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Política

Todos inocentes

“Se você quiser uma mentira, vá a uma entrevista coletiva. Se quiser uma verdade, roube-a”, aconselhou o escritor e cartunista Jules Feiffer. Era uma reação às mentiras do homem mais poderoso do planeta. Nessa época, o início da década de 1970, o presidente dos Estados Unidos da América, Richard Nixon, negava que tivesse qualquer coisa a ver com as escutas clandestinas, a invasão da sede do Partido Democrata, seu adversário, e outras violações de direitos que induzira ou patrocinara. Desmascarado, teve que renunciar para não ser afastado do cargo por impeachment, que seria o primeiro da história americana.

A frase de Feiffer se aplica aos personagens que aparecem como corruptos na primeira delação de executivos da Odebrecht a ser divulgada, pela Folha de S. Paulo (graças a vazamento de informação, que o Ministério Público Federal já anunciou que irá apurar), a do diretor Claudio Melo Filho. Todos os citados se declaram inocentes. Cada vez mais audacioso do que foi o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, o presidente do Senado, Renan Calheiros, desafia: suas contas já são investigadas há quase uma década, sem produzir uma prova contra ele.

Como, então, o senador alagoano responde a 12 inquéritos no Supremo Tribunal Federal, num deles já como réu, depois do recebimento da denúncia da Procuradoria Geral da República? Mera conspiração? O santo entre anjos do diabo?

Já o senador petista Jorge Viana, o mais verborrágico, reagiu reivindicando o título de Catão e transferindo toda culpa ao PMDB, embora tenha acabado de se juntar ao partido em defesa de Renan. Os Vianas são, na sua nota, a encarnação do bem no Acre, tudo devendo apenas ao seu honesto trabalho.

Reproduzo as notas dos acusados a partir da sua publicação pelo blog Poder360, suprimindo o acessório :

Michel Temer
“Repudia com veemência as falsas acusações do senhor Claudio Melo Filho. As doações feitas pela Construtora Odebrecht ao PMDB foram todas por transferência bancária e declaradas ao TSE. Não houve caixa 2, nem entrega em dinheiro a pedido do presidente.”

Eliseu Padilha
“Não fui candidato em 2014! Nunca tratei de arrecadação para deputados ou para quem quer que seja. A acusação é uma mentira! Tenho certeza que no final isto restará comprovado.”

Moreira Franco
“É mentira. Reitero que jamais falei de política ou de recursos para o PMDB com o senhor Claudio Melo Filho.”

Renan Calheiros
O senador jamais credenciou, autorizou ou consentiu que terceiros falassem em seu nome em qualquer circunstância. Reitera ainda que a chance de se encontrar irregularidades em suas contas pessoais ou eleitorais é zero. O senador ressalta ainda que suas contas já são investigadas há 9 anos. Em quase uma década, não se produziu uma prova contra o senador.

Rodrigo Maia
“Afirmo que todas as doações que recebi nas minhas campanhas foram legais e estão devidamente declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral. Não participei de negociação com a Odebrecht ou com qualquer outra empresa para a aprovação de medida provisória ou de outra proposta legislativa. As declarações são absurdas e irresponsáveis. Nos meus cincos mandatos na Câmara dos Deputados, nunca recebi nenhuma vantagem indevida para votar qualquer matéria. Votei por orientação da bancada do meu partido ou pela minha própria consciência.”

Romero Jucá
Desconhece a delação, mas nega que recebesse recursos para o PMDB. O senador também esclarece que todos os recursos da empresa ao partido foram legais e que ele, na condição de líder do governo, sempre tratou com várias empresas, mas em relação à articulação de projetos que tramitavam no Senado. O senador reitera que está à disposição da justiça para prestar quaisquer esclarecimentos. 

Eunício Oliveira
O senador nunca autorizou o uso de seu nome por terceiros e jamais recebeu aprovação de projetos ou apresentação de emendas legislativas. A contribuição da Odebrecht, como as demais, fora recebida e contabilizada de acordo com a lei. E as contas, aprovadas pela Justiça eleitoral. 

Jorge Viana
“No dia que o país toma conhecimento do verdadeiro esquema de corrupção que assola Brasília, capaz de varrer o PMDB da vida política e derrubar o governo Temer, líder do golpe parlamentar que tirou a presidenta Dilma Rousseff do poder, tomo conhecimento de reportagem da Folha de S. Paulo tentando envolver o meu nome e o do governador Tião Viana em supostas doações ilegais de campanha.
Tais informações são absurdas e mentirosas. Em 2014, nem fui candidato a nada e Tião Viana foi reeleito em função do bom trabalho que estava – e está – fazendo no governo. Nossas campanhas foram limpas e não fizeram uso de dinheiro ilegal.
Minha eleição para o Senado em 2010 se deu em função do trabalho que fiz no Acre, como prefeito e governador. É lamentável que hoje, quando o Brasil acorda com a revelação do grande esquema de corrupção no governo Temer, tenta-se atingir a atuação política do PT no Estado.
Jamais recebi dinheiro em espécie para minha campanha eleitoral. Em 2010, minha campanha ao Senado custou R$ 968,1 mil, dos quais R$ 280 mil foram repassados a outros candidatos. Os recursos foram declarados e minhas contas aprovadas pela Justiça Eleitoral, de acordo com a legislação vigente.
O governador Tião Viana, com o sentimento de indignação dos injustiçados, reagiu de pronto a esse absurdo de forma enérgica. Todos nós que o conhecemos sabemos da sua retidão. Estamos longe desse mar de lama e vamos agora buscar na Justiça nossos direitos para assegurar a nossa honra.
Toda a ação política que tivemos no Acre é baseada no trabalho feito com honestidade. Foi assim comigo, com o governador Binho e o governador Tião. O mesmo na prefeitura de Rio Branco, comigo, com Angelim e Marcus Alexandre.
O povo do Acre nos conhece e sabe que, em mais de duas décadas de vida pública, nunca tivemos nossos nomes envolvidos em corrupção.”

José Agripino
“Em 2014 sequer fui candidato. Desconheço e repilo os fatos citados”.

Lídice da Mata
“Minha vida política sempre foi pautada pela ética e transparência. São 36 anos de atuação pública sem qualquer atitude que macule a ética que defendo. Não tenho e nunca tive qualquer tipo de  negócios com a Odebrecht ou qualquer  outra empresa. Todas as doações de campanha que recebi foram dentro da legalidade e devidamente declaradas conforme pode ser comprovado na prestação de contas disponível no  site do TSE / TRE-BA. Em cargos que ocupei minha idoneidade pode ser comprovada por nenhum aumento de patrimônio.

Em função das últimas notícias tenho atendido a todos os jornalistas que estão me procurando diretamente ou via Assessoria. Na sexta-feira (9/12), inclusive,  conversei por telefone com a Revista Veja que me procurou tão logo as primeiras informações começaram a ser divulgadas. Numa questão séria como essa é preciso prestar um serviço à população e informar quais doações foram feitas em conformidade com a legislação e diferenciar das “propinas” que caracterizam troca de favores.

Nossa atuação é honesta e às claras. E registro que o próprio delator reconhece não ter sido atendido por mim. Espero que tudo seja esclarecido rapidamente.  Continuarei representando e defendendo a Bahia de cabeça erguida”.

José Yunes
O assessor especial de Michel Temer disse ao jornal Valor Econômico: “Não conheço ninguém na Odebrecht e não tenho a mínima ideia do que seja isso”.

Anderson Dornelles, ex-assessor de Dilma Rousseff
“Informo que nunca estive em reunião na sede da Odebrecht, nunca solicitei ou recebi qualquer ajuda financeira, nem tão pouco autorizei terceiro que o fizesse em meu nome. Informo também que, em minhas funções nunca fui responsável pela agenda da ex Presidente da República Dilma Rousseff.”

Discussão

2 comentários sobre “Todos inocentes

  1. Agora ninguém conhece ninguém e todos os depósitos nas contas de campanhas foram motivadas apenas pelo civismo e altruísmo exemplar das empreiteiras. O que poucos falam é que nessa transação, os prejudicados fomos nós. É muito fácil ser empresário quando o governo pega emprestado dinheiro a juros de 15% e empresta as empreiteiras via BNDES a 5%, transferindo o resto do ônus para a população. Se o Brasil quiser reduzir significativamente a sua dívida pública basta fechar o BNDES.

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    Publicado por José Silva | 11 de dezembro de 2016, 22:52
  2. Ainda que as doações sejam legais, não consta que quem as fez foi motivado pelo voto de pobreza, como pregou Jesus Cristo.

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 12 de dezembro de 2016, 09:48

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