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Cultura, Política

A história na chapa quente (5)

O presidente e o sociólogo,

o médico e o monstro

(Artigo publicado na edição 237, de junho de 2000, do Jornal Pessoal)

O ser humano não é unidimensional (só coagido pode caber numa sociedade unidimensional, como mostrou Herbert Marcuse). Sua complexidade chega aos extremos do mistério. Certos enigmas humanos não conseguimos decifrar mesmo se nele aplicamos todo o nosso engenho e arte ao longo de toda uma vida consciente.

Há pessoas contraditórias, paradoxais, multifacetadas, polimorfas. Suas partes não formam um puzzle, no qual as peças acabam por se encaixar se temos paciência e competência para montá-las, a despeito de sua aparente desconexão.

Incapazes de aceitar essa dimensão humana, demasiadamente humana, muitos de nós acham preferível reduzir o que veem ao que querem ver, enquadrando fenômenos excepcionalmente ricos na camisa-de-força de uma explicação esquemática ou doutrinária. Mas é um ardil que se aplica ou uma armadilha na qual se cai.

Diante do governo de Fernando Henrique Cardoso tem sido uma tentação negar o intelectual ou tomá-lo apenas pelo político. Teria sido uma felicidade para todos nós se o poderoso acadêmico se tivesse mantido íntegro e, ao mesmo tempo, plenamente aplicado no político, deste se distanciando para avaliá-lo e, quando necessário, corrigi-lo (ou vice-versa: as insustentáveis abstrações do intelectual desfeitas como bolhas de sabão mental pelo político enraizado na realidade). Se tal houvesse ocorrido, FHC teria comandado uma profunda reforma social no Brasil e correspondido, no limite do máximo humano o mais imediatamente próximo à revolução, às possibilidades que seu tempo lhe proporcionou.

Todos os que aplicamos nossas capacidades analíticas a acompanhar o desempenho do nosso presidente sentimos que o saldo de sua atuação está muito aquém de sua própria capacidade e abaixo do aceitável numa correlação de forças entre os que querem mudar o país e os que se empenham em manter o status quo que os beneficia.

Um elemento de subjetividade que os intérpretes supostamente objetivos não estão dispostos a reconhecer é a extrema vaidade do presidente. Ela o leva a fazer declarações de autêntico besteirol e a cometer deslavadas sandices, capazes de enrubescer até o vereador mais provinciano. Ou então a ser manipulado por inteligências inferiores, sagazes o bastante, entretanto, para perceber que o patrão não tem defesas contra uma imagem idealizada que é projetada sobre uma de suas mais constantes fontes de consulta: o espelho.

Determinados erros ou desastres da administração FHC desafiam a capacidade de aceitação dos que o conheceram nos ambientes acadêmicos ou mesmo dos que com ele tiveram contato através dos seus livros. Fernando Henrique foi (e ainda deve ser) um grande intelectual, um pensador a respeitar, em condições de ser um interlocutor aceito por qualquer outro, de qualquer dos muitos ramos da árvore do conhecimento.

Ouvi-lo era bem mais agradável (apesar da boca mole) na sala de aula do que lê-lo. Ele não escreve bem, estilisticamente falando. Mas não é pior escritor do que Florestan Fernandes (igualmente um professor maravilhoso). Ambos podem ser incluídos entre os 10 maiores sociólogos brasileiros.

A introdução metodológica a Escravidão e Capitalismo no Brasil Meridional (de 1962) é uma das melhores abordagens da dialética que conheço, particularmente do conceito de totalidade. Usei-a para medir o conhecimento dos meus alunos do curso de comunicação social da UFPA em dois sentidos: do marxismo em geral e da contribuição que a reflexão de Marx proporcionou ao pensamento humano, desvendando as máscaras e mistificações ideológicas, e a capacidade dos estudantes de raciocinar em abstrato, conceitualmente.

O texto é bem pequeno (24 páginas na 1ª edição), mas sua densidade exige de quem o lê mais do que achologia, a base de argumentação (sic) de muita gente intramuros universitários. É preciso ter aprendido a pensar, o que não depende apenas de vontade ou intuição, mas de conhecimento acumulado, algo sofrido e demorado demais para os que querem “abafar” nas aulas ou nas assembleias, com chutes que fariam inveja a Pelé, se o alvo fosse uma bola e não o saber.

Comete-se um erro elementar quando, para atingir o sofrível presidente FHC, se ataca tão primariamente o intelectual Fernando Henrique Cardoso. Pode-se discordar de suas ideias, e até não é difícil criticá-las em suas lacunas ou deficiências, atingindo pontos fracos do pensador. Mas não é plausível negar a exuberante cabeça que as concebeu, uma cabeça privilegiada (e, em certo sentido, mal aproveitada).

Nos meus tempos de estudante de sociologia, andei abrindo o peito  (e a guarda) nas estocadas contra a enviesada teoria da dependência de Fernando Henrique & Enzo Falletto, mas sabia que estava travando uma luta de esgrima. Um golpe bem sucedido lá, outro recebido aqui, e íamos avançando. E aprendendo, que é o que interessa num verdadeiro duelo intelectual.

Por tudo isso, não posso concordar com a posição reducionista do professor José Carneiro diante do nosso presidente-e-sociólogo, posição majoritária naquela esquerda que anatematizou o adversário político, mas não pode ser partilhada por aqueles que realmente leram (e leram intensamente) textos de Fernando Henrique antes de ele se tornar presidente da república. Estes, só têm a lamentar que a capacidade do intelectual tenha sido amortecida ou seduzida pelo exercício do poder para uma militância esquizofrênica, que aprofundou a cisão da personalidade do homem.

Não é que ele haja negado o intelectual anterior, mas ficou muito abaixo do que poderia realizar se tivesse ousado, com inteligência e consequência, ir além dos limites que as elites dominantes lhe apresentaram e ele, de forma cúmplice, compassivamente incorporando-se a elas, aceitou.

No limite entre a reforma para valer e a conciliação, Fernando Henrique, como quase todas as lideranças antes dele, optou pela segunda alternativa, o que reduziu o tamanho dos seus méritos, sem chegar, entretanto, a anulá-los.

Digo tudo isso a propósito de uma carta que Carneiro enviou a Elias Pinto, por ele publicada no último domingo, em sua página no Diário do Pará, ao mesmo tempo em que também reproduzia correspondência do professor José de Souza Martins, que motivara a manifestação de Carneiro. Consultado em São Paulo, Martins reagiu de imediato, negando veracidade a uma observação que Carneiro lhe atribuíra.

Numa conversa que tiveram durante uma visita de Martins à sede da Sudam, em meados da década de 70 (em 1979, se não me engano), o professor teria observado que FHC era “useiro e vezeiro em apor seu nome em publicações das quais ele jamais participara do trabalho”. Seria o caso de Amazônia, a expansão do capitalismo, livro do qual ele aparece como coautor, mas o único a escrever teria sido Geraldo Müller.

Na sua carta, Martins retifica a reconstituição que Carneiro fez do episódio. Na verdade, ele diz ter lamentado que a necessidade de sobrevivência, as condições desfavoráveis de trabalho ou mesmo as demandas encomendadas obriguem um autor a assumir trabalhos parciais, incompletos, imaturos ou desequilibrados em relação ao conjunto de sua produção, como foi o caso do livro sobre a Amazônia, uma exceção de qualidade inferior na bibliografia superior de Fernando Henrique.

Ele é “um teórico competente e respeitado internacionalmente”, que não pode ser depreciado injustamente para que seu crítico atinja o político. Martins esperava que Carneiro, principalmente por também ser sociólogo, conseguisse separar “a pessoa de seus papéis sociais e de suas personificações”.

O Amazônia não é apenas um livro menor na obra de Fernando Henrique. Também se desqualifica numa bibliografia mais seletivamente formada sobre a região. Ainda assim, muito professor e muito autor, inclusive de Belém, o recomenda para seus alunos ou o utiliza em suas interpretações, agindo por mimetismo de colonizado.

As deficiências do trabalho são evidentes. Müller, um sociólogo gaúcho do Cebrap (um centro de pesquisa fundado por FHC e seu grupo quando excluídos da Universidade de São Paulo), conhecia pouco a Amazônia. Fernando Henrique tinha passado um dia na região, visitando a fazenda que seu amigo, o futuro senador (e antes ministro da indústria e do comércio do marechal Castelo Branco) Severo Gomes, possuía no sul do Pará.

Sem fontes primárias de consulta ou suficiente material empírico, os dois recorreram aos jornais da época, sobretudo O Estado de S. Paulo, que foi a melhor referência sobre a Amazônia na imprensa brasileira entre as décadas de 70 e 80. Minhas reportagens foram as mais usadas, citadas ou não, o que provocou uma dedicatória irônica do jornalista José Casado (hoje, editor da revista Época [agora em O Globo, acrescento]), quando me mandou um exemplar do livro, mal saído do forno da editora Brasiliense, em São Paulo (em 1977 e não 1978, como pensam Carneiro e Martins) para comprovar o que chegou a classificar de apropriação indébita.

Não era de admirar que Fernando Henrique e Müller chegassem a formulações equivocadas sobre a Amazônia. É de lamentar que o presidente esteja ainda agora a puxar as roldanas do desenvolvimento da região movido pelas mesmas teses de seu sofrível livro, um reduto do pensamento metropolitano (ou sub-metropolitano) paulista que tem sido fatal para as pretensões de autonomia (relativa, mas decisiva) regional.

Contra essa política imperial de conquista tem se posicionado o sociólogo José de Souza Martins, um dos nossos mais importantes aliados no mundo acadêmico, cuja quadratura ele tem rompido tantas vezes para se aproximar do vasto e abandonado sertão, sem perder de vista as regras de civilidade e respeito que se aperfeiçoam com a urbanização e a urbanidade, sem as quais os profissionais das ideias jamais se manteriam íntegros – e, quando necessário, diferenciados – diante das investidas de Behemoths, Leviathans e Torquemadas.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (5)

  1. Seguimos na nostalgia.

    Curtir

    Publicado por Sou daqui. | 30 de novembro de 2016, 17:32
  2. A politicagem (“mão invisível” da corrupção) é o componente que empana toda real discussão POLÍTICA….

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 2 de dezembro de 2016, 10:44

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