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Cultura

Fidel por dentro

‘O dia em que acariciei a barba de Fidel e deixei de acreditar nele’

BBC Brasil
Admito profundamente as pessoas que conseguem tirar de um nada o tudo, ou quase tudo. Leon Tolstói foi um destes. Sua famosa frase, antes repetida pelos que o liam, está na boca dos que nem sabem quem a inventou – e, se sabem, não têm ideia do tamanho desse homem. Alguém capaz de escrever um épico em prosa, Guerra e Paz, no qual definiu um homem excepcional, Napoleão Bonaparte, e um povo único, o russo. E que num romance supostamente de amor, desamor e infidelidade, anotou um verdadeiro tratado de muita coisa com o “canta a tua aldeia e serás universal” (como já dissera: “As famílias felizes são felizes por igual. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”).

Digo isso inspirado pelo obituário de Fidel Castro escrito pelo escritor dissidente cubano Juan Almeida. Filho do comandante Juan Almeida Bosque, companheiro de Fidel e Raúl Castro em Serra Maestra, ele fugiu da ilha para viver em Miami. No momento em que as análises e interpretações se avolumam sobre o personagem histórico, ele deu seu valioso testemunho pessoal.

Ao final da leitura se confirma a certeza de que certos seres humanos são uma pessoa da porta de casa para a rua e outra na intimidade. Mas é a dimensão íntima que melhor os define. Ou que, na controvérsia das suas biografias, representa a prova dos nove na avaliação das suas várias facetas. Almeida mostra que Fidel Castro foi um grande ator na história contemporânea como ditador, depois de ter sido um autêntico revolucionário. O que sobra de tanta coisa contraditória que ele fez é a ditadura em Cuba e uma noção de socialismo e revolução espalhada pelo mundo como biombo para a tirania.

Publicado originalmente no portal da BBC, o teto foi reproduzido pela Folha de S. Paulo de hoje.

Sentimentos contraditórios. É isso que eu sinto ao escrever o obituário para quem, em um ensolarado 2 de dezembro em Havana, anunciou de sua tribuna na Praça da Revolução, o meu nascimento.

Fidel Castro pode se dividir em dois. O interno —ou seja, o que diz respeito unicamente a Cuba e aos cubanos— e o externo, o internacional. Mas eu prefiro falar dessa primeira versão, do meu Fidel pessoal.

Como todas as crianças, eu queria também ir ao parque para jogar beisebol com meu pai.

Mas isso nunca foi possível e cada vez que eu pedia, tinha de me contentar com a mesma resposta: “Você deveria estar orgulhoso porque Almeida [meu pai], ao lado do comandante em chefe, está ocupado cumprindo tarefas importantes para a pátria”.

Era óbvio, pelo menos para mim, que eu não fazia parte desse país em apuros e, pela lógica infantil, comecei a sentir uma espécie de admiração e rivalidade em relação a Fidel e ao que ele simbolizava.

No entanto, por mais que eu tente explorar minhas memórias de infância, não consigo me lembrar do momento em que ele entrou na minha vida.

Mas eu me lembro bem da minha decepção diante da primeira mentira que ouvi daquele homem, vestido de verde oliva, a quem os mais velhos chegaram a comparar com Deus.

PROMESSA

Foi no início de um verão e eu voltava da escola. Meu pai estava na rua, encostado em um jipe GAZ-69 verde, estacionado bem diante da garagem da minha casa.

Ele sorriu quando me viu, eu corri em sua direção e ele me beijou, permeando meu abraço com seu perfume característico.

Então notei que dentro do carro estava sentado Fidel, a causa de todos os meus problemas infantis.

Pedi que ele me deixasse acariciar sua barba, e ele não somente autorizou como também me prometeu, com um meio sorriso, que quando eu terminasse a lição de casa, poderia dar um passeio no seu carro.

Seria injusto não dizer que andar com Fidel era, na época, o maior presente para qualquer cubano, e era minha oportunidade de perdoar o meu rival.

Mas quando eu terminei, com velocidade ultra-sônica, minhas tarefas escolares, Fidel Castro tinha fugido e, embora meus pais tivessem tentado me explicar, naquele dia eu parei de acreditar que ele era aquele herói honesto, valente, decidido e que amava as crianças.

‘EU VOU SER BREVE’

Eu quase consigo entender a gama de sentimentos gerados pela morte deste homem que simbolizou o poder.

Muitos o amavam, talvez muitos mais o detestassem, porque Fidel Castro personificou a polêmica, a devoção, a divisão, a vaidade, a insolência, a desunião, o vício, o pecado, a crueldade, a crença, a bondade, a sabedoria, a bondade, a religião, o ateísmo, a loucura, a injustiça e a infâmia.

Foi um homem que em vida julgou sem tremer e hoje comparecerá perante o juízo da história, porque a morte nos faz iguais, incluindo até mesmo o mais diferente.

Eu não acho que a morte deste homem pode resolver e acabar de uma vez com os problemas que nos afligem como nação.

Se fosse assim, hoje também estaríamos levando à sagrada sepultura os muitos e muitos cubanos que perderam suas vidas no mar, a caminho para a liberdade.

Ele morre. A barba lendária de sua verdade e nos enganou com sua frase de sempre “eu vou ser breve”.

Longevidade. Esse absurdo foi o pior de seus erros, porque, como dizia minha avó: “Não há nada de épico, e quiçá de prudente, na morte natural”.

A BARBA LENDÁRIA

A partir de hoje, serão tiradas das trevas as atrocidades cometidas por esse castrador de sonhos, como aventura insólita de um Fidel que insistiu na dragagem do pântano de Zapata para cultivar arroz.

Também se passará a discutir com clareza os seus sucessos. Não nos esqueçamos de que Fidel trabalhou toda a sua vida esculpir sua imagem para colocá-lo na história.

E seremos testemunha de seus excessos, erros e segredos. Estamos parados bem na linha de chegada. Começa a era pós-Castro. E devemos curar as feridas, colocar fim na tristeza e em tudo aquilo que nos divide como país.

Com certeza, Fidel Castro foi um estadista que fez da divisão ideológica sua plataforma e sua fortaleza, mas eu só consigo me lembrar de seus dentes amarelados e sua lendária barba com um monte de pelos duros cheirando a tabaco.

Discussão

Um comentário sobre “Fidel por dentro

  1. E a História terá duas faces?

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 27 de novembro de 2016, 20:37

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