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Pobre Chapecoense:uma fatalidade?

Escrevo esta nota porque, como milhões de pessoas no nosso país e pelo mundo afora, fiquei chocado e consternado pelo acidente de avião que vitimou o time da Chapecoense. É para acrescentar uma gotinha de lágrima ao Amazonas derramado pelos que amanheceram sob o choque da notícia e de imediato se solidarizaram pelo sofrimento das famílias de todas as vítimas.

 

Um impacto menor, embora profundo, tive ao ver a imagem do avião acidentado. É o Avro RJ85, de fabricação inglesa. Voei num desses modelos, o que a nossa Taba (Transportes Aéreos da Bacia Amazônica) utilizava.

 

Fiz mais de um voo neles, mas o maior susto em um aparelho da Taba eu tive ao lado do geólogo Breno Augusto dos Santos, quando vínhamos de Carajás para Belém. Era num outro modelo, aquele que passou a se chamar de Hirondelle quando Osvaldo Mendes, dono da conta de publicidade de empresa paraense anterior, a PTA (Paraense Transportes Aéreos, de Antônio Ramos neto), o rebatizou.

 

O céu era de brigadeiro, o voo era tranquilo e conversávamos despreocupados. Subitamente, um movimento brusco. Bati na janela, mas consegui ver outro avião que passou ao lado, numa proximidade que nunca mais vi igual. Quando o comandante passou por nós, pouco depois, para ir ao banheiro, perguntei-lhe o tempo de distância entre os dois aviões: fração de segundo, respondeu ele. Gelei tanto que nem perguntei a que se deveu aquela iminência de colisão. O comandante estava tão distraído quanto nós?

 

Dois ou três dias depois, o mesmo comandante, no mesmo avião, tentou pousar no pequeno aeroporto de uma cidade amazonense da fronteira (acho que São Paulo de Olivença), apesar da proibição por causa do mau tempo.O avião bateu na torre de comunicação e caiu na pista. Todos morreram, Soube-se depois: o comandante, um cidadão português, queria chegar a tempo a Manaus para pagar uma conta qualquer antes do fim do expediente bancário. Daí a urgência de voltar.

 

Em 1971 eu ia de Quito para Guayaquil num avião da Viansa. Era um velho conhecido, um Avro desativado da ponte aérea Rio-São Paulo depois de anos de serviço, que cheguei a frequentar semanalmente. Um dos motores foi acionado. Antes que o outro funcionasse, um mecânico veio correndo, em desespero, da estação de passageiros gritando e agitando os braços.

 

O piloto o viu e estancou o motor. O mecânico subiu numa escada, abriu o motor que não chegara a ser ligado e dele tirou uma chave, não tenho certeza se uma grande chave de fenda. Depois desceu e deu o sinal de OK para o piloto, voltando ao ponto de origem quase no mesmo ritmo. Não desci porque não tinha mais jeito. Mais chegamos bem à capital econômica do Equador.

 

Noutra vez, fui de Bogotá para a cidade do Panamá, num velhíssimo Boeing 707 do Lóide Aéreo Boliviano, em que voei tantas vezes pela Varig entre o Rio de Janeiro e Belém, o avião daí seguindo para o Porto (ou Lisboa), em Portugal. O chefe de cabine, nos avisos protocolares de decolagem, advertiu, como se cantasse uma guarânia paraguaia: “senhores passageiros, por gentileza, não levem o assento da poltrona; o assento é flutuante e deve ser usado em caso de acidente em água. Por favor, não levem o assento”.

 

Soube – pela primeira e última vez – que algum passageiro roubava assento de poltrona de avião.

 

Conto essas histórias, de um vasto repertório, para transmitir ao meu distinto leitor em tudo que pensei e nas aventuras que revivi ao saber (passageiro de tantos acidentes aéreos) que os dirigentes da Chapecoense não puderam fretar no Brasil um avião que levaria o time para a gloriosa partida de final da Sul-Americana em Medellin, na Colômbia (país que amo e admiro), porque a Anac (nossa agência de avião civil nacional) proibiu, por falta de previsão no código aéreo nacional e nas convenções internacionais.

 

Por isso, a viagem em território brasileiro foi em voo comercial, seguindo a partir daí em afretamento, feito com a Lamia Bolívia, empresa em dificuldades, com um único avião, o que foi usado no longo percurso entre Santa Cruz de la Sierra, na própria Bolívia, e Medellín, de quase três mil quilômetros, a exigir apoio em terra e boa preparação logística.

Os voos anteriores fretados pela Chapecoense foram normais. Desta vez, não chegou ao fim, num desfecho ainda misterioso, a exigir a apuração devida para que não pareça, mais do que uma fatalidade, um novo erro humano fatal.

Discussão

9 comentários sobre “Pobre Chapecoense:uma fatalidade?

  1. Isso deve ser apurado, muito triste essa história. As narrativas dos quase-acidentes de avião para mim são assustadoras, só demonstram como deve haver rigor na manutenção técnica das aeronaves e nos códigos de conduta da tripulação e equipe técnica, incluindo aí não apenas a atividade dentro dos vôos mas também a garantia de horas de descanso e boa alimentação.
    Ademais, li uma matéria horrível no Catraca Livre, site do Gilberto Dimenstein, em que mostravam fotos dos passageiros minutos antes do acidente, rindo e tirando selfies. Os leitores reclamaram, acharam oportunista, e eles argumentaram que isso era um modo “informar” sobre como as pessoas se sentiam antes de acidentes aéreos, uma abominação.
    Abs,

    Paloma

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    Publicado por Paloma Franca Amorim | 29 de novembro de 2016, 10:47
    • É um momento em que um jornalista deve se colocar na pele do objeto (objeto mesmo) da sua atenção. Precisa sentir a face humana dos fatos.
      Já escapei de vários acidentes e situações ruins em voo, em mais uma delas junto com o Breno, num monomotor Cessna 320, em cima do Tocantins, que nos obrigou a fazer um pouso de emergência em Porto de Moz porque o motor vibrava demais. Noutra, com o Sérgio Palmquist, em outro 320, sobrevoamos o Tocantins quase esquiando sobre as águas, por uma hora, precisando desviar das embarcações com mastro alto, por falta de teto. E situação parecida em Portland. E por aí vai.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 29 de novembro de 2016, 11:12
      • O pior de tudo foi o Netshoes, site de vendas que dobrou o preço das camisas da Chapecoense após a tragédia.

        Curtido por 1 pessoa

        Publicado por Jonathan | 29 de novembro de 2016, 11:22
      • Freud achava o homem originalmente mau. Marx, bom (as estruturas é que o deformam). Darwin deu origem ao darwinismo social, tão injusto para ele como o marxismo para Marx, o freudismo para Freud, o trotskismo para Trótski. O homem é um animal diferente, único no que lhe é superior, o pior naquilo que o degenera.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 29 de novembro de 2016, 12:47
      • Numa imensa região de um país continental, com vastas distâncias a percorrer, são muitas as histórias da aviação.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 29 de novembro de 2016, 16:18
  2. Essas histórias me fizeram rememorar outra, que passei junto com o estimado amigo Padre Bruno Secchi. Acredito que no mesmo “Hirondelle” da TABA. Aterrissagem no aeroporto de Santarém ou Altamira para escala até Itaituba. Trem de pouso toca no solo e, de imediato,a aeronave começa a ir de um lado e a outro da pista, até o tempo (infinito) de parada. Pe. Bruno, de irretocável frieza, fica amarelo. Eu então… Em solo, o comandante conversa com a Central, no balcão, à nossa frente. Ordem: Seguir viagem. Ele se recusa. Passamos o resto do dia na cidade até o dia seguinte, quando então seguimos com o trem de pouso reparado.

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    Publicado por Augusto César Cavalcante | 29 de novembro de 2016, 12:58
  3. Eu não entendo como um clube disputando um título continental resolve usar uma empresa de um país sem tradição em aviação civil e que possui somente um avião?

    Viajar de avião é sempre uma aventura. Corri muito risco com a Rico (risco), meta, tam, varig, gol, Suriname airways, lion air, e outros taxi aéreos menores…antes de viajar sempre comia um sorvete carimbó (castanha, bacuri e cupuaçu juntos) para caso eu morresse pelo menos eu morreria feliz. É o meu ritual até hoje.

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    Publicado por José Silva | 29 de novembro de 2016, 18:45
    • Na verdade, essa mesma empresa já havia prestado serviços ao clube em outras viagens. Até então tinha corrido tudo bem. Inclusive, o piloto pertencia à força aérea…

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      Publicado por Jonathan | 29 de novembro de 2016, 19:02
      • Era o dono da empresa. Pode ter operado uma regra da probabilidade. Vamos ver no que resulta a investigação. Pode dar numa fatalidade ou num escândalo que pôs fim à vida de seres humanos e a um surpreendente clube de futebol, deixando órfãos e viúvas.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 29 de novembro de 2016, 19:06

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