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Política

À porta dos quartéis

Durante a democracia de 1946 (que durou até 1964), os quarteis eram cortejados por políticos da UDN, a ala conservadora da União Democrática Nacional. Sem votos para conquistar a presidência da república, que continuava em poder do seu maior inimigo, o Getúlio Vargas que depuseram em 1945, esses políticos apelavam para a força dos militares, incitando-os a pôr fim à democracia populista e corrupta.

Era tal a constância desses golpistas civis ao redor das praças de armas que passaram a ser conhecidos como “vivandeiras alvoroçadas”, as mulheres que acompanhavam tropas em marcha, fornecendo-lhes (ou lhes vendendo) alimentos. No caso, simbolicamente, o alimento de poder através de um golpe, após o qual chamariam os puros e predestinados, os udenistas, é claro.

A comparação foi feita por um udenista armado, o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente do regime militar depois da deposição de João Goulart. A provocação dessas vivandeiras gerou “extravagâncias do poder militar”, que levaram ao golpe de 64. Ele devia ser temporário, na receita da UDN, que esperava receber de mão beijada o poder, depois de dele apeados seus adversários populistas, mas acabou durando 21 anos, a mais demorada das ditaduras militares do país.

Não há mais vivandeiras. No entanto, sua função persiste, só que agora desempenhada por “tresloucados” ou “malucos” civis que continuam a bater à sua porta cobrando intervenção no caos político.

“Esses tresloucados, esses malucos vêm procurar a gente aqui e perguntam: ‘Até quando as Forças Armadas vão deixar o país afundando? Cadê a responsabilidade das Forças Armadas?'” E o que ele responde? “Eu respondo com o artigo 142 da Constituição. Está tudo ali. Ponto”, afirma o ministro do Exército, general Eduardo Villas Bôas. Para ele, é “chance zero” que setores das forças armadas, principalmente da ativa, mas também da reserva, se encantarem com a volta dos militares ao poder.

Pelo artigo 142, “as Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.”

“Nós aprendemos a lição. Estamos escaldados”, garante o comandante do Exército, em entrevista publicada hoje por O Estado de S. Paulo.

Ele relata ao jornal que se reuniu com o presidente Michel Temer e com o ministro da Defesa, Raul Jungmann, e avisou que a tropa vive dentro da tranquilidade e que a reserva, sempre mais arisca, mais audaciosa, “até o momento está bem, sob controle”. Apesar da crise política, econômica e ética, “os militares da ativa estão mudos e os da reserva têm sido discretos, cautelosos”, observa o Estadão.

“Eu avisei (ao presidente e ao ministro) que é preciso cuidado, porque essas coisas são como uma panela de pressão. Às vezes, basta um tresloucado desses tomar uma atitude insana para desencadear uma reação em cadeia”, relembrou o general. Na panela, há temas mais prosaicos do que a crise, mas com igual potencial de esquentar a panela, como os soldos e a previdência dos militares.

Na sua opinião, Temer “talvez por ser professor de Direito Constitucional, demonstra um respeito às instituições de Estado que os governos anteriores não tinham. A ex-presidente Dilma (Rousseff), por exemplo, tinha apreço pelo trabalho das pessoas da instituição, mas é diferente”.

Na sua primeira manifestação pública sobre a crise política do país, o ministro admitiu que teme “a instabilidade”. E explicou: “Quando falo de instabilidade, estou pensando no efeito na segurança pública, que é o que, pela Constituição, pode nos envolver diretamente”.

Aliás, já envolve, porque “o índice de criminalidade é absurdo” e vários Estados estão em situação econômica gravíssima, como Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Minas Gerais. Uma das consequências diretas é a violência.

“Ao falar sobre a tensão entre o Judiciário e o Legislativo, depois que o ministro Marco Aurélio Mello afastou o senador Renan Calheiros da presidência do Senado por uma liminar e Renan não acatou a ordem judicial, o comandante do Exército admitiu: ‘Me preocupam as crises entre Poderes, claro, mas eles flutuam, vão se ajustando’.

O general disse que se surpreendeu ao ver, pela televisão, que um grupo de pessoas invadiu o plenário da Câmara pedindo a volta dos militares. “Eu olhei bem as gravações, mas não conheço nenhuma daquelas pessoas”, disse, contando que telefonou para o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) para se informar melhor e ouviu dele: “Eu não tenho nada a ver com isso”.

Finaliza o jornal paulista a sua reportagem: “No que me diz respeito, o Bolsonaro tem um perfil parlamentar identificado com a defesa das Forças Armadas”, diz o general, tomando cuidado com as palavras e tentando demonstrar uma certa distância diplomática do deputado.

É viável uma candidatura dele a presidente da República em 2018, como muitos imaginam? A resposta do general não é direta, mas diz muito: ‘Bolsonaro, a exemplo do (Donald) Trump, fala e se comporta contra essa exacerbação sem sentido do tal politicamente correto’”.

Discussão

10 comentários sobre “À porta dos quartéis

  1. Seria a oficialização de um Estado baseado na ordem militar, pois extra-oficialmente essa realidade já é plena nas periferias, favelas e zonas rurais brasileiras. Hoje pela manhã a Folha noticiou o assassinato de dois jovens na Cidade de Deus, um deles tinha 18 anos e era filho de uma MC/cantora de 36 anos de idade, a Tati Quebra Barraco. Mais uma mãe perdeu seu filho para a justiça da incivilidade aprendida nos quartéis e nas prisões; não é possível que nesse país não haja pena de morte e haja tantas condenações à pena de morte nas ruas, promovidas pelo braço militar do Estado.

    Um Bolsonaro no poder é a afirmação de toda a mentalidade animalesca, medievalesca, que rege esse país sob os véus da democracia. Racismo, homofobia, intolerância religiosa, desigualdade econômica e social etc. Tudo isso encoberto por instituições corruptas e uma representatividade do povo brasileiro absolutamente falha nos parlamentos. É o apito da panela de pressão.

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    Publicado por Paloma Franca Amorim | 11 de dezembro de 2016, 19:03
  2. Bolsonaro não tem a mínima chance de nada. Se tiver sorte, conseguirá dez por cento dos votos em uma eleição presidencial. Creio que a população não quer militar no governo e os militares não fazem a mínima questão de ser governo.

    Agora uma coisa é certa. Se não houver uma ação coordenada de todos para aniquilar rapidamente os cartéis de drogas ilícitas que tomam conta do Brasil, a violência continuará a crescer até nos transformamos em uma nova Colômbia. Os cartéis de drogas já tomaram conta de vários países da América Central e do México e já possuem bases fortes na Bolívia, Guyana e Suriname. No Brasil, eles já estão em todos os lugares e estão tomando conta de prefeituras e câmaras de vereadores. O Brasil é um mercado muito atrativo para eles, com muita gente jovem. Se a isso somarmos um governo fraco e corrupto, temos uma combinação explosiva para a expansão do narcotráfico. A situação é muito seria mesmo.

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    Publicado por José Silva | 11 de dezembro de 2016, 23:05
    • Eu gostaria de saber o que você pensa sobre como se daria esse combate ao narcotráfico. Minha questão em relação a um presidente militar, ou que associa o discurso político a um discurso religioso conservador (como Marina Silva, por exemplo, que apareceu hoje na Folha vencendo na intenção de votos para 2018) é a legitimação oficial da violência do Estado já vigente contra as populações minorizadas. As UPP’s que assassinaram o jovem Yuri Lourenço são uma tentativa de guerra contra o tráfico, mas a realidade é que sua inserção nos morros cariocas se tornou uma guerra contra a comunidade.
      Paloma

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      Publicado por Paloma Franca Amorim | 12 de dezembro de 2016, 08:55
      • Paloma,

        As estratégias de combate ao narcotráfico devem ser diversas. Há várias experiências boas ao redor do mundo e que podem ser adaptadas às inúmeras situações locais existentes no Brasil. Independente da situação local, um certo nível de inteligência e comando e controle é exigido pois a situação está muito ruim mesmo. É preciso olhar os números, mas seria interessante comparar o impacto da violência atualmente legitimada, pois nada é feito para contê-la, dos narcotraficantes contra as populações minorizadas vs o impacto da violência policial, para qual há mecanismos legais de punição existentes, contra essas mesmas populações.

        Curtido por 1 pessoa

        Publicado por José Silva | 12 de dezembro de 2016, 09:29
    • Olha, eu não subestimaria tanto o Bolsonaro assim. Claro que, ao contrário de Trump, ele não dispõem de um forte poderio econômico para deslanchar sua campanha a não ser que, por ser do PSC, conseguisse apoio de pastores milionários. Ainda assim, fica longe dos recursos que Trump teve.

      Entretanto, a situação do país é grave. Há um descrédito geral na política que se soma ao fato de termos vários póliticos graúdos suspeitos de corrupção, independente de partido. Esse cenário é propício para ploliferação de figuras como Bolsonaro: um demagogo com discursos alucinados contra a corrupção e de salvação do país. Tem forte apelo entre jovens e adolescentes que votam.

      Eu não diria que ele é um candidato forte, mas não se pode subestimar uma figura perigosa e nefasta como ele. Lembrem-se que Hitler também pertencia a um partido pequeno e exercia verdadeira fascinação em seus seguidores.

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      Publicado por Jonathan | 12 de dezembro de 2016, 14:10
  3. Lúcio,

    Perguntinha básica….

    Quem (grupos, pessoas, ideias, pregações e principalmente ações e exemplos) esteve a frente, pelos últimos 13 fatídicos anos, das decisões e políticas que nos trouxeram a este estado lamentável de coisas ??

    E olha que foram anos de relativa abundância econômica, portanto não valendo a desculpa da falta de recursos.

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    Publicado por Sou daqui. | 12 de dezembro de 2016, 08:03
  4. Como o blog já entrou no “áudio-visual”, segue um bem esclarecedor…..

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    Publicado por Sou daqui. | 12 de dezembro de 2016, 08:16
  5. Viva as redes sociais que estão demonstrando que as coisas não caem do céu nem brotam das profundezas do inferno.

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 12 de dezembro de 2016, 10:01

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