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Imprensa, Política

A história na chapa quente (2)

Os mitos do PT

A propósito da entrevista dada pela Coordenadoria de Comunicação Social da Prefeitura de Belém, na administração de Edmilson Rodrigues, então no PT, que reproduzi no primeiro capítulo desta série histórica, Edir Gaya enviou uma carta, que publiquei na edição seguinte do JP, a 236, de junho de 2000.

Por ser um complemento necessário da matéria anterior, e por permitir uma melhor análise do que foi a gestão do atual deputado federal do PSOL na gestão da capital, também a transcrevo. Ela toca em várias feridas que sempre estão a sangrar nos assuntos municipais e investe contra tabus que a desmemória do povo permitiu à propaganda transformar em verdades. A carta de Edir Gaya desfaz esses mitos, ajudando a separar o joio do trigo.

Leon e Gabriel são meus filhos mais novo e mais velho. O pseudônimo Leon Gabriel surgiu há quatro anos, quando eu trabalhava como assessor de imprensa do Sindicato dos Bancários, em matérias publicadas em alguns jornais da cidade. Isso não é segredo, nem estratagema de má-fé.

Pessoas que têm relações com minha família, algumas delas trabalhando na Comus, conhecem os meus filhos e, sobretudo, sabem da minha opinião a respeito do governo municipal. Não escrevo “costumeiramente” sobre o Governo do Povo. Em mais de três anos foram três cartas, publicadas no Liberal, onde trabalho há seis anos como editor de Atualidades.

A primeira delas, publicada no domingo posterior ao reajuste de ônibus e assinada como Edir Gaya, indagava sobre as razões do prefeito para conceder um aumento de tarifa que, somado aos demais, perfazia um total de 40% só no seu período de governo, algo que nenhum dos prefeitos que o antecederam se atreveu a fazer.

O cálculo é do Dieese e o argumento é do líder do governo na Câmara, vereador Arnaldo Jordy. No processo de discussão do reajuste, antes do prefeito sancioná-lo, Jordy chamou a atenção para o desgaste político que representaria o aumento, sobretudo porque, apesar do reajuste dos combustíveis, as empresas acumulavam ganhos com serviços não implantados de bilhetagem eletrônica, cartão magnético – temas de representação da Ctbel ao Ministério Público contra os empresários –, afora a renda antecipada com a venda de vales-transportes, etc, etc, etc…

Defendia-se então um reajuste menor, que não transferisse o ônus do transporte coletivo para o orçamento dos trabalhadores e desempregados. O prefeito ignorou as ponderações do seu líder de governo e o Dieese foi anatematizado, reabilitando-se somente após a pesquisa dando conta de que a Prefeitura cobra o IPTU mais barato do país. A CUT, a CBB e vários sindicatos também foram contra o tarifaço. O prefeito não teve sequer a educação de recebê-los.

A Comus, dirigida por uma profissional recém-convertida ao prefeito, não se dignou a responder às indagações da minha carta. Não vou aqui acusá-la de me boicotar. É um direito meu, como eleitor e fiador deste governo, cobrar publicamente explicações. O governo se reserva ao direito de sonegá-las? Tudo bem, não vou reclamar ao bispo. Digo o que penso e, na próxima eleição, dou o troco. A isso se chama democracia. E é por ela que eu tenho me batido desde a adolescência.

Aqui entra o Leon Gabriel. O título da carta escrita por mim duas semanas após a primeira é, na verdade, “Zelig – o Homem Camaleão”, referência ao protagonista de um filme de Woody Allen que, na minha opinião, expressa o temperamento ciclotímico deste governo pelas razões já relatadas neste jornal na abertura da matéria que deu origem à minha carta.

Assinei com pseudônimo não porque quisesse me esconder, mas para – tomando de empréstimo um termo do meu querido Paulo Bemerguy – vergastar o poder em busca de uma resposta não fornecida anteriormente por razões que só a direção da Comus pode explicar.

Ao Leon Gabriel finalmente a Comus respondeu, em carta publicada no Liberal, com essa baboseira sobre a soberania do Conselho Municipal de Transportes, uma entidade sobre a qual ninguém mais teve notícia após o reajuste.

A decisão do conselho foi tão estapafúrdia que a Federação dos Centros Comunitários e Associações de Moradores (Fecampa) destituiu o seu representante por ele ter votado a favor do reajuste de mais de 16%.

A Ctbel estava unida então aos sindicatos das Empresas de Transportes – do qual já reclamava R$ 16 milhões no Ministério Público, referentes a serviços incorporados na tarifa anterior, pagos pela população e não implantados pelos empresários – e dos Rodoviários – cujo presidente está sob suspeita de receber dinheiro dos empresários para organizar greves.

Como se não bastasse, a Ctbel espalhou pela cidade dezenas de outdoors avalizando a antiga tese de que Belém tem a menor tarifa de ônibus do planeta. Não me assusta que os empresários repitam esse argumento à exaustão – ignorando as demais mazelas sociais da cidade –; afinal, eles defendem o caviar de cada dia. Mas a Ctbel defende o que? E o Governo do

Povo?

Por fim, a última carta – esta também assinada como Edir Gaya e não respondida pela Comus – refere-se ao episódio envolvendo o secretário de Educação Luiz Araújo e a ex-mulher do prefeito, Joana D’Arc Gonçalves. O assunto parece revelar a convivência promíscua entre assuntos públicos e privados e envolve questões relacionadas a licitações públicas, acusações de agressão física, abuso de autoridade, etc, etc. Eu indagava então se Luiz Araújo continuava sendo compatível com o cargo de secretário de Educação depois do seu envolvimento no episódio, acusado de agressão.

Ninguém em sã consciência pode admitir que seguranças se atrevessem a retirar na marra a ex-mulher do prefeito da antessala de seu gabinete sem ordem superior.

Tudo fica ainda mais nebuloso na medida em que Sua Excelência não deu uma declaração oficial sequer para esclarecer o episódio. Por fim, não compreendo como essas indagações e opiniões podem se configurar em boicote ao governo municipal. Talvez a diligente dirigente da Comus possa explicar melhor.

Edir Gaya

Discussão

7 comentários sobre “A história na chapa quente (2)

  1. Memória por memória, mito por mito, melhor lembrar o Walter Bandeira que faria 75 anos em 2016.

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    Publicado por Sou daqui. | 25 de novembro de 2016, 20:16
  2. Avante!

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 26 de novembro de 2016, 00:22
  3. Edmilson já perdeu e provavelmente nem concorrerá mais a prefeitura no que resta de sua carreira política. Seu desejo de vê-lo longe da prefeitura está a salvo. Não se preocupe mais.

    Mas já que é assim, fico no aguardo de que você reproduza também aqui no Blog análises minuciosas sobre os oito anos de Duciomar e mais quatro de Zenaldo.

    Estou ansioso para ver textos sobre o rombo na saúde pública e os projetos mirabolantes do Dudu os quais nenhum foram concluídos – o dinheiro sabe se lá pra onde foi-; a piora significativa na mobilidade urbana, sem que o prefeito fizesse nada por ela; aumento da passagem também; a expulsão de feirantes a cacetadas na Presidente Vargas; e outras coisas.

    Quanto a gestão de Zenaldo: ansioso para ver textos sobre o incêndio no HPSM; a mesada gorda para certo jornal da capital; sua bi-cassassão por compra de votos; cerca de 300 milhões para fazer apenas 3 Km de caneleta de um BRT que anda sempre vazio, pois não serve para nada; mais pioras na mobilidade urbana – cidade não anda-; cacetadas em vendedores de livros; e, (olhe só!), aumento da passagem acima da inflação.Isso tudo entre outras coisas…

    Quero ver tudo isso na “chapa quente” também.

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    Publicado por Jonathan | 26 de novembro de 2016, 13:13
    • A reconstituição é cronológica. Logo, seguirá ano após ano a partir de 2000.
      Você se surpreenderá com a quantidade de textos que você cobra, como se eles faltassem na coleção do JP.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 26 de novembro de 2016, 13:22
      • Não estou afirmando que faltam na coleção, até mesmo porque só passei a acompanhar seus textos em 2014, aqui no Blog.Depois, passei a comprar algumas edições do Jornal Pessoal.

        Meu comentário foi em tom provocativo, mas provocação saudável. Acredite, eu gostaria também que Edmilson fosse menos presunçoso e admitisse seus erros. No entanto, sempre vou considerar sua administração melhor que as de Ducioamar e Zenaldo, embora não seja tão difícil ser melhor que esses dois. No aguardo do que está por vir. Abraços.

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        Publicado por Jonathan | 26 de novembro de 2016, 14:03
      • Aguarde que continuarei.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 26 de novembro de 2016, 15:08

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