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Política

Fora a corrupção

Perguntaram a Millôr Fenandes se é difícil ser honesto. “É facílimo”, respondeu ele. “Não tem concorrência”. Logo, só não é honesto quem não quer.

Acredito que o primeiro impulso é de honestidade. Mas se a pessoa tentada a ser desonesto pensa no valor do ato desonesto, na possibilidade de se tornar ou não do conhecimento público ou se simplesmente olha para o lado, pensa ou respira fundo – aí já deu o primeiro passo para a desonestidade. Logo se tornará corrupto, venal, ladrão – já sem limites.

No domínio do poder e nas suas cercanias, mais do que uma circunstância, a corrupção parece ser fatalidade. Ainda assim, qualquer pessoa teve a oportunidade de se manter honesto antes de aceitar a corrupção. Mesmo que com voz sumida, a sua consciência a deve ter alertado. Ninguém é corrupto por acaso ou inocentemente.

Logo, tem que ser punido, se a sociedade não é majoritariamente corrupta. That’s the question, diria Shakespeare pela boca de Hamlet, um brasileiro de hoje falando em inglês vitoriano. Esta é mesmo a questão para a sociedade brasileira nestes seus dias atormentados e difíceis. Ou retoma padrões mínimos de ética e moralidade (sem falar em princípio civilizatório, que nunca fez parte do nosso projeto de nação), ou o futuro será uma caixinha de surpresas – más surpresas.

Quando, em março de 2009, o então deputado federal e ex-ministro Geddel Vieira Lima recebeu de presente da empreiteira Odebrecht, pelos seus 50 anos de idade, um relógio Patek-Philippe, modelo Calatrava, avaliado em 25 mil dólares (quase 85 mil reais), ele pensou no que podia ter feito de útil ao país ou, pelo menos, aos seus eleitores, que o lhe deram acesso a um mecanismo de poder, para merecer mimo tão caro?

O presente de aniversário do petista Jaques Wagner, em março de 2012, foi um relógio Hublot, modelo Oscar Niemeyer, no valor de 2 mil dólares. Novo relógio da mesma Odebrecht em outra comemoração, um Corum, modelo Admirals Cup, duas vezes mais caro, de US$ 4 mil.

Estas são apenas algumas das pérolas do depoimento em delação premiada do diretor da Odebrecht, Cláudio Melo Filho, reveladas hoje pela UOL. Ele é apenas um dos 77 executivos e funcionários da empreiteira que se comprometeram a revelar tudo que sabem sobre as propinas. Melo Filho na condição de personagem central. Vários dos presentes suntuosos foram entregues por ele, além de dinheiro, aos políticos subornados pela Odebrecht.

Todos merecem punição exemplar, quando – e se – comprovadas suas culpas no devido processo legal.

Castigo exemplar porque o cidadão comum, que lhes paga altos salários e lhes concede formidáveis condições de trabalho, sem dispor de tais benefícios pelo seu próprio trabalho, muitíssimo pelo contrário, ou é ou não é honesto. Não existe, como todos estão cansados de saber, o meio honesto, ou o quase honesto. A punição deve ser a mesma tanto para quem recebeu o relógio de dois mil dólares quanto para o que embolsou milhões de reais. Para castiga-los merecidamente pelo que fizeram como para obriga-los a restituir o sofrido e suado dinheiro do povo.

Só a partir das consequências concretas e efetivas de tantas histórias escabrosas de corrupção o país poderá iniciar uma vida saudável em busca do bem comum.

Discussão

4 comentários sobre “Fora a corrupção

  1. Gozado que o Geddel é apenas (parece que ele não tem partido) Geddel , mais o Jaques (tem que ser descristo como petista).

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    Publicado por meu voto e 45. | 11 de dezembro de 2016, 11:16
    • O Geddel está em tal evidência como ministro do Temer e do mesmo partido que até esqueci. Mas não tem relevância. Logo em seguida, na mesma matéria, falo do empenho do Jorge Viana em atribuir culpa ao PMDB, mas fazendo o jogo do peemedebista Renan Calheiros, que também é citado negativamente na matéria. Em outras, antes, foi dado o partido do Geddel. Logo, o contexto – desta das outras matérias – não autoriza a insinuação do anônimo (por que não assumir a identidade) de que eu podia estar defendendo ou protegendo o PMDB.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 11 de dezembro de 2016, 12:06
      • Tanto faz. A gang toda era de uma coligação só fazendo negociatas em escala nacional: PT-PMDB. A Marina estava certa desde o início quando descreveu os dois partidos como irmãos siameses.

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        Publicado por José Silva | 11 de dezembro de 2016, 22:44
  2. A máxima que diz que o “homem é produto do meio” é a cola a soldar os elementos formando a sociedade norteada pela cultura da corrupção? O coletivo se sobrepondo ao individuo?…

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 12 de dezembro de 2016, 09:44

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