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Política

AI-5: foi há 48 anos

Escrevi este texto exatamente 10 anos atrás, em 2006. A Fundação Perseu Abramo me pediu um texto pessoal sobre o AI-5. Queria saber, como a outras pessoas consultadas, como eu recebera o edito da ditadura, baixado em 13 de dezembro de 1968. Republico o texto para alertar os desavisados, seduzidos por um novo golpe e tentando seduzir os que não passaram por uma ditadura.

Eu tinha 19 anos, era poeta, estudante de sociologia e repórter quando um telegrama de uma agência nacional de notícias chegou à redação do jornal A Província do Pará, em Belém, onde eu então trabalhava, anunciando que o governo acabara de editar o AI-5.

Um dos subscritores do documento era o ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, até pouco mais de dois anos antes governador do Pará, o único dos personagens daquele ato sinistro que eu conhecia pessoalmente. Senti de imediato o impacto. Para mim, que em março de 1964 tinha 14 anos, era a complementação do golpe de mão sobre o governo, acabando com a liberdade de que ainda desfrutávamos, pondo fim à esperança no futuro e à confiança no presente.

Quatro meses antes eu participara da ocupação da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará, na última grande irrupção de energia do ano que não terminaria. Varara madrugada datilografando um documento de avaliação da reforma educacional embutida no Acordo MEC-USAID, produzido por uma comissão paritária de professores e estudantes.

Nesse documento, fazíamos sugestões, acreditando na promessa do governo Costa e Silva, de ouvir a comunidade acadêmica antes de implantar a reforma nos campi. Aqueles papéis, que me haviam consumido tantas horas de trabalho, foram recebidos por um assessor do general-presidente, que passava meteoricamente por Belém, e jogados sem cerimônia num cesto de lixo do próprio aeroporto, pouco depois. Nem chegaram ao destinatário. O assessor sabia que aquela democracia era uma farsa à espera do momento adequado para revelar sua verdadeira face.

Quando li o texto do AI-5, no momento em que ele chegou à redação, percebi que uma etapa da minha vida acabara. Poucos dias depois viajava para São Paulo, para estudar e trabalhar no lugar que eu já então previa que seria o olho do furacão, pelos cinco anos seguintes. Não queria mais ficar à distância da história, na (àquela época) remota Amazônia.

Minha geração nunca mais seria a mesma depois do AI-5, um concentrado de ditadura preparado sem escrúpulos, como admitiu Passarinho, ao assinar aquele terrível papel. Tivemos que crescer e resistir na fase mais negra da república brasileira, na qual, como no belo e triste poema de Bertolt Brecht, a inocência passou a ser sinônimo de insensibilidade, como nos momentos de grandes crises, quando a verdade se escreve na pedra – em geral, de uma lápide sem flores.

Discussão

5 comentários sobre “AI-5: foi há 48 anos

  1. Lucio,

    É importante sempre lembrar o que é uma ditadura, pois sempre há gente que essa é uma solução mágica para os nossos problemas.

    Mudando de assunto. Qual é a sua avaliação do acordo do MEC com a USAID? Houve algum progresso com o acordo? Eu estudei em uma escola pública construída com base nesse acordo e que imitava as melhores práticas das escolas americanas. Para mim o resultado foi muito bom, pois tive acesso a uma biblioteca maravilhosa, livros excelentes e laboratórios acima da média.

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    Publicado por José Silva | 13 de dezembro de 2016, 11:45
    • Qual foi a escola, para termos uma boa referência concreta?
      O acordo MEC-Usaid foi a versão americana da educação técnica da reforma do Mussolini na Itália. À parte a ideologia, foi uma tentativa séria de formar quadros técnicos especializados, desviando parte dos alunos da busca por um diploma sem eficácia. Em ambos os casos a proposta foi mais audaciosa do que a sua execução.

      Curtir

      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 13 de dezembro de 2016, 19:33

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