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Política

A história na chapa quente (8)

Mestres do golpe

(Artigo publicado na edição 239 do JP de julho de 2000. Para contar os bastidores das articulações políticas, era preciso ir a fontes situadas nos bastidores do poder: ouvir, ouvir, andar e andar.)

Por que a coligação PMDB-PFL não foi renovada para a disputa pela prefeitura de Belém neste ano? Essa é a principal questão que permaneceu sem resposta após a definição das candidaturas à PMB, na semana passada. O senador Jader Barbalho e o ex-prefeito Hélio Gueiros negociaram até o último momento antes das convenções partidárias, conversando diretamente, sem repassar do que tratavam aos correligionários.

Parecia que sairiam com uma chapa única. Gueiros até escreveu, no exato dia 30 [de junho], o derradeiro para as convenções, que preferia ter a deputada Elcione Barbalho, do PMDB, para prefeita e sua ex-secretária, Maria de Nazaré Marques (neófita em política), do PFL, para vice. Mas enquanto na escrita o ex-governador previa essa chapa, nos corredores do seu partido já era dada como certa sua mulher, a também ex-multissecretária Terezinha Gueiros.

Nos arraiais peemdebistas, a única certeza era a de que, pela enésima vez, o candidato do partido sairia da cartola de Jader e seria aceito por todos, após os tugidos e mugidos regulamentares da cantilena pessedista (do extinto PSD, o partido que está na origem de muitos peemedebistas no Pará).

Mas raros, mesmo entre os que normalmente são bem informados, estavam preparados para a surpresa do anúncio da escolha do igualmente já ex-prefeito Augusto Resende, sem tradição e sem muita acomodação entre os correligionários, os quais combatia com veemência até a eleição de 1990 (quando Barbalho derrotou o candidato de Resende para o governo, Sahid Xerfan, agora disputando um lugar na Câmara Municipal por pressão dos seus contraparentes no grupo Liberal, que querem ter sua bancada de vereadores).

Se não houve um grave imprevisto impedindo a consumação dos planos que Jader e Hélio arquitetaram sozinhos (e não há qualquer evidência de tal fato), a conclusão óbvia é de que eles estavam atrás de um poste para lançar como candidato (usando uma imagem já corriqueira entre os marqueteiros políticos), à falta de outra alternativa.

Bem que tentaram outro caminho. Hélio Gueiros conversou duas vezes com o governador Almir Gabriel na Granja do Icuí, a outrora residência oficial de verão, hoje domicílio permanente, inclusive por possibilitar encontros reservados, mais bem protegidos da indiscrição pública do que qualquer outro local.

A premissa do encontro, da parte de Gueiros, era ser o candidato de uma ampla coalizão, sustentada pela máquina estadual, para enfrentar o PT com boas possibilidades de vitória. Do lado do governador, a expectativa era induzir seu ex-aliado a participar da eleição, tirando votos de Edmilson Rodrigues e batendo de frente com ele, para tentar viabilizar a progressão do tucano Zenaldo Coutinho para o 2º turno, já que o próprio Gueiros, com o maior índice de rejeição, não iria adiante, conforme indicavam as simulações feitas a partir dos resultados das pesquisas.

Percebendo a intenção (“o governador pensa que eu desaprendi a fazer política”, confidenciou a um amigo), Gueiros condicionou sua entrada na arena a dinheiro para financiar a campanha, com o que o governador não concordou. Ele então passou a apostar numa ficha que seu ex-inimigo-agora-aliado-de-novo-sabe-lá-Deus-até-quando Jader Barbalho mantinha escondida: deixar que o prefeito do PT derrote fragorosamente o candidato do governador, humilhando-o e enfraquecendo-o para a grande eleição de 2002, quando os dois (certamente Jader, pouco provavelmente Hélio, já então com 75 anos) poderão estar de volta ao palanque.

Vendo que não decolou a candidatura de seu primo, José Priante, apesar da milionária promoção do nome dele numa autêntica pré-campanha eleitoral, e que sua ex-mulher, Elcione, não se convenceu de voltar a disputar a prefeitura da capital paraense, depois da derrota de 1996, o objetivo do presidente nacional do PMDB era resguardar seu nome e incentivar o desgaste dos possíveis concorrentes dentro de dois anos, ao senado ou ao governo. Comandando com mão de ferro o seu partido, Jader pôde impor um nome que, para o efeito de repercutir sobre o seu nome, é melhor do que um poste.

Um irmão de Augusto, o empresário Berna Resende, era o principal responsável pelas finanças da campanha de Almir Gabriel à prefeitura de Belém, em 1992. Um ano depois de abandonar misteriosamente a candidatura, forçado a se explicar, o então senador só conseguiu fazer referências a procedimentos condenáveis que estariam sendo feitos sobre empresários, três dos quais, amigos do atual governador, denunciaram-lhe esse suspeito recolhimento de dinheiro. Mas até hoje a história não foi satisfatoriamente reconstituída, como costuma acontecer em relação aos famosos fundos eleitorais (graças a eles, Fernando Collor de Mello vive até hoje como um nababo).

Na eleição de 1990, Augusto Resende teve força não só por ser prefeito de Belém, sucedendo a Xerfan, do qual era vice, mas porque o grupo Liberal lhe deu decidido apoio. As coisas começaram a mudar em 1991, quando o Banco Interamericano de Desenvolvimento condicionou a aprovação da macrodrenagem das baixadas de Belém à participação da prefeitura.

O então governador Jader Barbalho não só teve que engolir Resende, como o digeriu tão competentemente que acabou tornando-o um correligionário do PMDB e agora, por força de suas conveniências pessoais, candidato à PMB, já ao seu lado.

Mas em termos: Resende tem seu próprio campo gravitacional, com virtudes e mazelas suficientes para atrair elogios e ataques sem que eles se grudem à pele já bastante magnetizada de Jader. Quem sabe ele não consegue atrair para esse eixo os que estiveram ao lado de Resende e agora estão do outro lado? (Esse vai-e-volta é coisa de barata tonta, mas estonteada pela atração do poder.) Talvez. O certo é que essa candidatura também é mais favorável do que fator de complicação para a reeleição de Edmilson Rodrigues.

A do PFL também seria se os vereadores do partido, alarmados com o presente (de grego) que o presidente do partido lhes estava preparando, não pedissem socorro ao deputado Vic Pires Franco, a menos de quatro horas do início da convenção. Naquele momento, Vic era carta fora do baralho. Renunciara à candidatura quatro dias antes, provavelmente sentindo-se como cego em tiroteio.

O líder do seu partido mandava-o falar com Jader Barbalho. O senador do PMDB não devolvia seus telefonemas. Hélio pedia que continuasse a insistir. Ele insistia, inutilmente. Pela imprensa, ou através de amigos, ficava sabendo não só que Hélio e Jader estavam conversando, mas do que estavam decidindo.

Tudo, sem incluí-lo nessa pauta a dois, embora as pesquisas o colocassem em segundo lugar e, na simulação, previssem que, sem ele, seria possível a Edmilson vencer já no 1º turno.

A visita dos vereadores, antecedida pela publicação da coluna de Gueiros com a manifestação da sua preferência pela chapa Elcione-Nazaré, influiu sobre o ânimo de Vic, fazendo-o decidir enfrentar pela primeira vez o ex-prefeito. Hélio ainda tentou se incluir como vice, mas foi atropelado pela apresentação de uma chapa completa, Vic-Nazaré.

Ir contra ela deixaria o presidente regional do PFL em posição desconfortável demais diante da direção nacional do partido e de quem tinha mandato a defender. Mas já então não restava mais ao PFL, como ao PMDB, nenhum outro caminho para uma coligação significativa. Teriam que se valer dos seus próprios meios, reduzidos na capital.

Esse quadro reforça a tendência favorável à reeleição de Edmilson, talvez já no 1º turno. Para reverter a situação, o governador Almir Gabriel vai precisar colocar a máquina estadual na rua (como já está fazendo) para tentar empurrar Zenaldo Coutinho do rabo da fila, bem distante da zona real de disputa, que alberga apenas Vic e Duciomar Costa, além do atual prefeito.

Para fazer isso, com a nova lei da responsabilidade fiscal em vigor e a máquina municipal do outro lado, envolve mais riscos do que na ginkana que conseguiu transformar Luiz Otávio Campos, de puro azarão, em senador do governador (hoje em evidente época de muda, fingindo-se de morto à espera de que a foice da cassação passe ao largo).

Se o deputado federal Vic Pires Franco não contar com um caixa capaz de sustentar uma boa campanha de televisão e a propaganda nas ruas, se o deputado estadual Duciomar tiver suas fraquezas (até agora deixadas de lado) escancaradas no auge dos debates eleitorais e se Zenaldo não experimentar um crescimento exponencial, em relação ao qual até seus aliados duvidam, o caminho estará aberto para Edmilson ter mais um mandato. Se depender dele mesmo, porém, dificilmente o cumprirá até o fim, mesmo tendo feito tal promessa aos seus companheiros de aliança e seja essa uma expectativa dos que já marcaram 2002 em suas agendas.

Com um vice da sua confiança, o alcaide poderá deixar o cargo para concorrer ao governo do Estado, criando a primeira oportunidade de poder no Estado para o PT (ou para sua ala no PT). Nesse caso, ainda mais porque abalado por uma derrota aniquiladora, é possível que Almir Gabriel desista de concorrer ao senado, permanecendo no cargo até o fim para tentar fazer o seu sucessor. Se isso acontecer, abrirá elementos para uma negociação entre os outros grupos políticos que se lançarão ao butim, com o mesmo apetite de sempre e o mesmo descaso pela coerência e a memória, mas com uma filosofia de bolso à mão: escrúpulo não rima com poder.

Discussão

Um comentário sobre “A história na chapa quente (8)

  1. Mudam os atores, mas o enredo é o mesmo: acertos escusos para enganar o povo. .

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 5 de dezembro de 2016, 11:30

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