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Imprensa, Política

Ave de rapina

O Repórter 70, a principal coluna de O Liberal, abre a edição de hoje com a seguinte nota:

Sem limite

Ladrões invadiram uma residência atrás do Shopping Boulevard, na noite do último domingo, amarraram o casal dono da residência e a mãe dele – uma senhora idosa -, e protagonizaram cena horripilante. Depois de baterem bastante nas vítimas, cortaram dois dedos da idosa e atiraram no filho que, atingido na veia femural, está em estado grave em uma UTI, correndo o risco de morrer por ter perdido muito sangue. A esposa dele e a mãe também estão hospitalizadas e se recuperando da agressão e do estado de choque. Recorrer a quem?”.

Como o fato é realmente grave e assustador, a indignação da coluna procede. O jornal que a publica, para ser coerente com o destaque, certamente publicou uma reportagem sobre a violência desmedida dos bandidos. Seria o natural e lógico. Mas nenhum texto nas duas páginas de polícia nem no caderno de cidades. Nada.

A nota do Repórter 70 é, em termos jornalístico, nada mais do que uma pauta, uma indicação e um alerta. A reportagem do mesmo jornal teria que secundá-la (o correto seria antecedê-la) com os dados necessários para melhor esclarecimento do fato. Como os nomes das pessoas, a idade da pessoa idosa, o seu estado de saúde e o do filho, o que a polícia fez, pistas dos agressores e etc.

A nota da coluna não teve o propósito de bem esclarecer o leitor. Podia ter destacado que o bairro do Reduto, antes pacato, embora entregue à própria sorte, justamente por isso se tornou um dos mais perigosos da cidade, onde seus moradores estão expostos à roleta russa da violência, que já não tem mais padrão algum.

Como todos os demais moradores de Belém, que avermelhou pelo sangue que a violência cotidiana a faz derramar todos os dias, como se estivesse em guerra. Mas o Reduto tinha o encanto de ser fronteiriço a tudo e ter uma índole conservadora, de lugar interiorano, no qual as pessoas se conheciam e se falavam na rua. Hoje, quem nele habita ou por ele circula anda com receio multiplicado para os parâmetros de pouco tempo atrás.

O propósito de O Liberal, porém, não é este: é disparar pela muito lida coluna recados e ameaças, aproveitando-se eventualmente de fatos reais e causas nobres. No caso, atingir o governador Simão Jatene, que, como seu colega tucano Zenaldo Coutinho, não estão agradando ao executivo Romulo Maiorana Jr., que manda na coluna.

O alvo é o secretário de segurança pública, general Jeanot Jansen da Silva Filho. Sua escolha foi um erro, reiterado pela sua permanência no cargo até hoje. Não disse a que veio. Mas veio por intermediação do desembargador Milton Nobre. Jatene o adotou e o prestigia, a despeito dos maus resultados (ou da falta de resultados) da gestão do secretário.

Ele se tornou o alvo porque Milton Nobre, sabe-se lá por qual motivo, virou desafeto de Romulo Jr., que agora ataca tanto o governador quanto o prefeito da capital, provavelmente pelo pequeno e incerto comparecimento aos cofres da empresa com a publicidade oficial.

Não importa saber que os cofres públicos estão na fase de vacas magras (ou emagrecidas à base do assalto ao erário) e que os dois governos têm pelo menos o mérito de estarem pagando em dia o funcionalismo. São exceção num panorama de inadimplência das administrações públicas. Pode ser que os baixos salários da massa, em contraste com os ganhos dos marajás, contribua para essa pontualidade. Mas ela é um mérito inegável.

As empresas de comunicação (referência extensiva ao grupo do senador Jader Barbalho), que fazem parte da comunidade, deviam refrear seus velhos ímpetos de sangrar os cofres públicos e deles arrancar o que lhes falta no mercado. No entanto, o que se vê é o contrário: as aves de rapina, insaciáveis, querendo o que pode faltar no bolso do trabalhador.

Discussão

8 comentários sobre “Ave de rapina

  1. O mercado tá tão ruim que dele não se pode mais arrancar nada. Está é a razão desse foco nos governos, pois da sacola da viúva tudo pode sair sem constrangimento. Entretanto, creio que a sacola da viúva também secou. Qual será a nova estratégia de sobrevivência?

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    Publicado por José Silva | 13 de dezembro de 2016, 20:47
  2. Prof Lucio já não é hora de dimensionar a real influência e profundidade que os dois jornais têm na opinião publica? Falo como leigo e desentendido, mais creio que eles já não tem mais a importância que por acaso tinham ou que seus controladores ainda pensam ter.

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    Publicado por Arlindo Carvalho | 13 de dezembro de 2016, 22:58
    • Os poderosos, porém, continuam se submetendo às – digamos assim – pressões. O momento atual seria oportuno para que Jatene e Zenaldo, que sabem muito bem as razões de estarem sendo atacados, se inspirarem na importância dos cargos que o povo lhes concederam e pagarem para ver. Não alimentarem mais essa matilha com os recursos do erário.
      Vamos fazer um teste: quem localizar um anúncio do governo ou da prefeitura de Belém, mande imediatamente uma mensagem.

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      Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 14 de dezembro de 2016, 08:48
      • Há alguma lei que torce o governo a publicar nos jornalões? Se não houver, não há porque se submeter às pressões.

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        Publicado por José Silva | 14 de dezembro de 2016, 10:04
      • A publicidade institucional, não. Só há obrigação de publicar, apenas num jornal de grande circulação, a publicidade obrigatória, como editais, avisos ou balanços, quando cabíveis.

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        Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 14 de dezembro de 2016, 10:10
      • Então está resolvido…Publicar propaganda institucional nos jornais de Belém é basicamente perder dinheiro do contribuinte!

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        Publicado por Jose Silva | 14 de dezembro de 2016, 16:49
  3. Lucio ,

    Se os governos estadual-municipal do PSDB sabem , e muito bem, com que tipo de imprensa lidam , não deveriam dar motivos para serem achincalhados por ela .
    Concordo que é um mérito dos governos locais pagarem as contas dos seus funcionários no final do mês , num contexto em que outros declararam falência pública por diferentes razões , deixando de pagar alguns meses e até fazendo pagamentos parcelados .

    Agora , é inegável o total desprezo que o governo do PSDB estadual-municipal tem demonstrado para o grave problema social da matança generalizada de jovens na periferia da cidade , e as mortes por agressão e homícídio de um modo geral seja em Belém , seja no interior do estado .Além de sabermos das condições prisionais degradantes e violentas , tidas como uma das piores do pais .

    A situação é revoltante e os dados já repercutiram em âmbito nacional e internacional há mais de dois anos , quando divulgou-se em artigo acadêmico que a causa externa mais letal da população tem sido os homicídios , num quadro que vem evoluindo desde o ano 2000.
    Em termos comparativos , para se ter uma ideia da situação , enquanto São Paulo ( com 11 milhões de habitantes e conhecida por frequentes chacinas ) apresentou em 2010 , uma taxa de aproximadamente 14 casos por grupo de 100 mil habitantes , Belém apresentou 64 casos por 100 mil . No mesmo período a taxa para o Brasil era de 27 casos por 100 mil , enquanto que no Estado do Pará era de 46 casos por 100 mil . Além disso , 47% das agressões fatais ocorridas em Belém tem como vitimas jovens entre 15 a 30 anos , ou seja, uma população também em idade produtiva .E quase 70% deles mortos por agressão , e vitimas de chacinas.

    Por que o governo do estado não adota uma politica decente de segurança pública da população ?

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    Publicado por Marly Silva | 14 de dezembro de 2016, 17:00

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