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A história na chapa quente (7)

O assalto misterioso:

fracasso ou exemplo?

(Artigo do Jornal Pessoal 237, de junho de 2000 talvez ajude a responder a alguns mistérios correntes em Belém até hoje. Como: de onde vem e onde se esconde o dinheiro que sustenta gastos suntuários de determinadas categorias de personagens da cidade?)

O delegado geral da polícia civil do Pará, João Moraes, prometeu que em 72 horas esclareceria o assalto praticado no dia 8 contra o Atalanta, um dos prédios residenciais mais luxuosos de Belém. Em menos da metade desse prazo, cinco dos 15 criminosos que participaram do audacioso golpe já estavam presos e recuperada uma parte do butim (46 mil reais, 1.600 dólares e joias em valor não especificado). Passada uma semana, porém, nenhum resultado concreto foi aduzido ao troféu inicial da polícia e a imprensa parece ter esquecido um fato tão explorado nas 48 horas seguintes.

Manter aceso o noticiário não seria mero sensacionalismo, muito pelo contrário. O assalto ao Atalanta, executado com um grau de profissionalismo até então nunca registrado na crônica policial local, mostra que grupos de fora do Estado já têm disposição para investir em atos criminosos mais ousados. Sendo bem sucedidos, estimularão um fluxo migratório de marginais de calibre superior ao dos que frequentam os prontuários das delegacias paraenses. Isto significa um agravamento considerável de uma criminalidade que,  mesmo praticada apenas pelos nativos, já é assustadora.

Tão surpreendente quanto a entrada e a desenvolta atuação do bando no prédio de 20 andares da Doca de Souza Franco, durante três horas, foi a eficiência inicial da polícia. Quando o delegado geral estabeleceu o limite de 72 horas para a obtenção de resultados, pouca gente acreditou. O ceticismo tem suas fortes raízes no desempenho sofrível dos órgãos de segurança no trato com marginais que extrapolem o âmbito dos “pés-de-chinelo”.

Mas quando os cinco primeiros assaltantes foram apresentados, depois de terem sido presos a algumas dezenas de metros apenas do local do crime, a expectativa se inverteu: contra todos os prognósticos estabelecidos naquele momento, a polícia estancou nos feitos praticados nas 30 horas iniciais.

Diga-se que as dificuldades não se devem apenas a insuficiências congênitas no organismo policial. Poucos dos abastados moradores assaltados foram à delegacia formalizar sua queixa. Por isso, ficou inviável quantificar o assalto, embora tenham circulado tantas histórias sobre o vulto da pilhagem. Quando o produto do roubo foi reunido, joias e dinheiro, sem donos identificados, tiveram que ser anexados aos autos e seguirão para a justiça se não forem reivindicados – com fundamento, é claro.

Uma quadrilha tão eficiente no assalto teria sido tão negligente no dia seguinte? É o que parece. Sem tantas e tão fáceis pistas, é pouco provável que a polícia tivesse podido exibir trunfos tão imediatos. Mas se a parcela minoritária do bando deu-se mal, perdendo o produto do saque e indo para a cadeia, os principais componentes conseguiram fugir. Os chefes, ao que parece, saíram de Belém de avião, sem ser incomodados – quem sabe, porque os bois de piranha desempenharam sua missão, ou porque foram traídos?

Esse esquema de fuga sugere que saíram com a parte do leão, bem-sucedidos. Se isso realmente aconteceu, então o episódio do edifício Atalanta pode ter um maléfico efeito demonstrativo, contribuindo para sofisticar ainda mais a delinquencia, em prejuízo dos que estão do lado mais fraco da relação: as vítimas. Se os poderosos estão tão expostos, o que podem esperar os que não têm poder algum?

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (7)

  1. Seu artigo é bem esclarecedor. Tudo indica que o sistema é bem mais antigo do que eu pensava. Há alguma esperança de que Belem será um dia uma cidade civilizada?

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    Publicado por José Silva | 2 de dezembro de 2016, 08:21
  2. A propósito: muito a propósito neste período de belos contos de Natal, caro Lúcio.

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 2 de dezembro de 2016, 11:10
  3. Foi nesse assalto do Edifício Atalanta em 08jun2000 que o então Prefeito de Belém foi flagrado pelas câmeras do Bom Dia Pará e que afirmou, ao vivo, que morava lá no Atalanta?

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    Publicado por RAIMUNDO MENEZES | 17 de dezembro de 2016, 09:58

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