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Violência

Tragédia latino-americana

Há uma hipótese América do Sul por trás do acidente de aviação que matou 71 pessoas, liquidando com quase todo time da Chapecoense. À parte a dimensão humanada da tragédia, que tanto impacto causou e continua a causar, essa hipótese civilizatória, digamos assim, precisa ser testada. Dependendo do resultado, poderá modificar muita coisa no continente. No futebol, em primeiro lugar. Muito mais além posteriormente.

Menos de 24 horas depois de serem coautores de um grande jogo de futebol, coadjuvantes da conquista do campeonato nacional pelo Palmeiras, em São Paulo, os jogadores da Chapecoense tiveram que iniciar uma longa viagem com destino à Colômbia, onde podiam começar o momento mais importante do clube.

Seus dirigentes queriam levar a equipe em voo fretado de São Paulo até Medellin, na Colômbia, onde seria realizada a partida. A Anac, a agência nacional de aviação civil, não deixou. Em nota que emitiu logo depois do acidente, a Anac confirmou que negou o pedido com base no Código Brasileiro de Aeronáutica e na Convenção de Chicago, que trata dos acordos de serviços aéreos entre os países.

“O acordo com a Bolívia, no caso, não prevê operações tais como a solicitada. O solicitante foi avisado, na negativa, que a operação só poderia ser realizada por empresa brasileira ou colombiana, nos termos dos acordos internacionais em vigor”, explicou a agência.

Por causa desse impasse, o avião da LaMiaseguiu sem passageiros para Santa Cruz, enquanto a comitiva da Chapecoense embarcava em São Paulo, às quatro da tarde, em um voo regular, mas já atrasado, da BoA, uma empresa boliviana regular. Em Santa Cruz houve o traslado para o aparelho, cuja tripulação iria ser submetida a uma sobrecarga de trabalho evidente. Maior ainda do que a dos jogadores, que já estavam desgastados por causa da desorganização da viagem.

A LaMia é (ou era) uma empresa venezuelana que operava na Bolívia, de propriedade do seu próprio piloto, Miguel Quiroga. Esse tipo de avião é pequeno para o padrão dos aviões modernos, mas tem quatro turbinas. O aparelho, que deixou de ser fabricado em 2001, tinha 17 anos e 8 meses de uso.

Ele era usado em voos regionais, mas o Avro RJ-85 com o time catarinense faria um percurso de voo internacional (de 2.975 quilômetros), equivalente à sua autonomia, de três mil quilômetros, sem pouso técnico para reabastecimento num lugar qualquer entre a origem e o destino.

Já era uma temeridade, um erro gravíssimo, mesmo que os tanques estivessem com combustível suficiente para ainda permitir ao jato voar por mais 30 ou 45 minutos ao final de quatro horas em voo direto. Ele caiu bem antes de completar a cota marginal de autonomia para as eventualidades.

Não há mais dúvida que ele parou por pane seca, absoluta falta de combustível, que provocou o colapso do sistema elétrico e a paralisação das turbinas. Os aviões modernos não planam. Sem o empuxe das turbinas, se precipitam no espaço.

O derradeiro jato com desenho feito para planar foi o lindo Caravelle. No último dos que operava no Brasil eu estava quando ocorreu um acidente no sistema de pressurização, entre Manaus e Boa Vista, em Roraima, e novamente – muito mais grave – outro acidente na volta, em 1974. O pouso acidentado na capital amazonense destruiu e aposentou compulsoriamente o avião, que a sua proprietária, a Cruzeiro do Sul (depois absorvida pela Varig), teimava em manter no ar.

Para saber a razão da falta de combustível será preciso consultar o plano de voo que o piloto apresentou em Santa Cruz para ter sua partida liberada, confrontando-o com uma série de dados posteriores para saber se realmente havia combustível na quantidade exigida ou o piloto mentiu ao preparar o plano e as autoridades não checaram os dados, ou então foram coniventes com a fraude.

Qual era o estado de ânimo do piloto, que era também o dono da empresa, que, por sua vez, só tinha aquele avião, quando não pôde pousar imediatamente no aeroporto de Medellin porque a torre deu prioridade a um Boeing da Aviança em dificuldades, segundo seu comandante, por vazamento de combustível?

O piloto sabia que seu combustível era escasso e que tinha cometido uma temeridade ao seguir direto, sem uma escala para reabastecimento. Como arriscara em todos esses momentos, confiante na sorte e nos voos normais que fizera anteriormente, tanto com a Chapecoense como com a seleção argentina (a transportara para o jogo com o Brasil, em Belo Horizonte), deve ter apostado na sua estrela.

Por que omitiu a real situação do seu avião? Por que não pediu também prioridade máxima? Por que se sujeitou ao grave risco de sobrevoar a área de Medellin à espera da autorização, demorada, mas contornável em uma situação dentro dos padrões da aviação?

Ao contrário, Quiroga informou à torre que não tinha problema algum e disse que voaria em círculo para esperar a sua vez. Só algum tempo depois ele avisou que estava com pouco combustível. Foi então que declarou emergência por pane elétrica.Os técnicos do aeroporto garantiram que o ainda tentaram contornar a situação, passando o avião à frente na fila de preferência, mas já era tarde.

A resposta para o procedimento do piloto pode ser: porque ele estava fugindo da punição. Cometera tantos erros graves que certamente seria proibido de voltar a trabalhar na aviação. Perderia sua carteira, o que significaria a falência da sua empresa e o fim da sua carreira aos 36 anos. Preferiu acreditar na sorte, que se transformou de parceira e madrasta de uma forma terrível, fazendo morrer com ele mais 70 pessoas.

Ainda caberia uma especulação mais cabeluda, embora absurda: foi simplesmente técnica a decisão da torre de controle do aeroporto de dar prioridade ao pouco do Boeing da Avianca, por ser uma empresa do país, colombiana?

Talvez essa hipótese seja pulverizada pela simples reconstituição do diálogo com o piloto do avião boliviano, que, ao invés de comunicar logo suas dificuldades, preferiu dar duas voltas no ar, a uma altitude de 21 mil pés (seis mil metros) e velocidade média de 460 quilômetros,  antes de começar a reduzir velocidade, altitude e cair, a apenas 30 quilômetros da pista do aeroporto.

Esta é “apenas” uma hipótese, que a longa investigação apenas iniciada confirmará ou desmentirá (tomara que seja a segunda alternativa) dos arranjos, da história fraudada, da falta de padrão civilizado, da crença no “jeitinho”, nas arapucas e toda uma marginalia que não aparece no gramado dos campos de futebol, nem mesmo à luz do sol da vida.

Discussão

13 comentários sobre “Tragédia latino-americana

  1. Uma hipótese relevante, Lúcio.

    Caberá à Aeronáutica Colombiana, confirmar ou denegar.

    O Centro de Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, por exemplo, em seu Relatório Final sobre o acidente que vitimou o candidato à presidência da república, Eduardo Campos, condensou elementos, como cansaço e despreparo da tripulação, que, levado a cabo nas instâncias jurídicas, foram elementos que condenou o partido do candidato (PSB), que esta recorrendo da decisão da justiça, que determinou o pagamento de indenização no valor de R$ 2 milhões de reais à família do comandante da aeronave.

    As autoridades colombianas convidaram os especialistas brasileiros para auxiliarem nas investigações.

    A proporção da tragédia com a delegação da Chapecoense, indica mesmo erro humano do comandante do “Avro” e abre precedentes para implementação de projetos que minimizem as perdas humanas no momento da queda, citando projetos de engenheiros russos, em converter a fuselagem da aeronave no momento da confirmação irreversível da queda do aparelho, em uma “cápsula ejetável” com paraquedas para amortecimento da queda.

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    Publicado por Thirson Rodrigues de Medina | 1 de dezembro de 2016, 12:44
  2. E isso que eu não entendo. Como trocar um voo fretado de uma empresa colombiana ou brasileira, tal como recomendou a ANAC, por uma um voo em uma empresa venezuelana que tem somente um único avião com capacidade de voo limitada? Há algo que não foi totalmente revelado nessa história.

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    Publicado por José Silva | 1 de dezembro de 2016, 12:47
    • Não seria a falta de dinheiro? Chapecoense é administrada por um grupo de empresários de Santa Catarina,mas nem de longe dispõem da mesma receita de times tradicionais como Flamengo, Corinthians, Palmeiras e etc. Talvez por isso utilizasse uma empresa mais barata. Ela já tinha utilizado essa mesma empresa em jogos anteriores Aí que está: onde entra a CBF e a Conmebol nisso tudo? Ao menos em uma final deveriam ajudar nos custos das passagens. Será que ajudaram ou não? Provavelmente não.

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      Publicado por Jonathan | 1 de dezembro de 2016, 14:16
  3. Certamente não foi por falta de dinheiro – ainda que o fator economia tenha pesado na escolha. Lembremos que a seleção argentina, para o jogo contra o Brasil em BH, utilizou a Lamia. É mais uma questão de horários, de corrida contra o tempo, num calendário sobrecarregado.

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    Publicado por Elias Ribeiro Pinto | 1 de dezembro de 2016, 16:47
  4. Ao que tudo indica, o piloto (e dono da empresa) não quis arcar com os custos e taxas aeroportuárias de um preventivo reabastecimento em Bogotá. Confiou na estrela, como dizes. A estrela era de vidro e se quebrou, estilhaçando junto dezenas de vidas. E aí também entra o custo das repúblicas bananeiras. Lamentavelmente.

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    Publicado por Elias Ribeiro Pinto | 1 de dezembro de 2016, 17:08

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