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Economia, Grandes Projetos, Minério, Política

A história na chapa quente (3)

O humor do governador

Este artigo do Jornal Pessoal 235 de maio de 2000 retrata um quadro permanente do contencioso entre a Vale e o governo do Pará. Um conflito que favorece muito mais os interessados em tirar vantagem pessoal do que ao Estado.

É extremamente instável o humor do governador Almir Gabriel em relação à Companhia Vale do Rio Doce. No início de abril, só faltou convidar os representantes da empresa para em coro uníssono entoarem o Tamba-tajá, de Waldemar Henrique, tão coincidentes considerou os pontos de vista de ambos sobre o desenvolvimento do Estado (ver Jornal Pessoal 232).

Abril ainda estava terminando quando o governador, mudando completamente o discurso, acusou a empresa de se comportar como “um parasita” no Estado. Assim, se desaparecesse, ninguém notaria: “Teríamos pouca redução de impostos, desemprego pequeno”, garantiu o governador.

Os duros ataques à CVRD foram feitos numa ocasião marcada para ser festiva: o lançamento do Programa de Desenvolvimento de Fornecedores Locais, no qual a empresa se junta ao governo e ao empresariado para aumentar suas compras no mercado local. O programa já existe no Espírito Santo, Minas e Maranhão. Chegou ao Pará, onde a empresa obtém um terço do seu faturamento, cinco anos depois de ter sido lançado.

Talvez fosse um momento de trégua, já que o programa – ao menos em tese – responde positivamente a uma das muitas críticas feitas à Vale, centralizadora em renda e poder. Ou, se não tanto, o confronto deveria ser menos duro do que o demarcado pelas palavras ríspidas do governador.

Sobretudo porque a atual administração estadual não tem sido coerente no relacionamento com a maior empresa do Pará, mesmo sendo ela tão pouco paraense.

Não definiu uma política clara, positiva. Intercala louvações exageradas com críticas que não são despropositadas, mas parecem pouco confortáveis nas bocas dos porta-vozes oficiais. Inexistindo essa política, as variações parecem seguir muito mais humores incongruentes e interesses não revelados do que uma doutrina definida para tratar enclaves como a CVRD.

À falta de uma interlocução doutrinária ou programática, os executivos da Vale podem ser levados a concluir que o relacionamento com o Estado se define num balcão de negócios – e nem à distância do distinto público.

É por isso que as palavras ácidas do governador foram atribuídas mais a uma dor de calo do que a uma reflexão do cérebro. Os procuradores da empresa estariam sendo duros no contencioso tributário-fiscal com o Estado.

De uma posição de ré, a Vale estaria conseguindo passar à de autora, obrigando o governo a diminuir significativamente suas previsões de arrecadação de impostos (pecado mortal em época eleitoral). Informado sobre essa mudança radical de expectativa, o governador decidiu dar o troco, jogando pesado, dizendo uma coisa para colher outra.

Nesse caso, estaria utilizando uma causa nobre, empunhada pelos que costumam criticar tanto o modelo de gestão da empresa quanto o de governador de Almir Gabriel, para forçar a Vale a ceder naquilo que poderia ser sua conquista numa demanda legítima (confrontar seu débito com seu crédito tributário, ao invés de submeter-se à cobrança unilateral do Estado, o que geraria uma relação viciada ou parcial, como tem sido quase sempre).

Ao invés dessas idas-e-vindas sem um nexo lógico, o governador devia definir uma agenda e estabelecer um rito público para a definição do contencioso com a Vale, expurgando negociações laterais e interpretações indevidas. Não para impressionar incautos e tentar atemorizar interlocutor de gabinete, mas para fazer valer os legítimos interesses do Pará diante de uma empresa que dá ao Estado um retorno desproporcionalmente inferior aos ganhos que nele consegue. Um diálogo produtivo e um confronto legítimo, capaz de estabelecer respeito mútuo, e, à falta dele, impor a causa pública a despeito de quem não a aceite.

Uma tal base impediria o governador de se desgastar, mesmo quando formula, sem exato conhecimento de causa, uma plataforma respeitável. Foi o que aconteceu quando, a pretexto de “verticalizar a produção, agregando renda”, um de seus bordões, atacou a empresa por não utilizar sua jazida de caulim para produzir cerâmica, como a que viu na sua visita à Europa, naquela excursão que até hoje é um mistério de sentido. Ninguém alertou  sua excelência que esse caulim da Vale não se presta a tal uso.

Ao invés de impressionar positivamente, o governador impressiona negativamente. Desse jeito, os homens da CVRD virão cada vez menos ao Pará. Eles só temem o que lhes impõe respeito, não com gritos e feições carregadas, que constitui seu “métier”, mas com informações certas e vontade bem armada de fatos. É o que tem faltado a um Estado comandado por capitães mal formados, ou deformados, apesar de sua reluzida retórica.

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (3)

  1. Pelo andar da carruagem, o sistema vem se aprimorando.

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 28 de novembro de 2016, 10:44
  2. Em uma reunião com o Presidente do Banco Mundial (o Wolfensohn), o Almir disse que se a colonização tivesse começado pela Amazônia, nós não estariamos conversando sobre a conservação da região. O Presidente do WB, um ambientalista que queria ajudar o Pará, saiu com má impressão do nosso ilustrissimo governador. O Almir nem precisava de inimigo.

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    Publicado por Jose Silva | 28 de novembro de 2016, 15:58
  3. Lúcio,

    Vc não esperou e pautou a lembrança. Mas vou de mesmo autor com outra obra.

    Abç.

    Em tempo: Vale também pela Lucinha e a saudosa Banda Sayonara

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    Publicado por Sou daqui. | 28 de novembro de 2016, 17:43

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