erário.

Tem sido difícil de superar o desafio de dar credibilidade a esse conceito, já tão antigo em outras democracias espalhadas pelo mundo, ainda tão precário no Brasil do século XXI. O passo mais decisivo está sendo dado neste momento na muy hermosa ciudad del Rio de Janeiro.

Ao acompanhar a prisão de dois ex-governadores, que chegaram ao poder no Rio como aliados (depois se desavindo), o carioca pode personificar os graves males da administração pública, que abalaram a cidade e o próprio Estado. O salário atrasado do funcionalismo, as dívidas não pagas a empreiteiros e fornecedores, o calote generalizado e as perspectivas funestas podem ser visualizadas concretamente nos gastos faraônicos do ex-governador Sérgio Cabral. Ele está mais para marajá da Índia do que para governador de um Estado de uma federação republicana, com seus gastos faraônicos e sua insensibilidade rude e grosseira de novo rico à base do saque ao caixa do tesouro estadual.

Ao ver as imagens da prisão do ex-governador minha memória foi direta à figura do pai, o boa praça Sérgio Cabral, jornalista, crítico de música, carnavalesco, típico representante da intelectualidade carioca e do povo de uma cidade festiva. Um oceano separa o pai do filho, mas uma ponte os une: a desdém pela moralidade udenista.

Insuperável quando no desempenho da sua função de crítica e oposição, a esquerda tem sido quase sempre um desastre no poder. No Brasil, o acesso aos mecanismos de decisão e aos instrumentos de distinção do comum dos mortais, a esquerda se confere o direito de tirar a diferença em relação a um passado de privação,

O acerto de contas com uma elite que se sucedeu, com poucas alternativas e opções, desde a fundação da nação eupeizada, no século 16, faz com que o esquerdista no poder considere a autocontenção e a coerência com a pregação do passado como algo próprio do falso moralismo dos udenistas, muito vivos ainda hoje apesar do desaparecimento da legenda partidária.

Homem honesto e pessoa decente, ainda assim Sérgio Cabral pai deve ter formado a consciência do filho com essa noção de que o Estado é um instrumento para a realização de objetivos de transformação, mas também pode funcionar como uma extensão – se não da casa grande, para não trair,e nesse caso, a simbologia montada – mas da extensão da senzala onde se instalaram aqueles que dizem combater a desigualdade estrutural que, até hoje, deixa os pobres na condição virtual de escravos.

Essa contradição evidente é mascarada e camuflada por um populismo retórico que a prisão de Sérgio Cabral desmascarou. Agora o povo pode descobrir claramente para onde foi o dinheiro desviado de um orçamento público destinado a atender a população, mas que serve aos nababos de sempre, neguem eles serem de direita ou se digam de esquerda. O Brasil foi desnudado. Tomara que vista uma roupa melhor do que a atual.

Discussão

5 comentários sobre “A moral pública

  1. Você reparou que todos os políticos que subiram na carreira prometendo combater a corrupção acabaram montando esquemas absolutamente corruptos para se manter no poder? Collor, Lula, Sérgio Cabral, etc. No Brasil temos provas fartas de que o poder, por menor que seja, corrompe. Qual a razão?

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    Publicado por José Silva | 18 de novembro de 2016, 19:47
    • O PT também esteve impregnado desse “moralismo udenista” antes de subir ao poder. O mesmo vale para o tucanato paraense, apoiados pelos Maioranas: cheios de moralismos no discurso, mas impregnados de imoralidades na prática.

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      Publicado por Jonathan | 18 de novembro de 2016, 22:51
    • E o poder absoluto corrompe absolutamente. O poder do presidente é forte, desde que compre os parlamentares, que só são fortes se conseguem nomear seus aliados (e parentes) para cargos públicos, que são a moeda de troca para os negócios escusos. Quanto mais a sociedade puder acompanhar essas transações, denunciá-las e desfazê-las, mais forte a democracia se tornará.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 19 de novembro de 2016, 11:03
      • “….Quanto mais a sociedade puder acompanhar essas transações, denunciá-las e desfazê-las, mais forte a democracia se tornará….”

        O grande drama nesse círculo vicioso, é que muitas vezes esse se confunde com a própria “sociedade”.

        Mas, como diriam nossos militantes: “a luta continua companheiro”.

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        Publicado por Sou daqui. | 19 de novembro de 2016, 12:02
  2. Parece “assustador” ver confirmado o que muitos artistas (cantores como Bezerra da Silva e Chico Buarque, por exemplo) já cantavam em prosa e verso: a cultura da corrupção tão bem aplicada pela corrupta elite, como ideia dominante. Daí o assombro: Em tal cultura, a ética praticada não está em conformidade com seu pricípio?

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 19 de novembro de 2016, 13:28

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