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Política

A história na chapa quente (15)

Desafio: decidir no 1º turno

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 242, de setembro de 2000)

Edmilson Rodrigues continua a ser o favorito na disputa pela prefeitura de Belém. Pela primeira pesquisa do Ibope, ganharia já no 1º turno. Até o dia da eleição, porém, pode haver novidades. Não só por parte dos adversários, como do próprio prefeito. Ele continua a ser a sua maior ameaça.

Se a eleição para a prefeitura de Belém tivesse coincidido com a primeira pesquisa de opinião do Ibope, realizada na semana passada, Edmilson Rodrigues conseguiria se reeleger já no primeiro turno. Como a sondagem ocorreu quando mal começava a propaganda eleitoral gratuita pelos meios de comunicação, que são o principal instrumento de acesso dos candidatos aos eleitores numa cidade como a capital paraense, essa primeira aferição confiável ainda pode sofrer modificações até 2 de outubro, dependendo do desempenho dos concorrentes, sobretudo diante das câmaras de televisão, e entre si.

Uma definição logo no 1º turno em favor do atual prefeito tem como trunfo seu relativamente baixo índice de rejeição, situado na mesma faixa dos candidatos que realmente disputam com ele a PMB (excetuando Duciomar Costa, o menos rejeitado de todos). Isto pode significar que a população já não reage tanto (por incompatibilidade ou preconceito) a uma administração do PT, graças a uma massiva propaganda oficial veiculando a mensagem de que o partido, ao contrário do que proclamam seus adversários, é “bom de governo”, e a obras de franco apelo popular, realizadas para gerar votos. O exercício do poder, através dessas duas linhas, foi mais positiva do que negativa para a imagem do PT.

Mas Edmilson Rodrigues perde força na passagem da manifestação espontânea para a resposta estimulada do eleitor. Na espontânea, ele tem 37% das preferências, contra apenas 20% da soma de todos os demais concorrentes. Na estimulada, a relação passa a ser de 47% contra 42%.

É que menos de um terço dos eleitores pesquisados que ainda não têm um candidato definido (35% do universo trabalhado pelo Ibope na pesquisa espontânea) optam por Edmilson quando lhes é apresentada uma relação de nomes para escolha. Ou seja: há uma tendência mais forte de enfraquecimento da candidatura de Edmilson à medida que o debate eleitoral se intensificar e aprofundar, penetrando na seara dos indecisos.

A medida dessa sangria vai depender das alternativas que o eleitor descobrir no curso da campanha. A maioria está preferindo Edmilson porque aprova o trabalho realizado pela administração do PT e por não encontrar nomes melhores do que o dele. Essa maioria prefere manter como está a arriscar-se a uma involução.

Falta de alternativa

O fator determinante para a vitória de Edmilson Rodrigues em 1996 pode ser decisivo novamente agora: se ele não é o ideal, nem mesmo o melhor isoladamente, é melhor proporcionalmente do que os outros. Mas muitos eleitores podem mudar essa visão se forem convencidos a pensar de outra maneira.

Quem pode convencê-los de tal? Hoje, é o candidato do PSD, Duciomar Costa, o segundo na pesquisa do Ibope e o candidato com o menor índice de rejeição (16%). A capacidade de progressão do deputado, no entanto, parece limitada a algo em torno de 20 a 25%, com o risco de regressão se ele não tiver um bom desempenho no programa de televisão.

Ainda, fatos que levem à reprovação do nome dele, mas poderão surgir se, para se contrapor à tendência de fortalecimento da sua condição de vice-líder nas pesquisas, começarem a aparecer denúncias de exercício ilegal da profissão de oftalmologista, que enredaram Duciomar com a polícia. Contudo, também não há argumentos sólidos em defesa de sua imagem de administrador.

O candidato oficial

Essa situação poderá se modificar se o governador Almir Gabriel tomar Duciomar como o seu verdadeiro candidato. É claro que Duciomar não chegaria à posição em que se encontra no momento sem o calor, informal e de bastidores (mas não tão explícito como quer o candidato), da máquina estadual. Mas o candidato do governador ainda é o seu correligionário, o tucano Zenaldo Coutinho (flutuando – se é que Zenaldo pode flutuar – entre a 3ª e a 4ª posições).

Alguns marqueteiros dizem acreditar que a máquina oficial arrastará o deputado federal do PSDB para o topo do ranking, fazendo-o passar para o segundo turno ao lado de Edmilson, com a possibilidade de derrotá-lo nesse returno eleitoral. Mas se essa possibilidade não assumir contornos mais nítidos nas próximas duas semanas, será muito arriscada para o governo do Estado a estratégia de tratar Zenaldo como candidato oficial ou preferencial e Duciomar como linha acessória, inversão, para efeito de planejamento político, da situação real, fática. O que poderá ser fatal para ambos, mas providencial para o postulante seguinte, Vic Pires Franco.

O deputado federal do PFL ainda está no limbo, bem atrás de Duciomar. No entanto, a maior taxa de crescimento da pesquisa espontânea para a estimulada é dele, que pula de 4% para 11% (quase três vezes), enquanto Duciomar, o segundo em incremento proporcional, vai de 11% para 20% (menos do dobro).

Como o prefeito, por estar no cargo (podendo, entre outras coisas, sacar contra o erário para promover sua imagem), e Duciomar, em função de um assistencialismo permanente, que pratica há tempos, deram a partida eleitoral de um ponto mais avançado do que os outros, esse crescimento exponencial da candidatura de Vic pode significar que ele vai continuar a evoluir a taxas superiores, graças à sua maior habilidade em lidar com a imagem, especialmente a televisiva.

Candidatura Vic

Só isso, porém, não o elegerá – e talvez nem possa garanti-lo no 2º turno. Duas coisas pesam contra ele. Em primeiro lugar, a outra face da sua juventude e da sua boa imagem: o eleitor pode aprová-lo como locutor de televisão, mas não como prefeito, descrente do estereótipo de “mauricinho”, “play-boy”, bem-nascido.

Em segundo lugar, pesa contra Vic a visagem que se projeta atrás do seu perfil, do ex-prefeito Hélio Gueiros. Seu alto índice de rejeição, o maior entre todos os candidatos que estão de verdade na disputa, deve-se a Gueiros, ainda considerado o patrono da candidatura e quem, na prática, seria o prefeito. Vic, se eleito, não passaria de marionete.

Essa é uma sequela do estranho processo interno do PFL, inteiramente dominado por Gueiros até horas antes do final do prazo para a escolha do candidato na convenção. O que deveria ser mera sagração, conforme sua vontade, se transformou numa virada contra o ex-prefeito.

Cansaço do povo

O deputado federal pefelista poderá controlar esses aspectos negativos se conseguir demonstrar que se libertou da dependência do correligionário e projetar uma imagem de administrador (podendo até utilizar-se para isso de obras de Hélio, sem citá-lo, porém). A pesquisa do Ibope deixa bem realçado esse recado do eleitor: o povo de Belém está cansado das velhas oligarquias, das elites parasitárias, do descaso pela cidade, do político enquanto profissional da retórica e da encenação, das promessas vãs.

Em parte, o eleitor está sendo obrigado a admitir a prática de alguns desses vícios. Mas, pelo resultado da sondagem, ele também parece estar convencido de que o saldo atual é positivo, mesmo que por estreita margem. Só vai querer mudar se for convencido a acreditar no novo. A desilusão com a administração do PT ainda não é dominante, como majoritário não é o desencanto com o governo Almir Gabriel.

Isso, apesar de ambas as figuras não conseguirem catalisar pessoalmente os efeitos positivos de tal aprovação (é como se a administração pública estivesse fazendo melhor, apesar deles). Parece que o eleitor dá nota superior aos governos a despeito dos homens que os lideram, mais por temer que, com outras lideranças, as coisas fiquem piores.

O povo não parece particularmente sensível aos efeitos maléficos do conflito entre o governador do Estado e o prefeito da capital. Sem uma imprensa capaz de mostrar a extensão e a profundidade dos danos, parece haver o reconhecimento de que existe um nível de acomodação natural capaz de permitir ao prefeito agir na esfera da sua autonomia sem colidir com a jurisdição do governo estadual. Ambos, em linhas paralelas, que não se cruzam nem mesmo para atos de educação, civilidade e cortesia, como na megafesta dos Yamada, mas somando, apesar de tal superposição (ou contraposição).

O povo de Belém (como o povo de todo o Pará) deseja essa integração com tanto ardor quanto rejeita, ao menos neste momento, o retorno a uma conflagração meramente política (desfavorecendo a posição do senador Jader Barbalho, que não tem cargo administrativo para mostrar obras de sua responsabilidade).

Se o governador tivesse podido apresentar um nome de confiança capaz de preencher esse modelo de administrador público (que está provocando alta rejeição a candidatos de ocasião, como esse Sheyk da selva de concreto), a reeleição de Edmilson Rodrigues estaria seriamente ameaçada.

Infelizmente para as legiões almiristas, não é tal o perfil de Zenaldo Coutinho nem. provavelmente, Duciomar Costa deverá se desencaixar dessa projeção na evolução da campanha, se enfrentar qualquer combate mais preciso e se o esquema oficial não passar totalmente para o lado dele, abandonando formalmente a nau do candidato do PSDB.

O PT e Edmilson

Mas há ainda uma outra variável: o desempenho de Edmilson Rodrigues no vídeo e em qualquer outro ambiente fora do palanque. Os resultados da pesquisa sugerem que boa parcela dos eleitores que estão optando pelo prefeito escolhem mais o PT como partido (como promessa, como mística, como realização) do que a sua personificação concreta.

O prefeito continua com o seu esgar padronizado, refratário a uma sintonia com o momento concreto e a causa específica, o que deve provocar algum mecanismo inconsciente do eleitor a um momento de indecisão: será o PT aquela pessoa? Aquela pessoa é o prefeito? É ele quem está realizando as obras que atraem para si a aprovação?

Edmilson Rodrigues, neste aspecto, tem certa semelhança com o ex-ministro Bresser Pereira, um homem inteligente e capaz de muita coisa, mas não de ajustar sua expressão fisionômica ao seu discurso, à realidade em torno, às exigências que se fazia dele a cada circunstância específica. Assim, o maior adversário de Edmilson Rodrigues continua a ser Edmilson Rodrigues.

Os petistas mais atilados não admitirão, mas é a partir desse reconhecimento que procuram evitar a maior exposição do prefeito, certamente uma das melhores maneiras de, mais uma vez, elegê-lo, transformando o acaso em uma necessidade.

Discussão

9 comentários sobre “A história na chapa quente (15)

  1. O tempo passou e as candidaturas a prefeito continuaram muito ruins, os mesmos adicionados de outros tao ruins quanto. Infelizmente parece ser essa a nossa sina, pois não há nenhuma perspectiva de melhora a curto prazo.

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    Publicado por José Silva | 12 de dezembro de 2016, 09:35
  2. O sisifismo da política profissional (corrupção para a manutenção do status quo) só terá um adversário à altura quando a democracia direta (total abstenção eleitoral) se sobrepor a nefasta “democracia representativa”, que se assiste.

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 12 de dezembro de 2016, 10:07
  3. Lúcio, eis aí algo que eu gostaria de perguntar: qual sua opinião sobre a saída de Vic e de sua (ex?) esposa da política? O que você acha que pode ter acontecido? Os dois chegaram a ser candidatos a prefeitos; Vic não perdia eleições para deputado; Valéria foi vice de Jatene; e, antes de 2010, Valéria era tida como favorita ao senado. Qual a razão para essa saída súbita da política?

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    Publicado por Jonathan | 12 de dezembro de 2016, 13:48
    • Eis um dos mistérios da política paraense. O Vic perdeu a reeleição, a Valéria ficou em quarto lugar numa eleição para a qual era apontada como favorito e o casal desistiu de vez. Mas nunca apresentou os motivos da desistência, exceto pela razão objetiva que se impôs.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 12 de dezembro de 2016, 14:49
  4. Li na época que os Pires Franco abandoram a política que o motivo foi a falta de empenho do Jatene em lançar Valéria candidata ao Senado. O atual Governador na época optou por lançar uma única candidatura pra senador, se não me engano o Flexa, facilitando assim a eleição do Jader, na época seu aliado não declarado, hoje seu inimigo mortal.O lançamento de uma única candidatura ao senado da finada União pelo Pará, facilitou a eleição de Jader e os Pires Franco viram nessa atitude do Jatene uma traição.

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    Publicado por Hiran Martins | 13 de dezembro de 2016, 00:53
    • Com quantas traições costuma ser feita uma carreira política? Pode ter sido uma razão para a desistência temporária. Pouco provável de ser causa definitiva.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de dezembro de 2016, 08:24
      • Ainda vemos a foto da Valéria em cartazes imobiliários. Continuou trabalhando no ramo a que pertencia antes de entrar para política. Mas e quanto a Vic Pires? Talvez o problema tenha sido de ordem estritamente pessoal.

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        Publicado por Jonathan | 13 de dezembro de 2016, 12:52
      • Pode ser. A Valéria não usa mais as fotos. As que ainda aparecem por aí são remanescentes da tentativa que ela fez de se antecipar ao período legal da campanha eleitoral se valendo da condição de dona da empresa imobiliária.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de dezembro de 2016, 19:36

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