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Política

A história na chapa quente (17)

O sim é o não

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 244, de outubro de 2000)

Mesmo se reeleger Edmilson Rodrigues, o eleitor de Belém estará dizendo um não às velhas lideranças políticas do Pará. O atual prefeito ainda consegue encarnar algumas das esperanças que o fizeram vencer a disputa há quatro anos, graças a obras populares, ao carisma do partido e ao uso da máquina municipal. Mas o crescimento das opções por Duciomar Costa serve de alerta para a eleição de 2002, cuja campanha já começou.

Há um elo entre as eleições de 1996 e de 2000 em Belém: o povo da capital paraense não quer o retorno das velhas lideranças políticas do Estado. Qualquer que venha a ser o resultado da votação do dia 1º, os maiores nomes do poder estadual já foram derrotados.

Com uma campanha milionária e acabando por se envolver diretamente na propaganda, o que até então os marqueteiros vinham evitando, o governador Almir Gabriel não conseguiu colocar o seu candidato, o deputado federal Zenaldo Coutinho (PSDB), no páreo decisório. Desses limites sempre permaneceu de fora o candidato do senador Jader Barbalho, o ex-prefeito Augusto Rezende (PMDB).

Boicotado pelo maior grupo de comunicação do norte do país e alcançado pelos respingos do alto índice de rejeição ao ex-governador Hélio Gueiros, o deputado federal Vic Pires Franco (PFL) dilapidou o patrimônio que lhe dera a condição de ter sido o parlamentar mais bem votado em Belém na última eleição.

A reeleição de Edmilson Rodrigues, já no primeiro turno, ou apenas no segundo turno, confirma essa tendência: o candidato do PT se manteve como favorito provavelmente porque ainda não está identificado com os velhos caciques políticos (ou ainda não é identificado como tal pela maioria dos eleitores).

À força de obras disseminadas pela cidade (várias realmente populares, mas muitas delas nitidamente eleitoreiras), de uma propaganda massiva, da mística que ainda subsiste em torno da legenda do seu partido (principalmente quanto à honestidade) e do uso da máquina oficial, Edmilson suportou os efeitos da campanha sem cair de uma posição próxima da metade das preferências nas pesquisas de opinião, que, desta vez, assumiram a feição de autêntico caso de polícia.

A uma semana da eleição, faltavam dados seguros para prever se realmente seria factível uma definição no 1º turno. Apesar dessa margem de incerteza, o grupo Liberal não vacilou em abrir manchete de primeira página, na última edição dominical, proclamando a inevitabilidade do 2º turno, com uma surpreendente reviravolta: a vitória de Duciomar Costa, nominalmente candidato do PDS, mas, na verdade, uma espécie de PSDB do B, sobre Edmilson Rodrigues.

À margem da eleição

A intensa atuação das Organizações Romulo Maiorana nos bastidores do processo eleitoral deste ano em Belém constituiu um capítulo à parte, uma marginália capaz de criar um campo gravitacional próprio, muito além do alcance da justiça ou do ordenamento administrativo público. O grupo Liberal perseguiu vários objetivos.

Conseguiu dois deles: inibir o crescimento da candidatura de Vic Pires Franco, interditado desta vez pela família Maiorana como seu inimigo preferencial, e criar um trampolim para Duciomar Costa se projetar. Um outro foi só parcialmente obtido: frear o crescimento de Edmilson (sabotagem apenas iniciada e abortada). O último dos alvos se frustrou: viabilizar a candidatura de Zenaldo Coutinho.

O fracasso do esquema do governador é uma das principais consequências da disputa em Belém. Mesmo sendo o governante que mais obras realizou na capital nos últimos anos, uma das quais, a macrodrenagem das baixadas, de efeito multiplicador expressivo, Almir Gabriel não conseguiu transferir para Zenaldo os dividendos políticos das realizações administrativas.

Ao aparecer na propaganda eleitoral defendendo seu candidato, sem fazê-lo subir na preferência dos eleitores entrevistados pelas pesquisas, expôs-se aos mesmos desgastes: o povo que lhe dá apoio como administrador não vota (ou não vota na mesma proporção) nele como político, ou em seus aliados. Ao que parece, o governador já entrou na faixa de desgaste em que se encontram as lideranças políticas mais antigas do Pará.

Sem nova liderança

Esse é um dado significativo para a próxima eleição, de 2002. Indica que Almir Gabriel precisará de uma boa base de sustentação se quiser se eleger senador. Tendo que se desincompatibilizar do governo, precisará deixar em seu lugar alguém de extrema confiança e de alguma competência, que não o atrapalhe e possa multiplicar os votos. Quem poderia se acomodar melhor nesse figurino seria o vice-governador, Hildegardo Nunes.

O problema é que Hildegardo é do PTB e não do PSDB, já está montando um esquema de poder independente para assegurar a sua candidatura (provocando ciumeira entre os tucanos) e tem um apetite voraz. Almir poderá barrá-lo se decidir permanecer no cargo até o fim do seu mandato, escolhendo outro nome para sucedê-lo.

Ainda restaria a alternativa da rebelião para o filho do ex-governador Alacid Nunes, mas ela o deixaria enfraquecido (com o agravante de possíveis mudanças na legislação eleitoral para acabar com a reeleição ou impor a desincompatibilização a todos os candidatos).

O governador ainda tem tempo, embora não muito, para encontrar um nome confiável com maior densidade e melhores atributos do que Zenaldo Coutinho para contrapor a Hildegardo no âmbito da sua coligação, ou, não conseguindo essa solução, sacrificar os sonhos senatoriais e continuar a comandar a máquina estadual para colocá-la a serviço de uma candidatura de circunstância. Mas já advertido, pela disputa deste ano na capital, de que fórmulas mágicas, como a que permitiu a eleição de Luiz Otávio Campos, o “senador do governador”, não são eternas, nem universais.

O futuro de Jader

Já o senador Jader Barbalho nem esse tempo mínimo tem mais. Não por mero acaso, ele já começou sua campanha eleitoral para tentar voltar (pela terceira vez) ao governo do Estado ou tentar mais uma vez o senado (alternativa ainda remota), em 2002. Jader deve saber que em alguns redutos seu índice de rejeição aumentou e, em outros, o que se elevou foi a taxa de esquecimento do seu nome. Ele já está bem perto daquele caminho sem volta que fulminou a carreira de Jarbas Passarinho quando ele se distanciou da base eleitoral e, com isso, referendou, pela omissão, o discurso dos adversários.

Por mais que consiga a presidência do Senado e se manter à luz dos refletores da imprensa, é pouco provável que a carreira nacional de Jader vá mais longe de onde se encontra agora. Sustentá-la permanecendo mais tempo em Brasília é expor-se ao mesmo risco de Passarinho.

Trocando Belém pelo interior, Jader está tentando recuperar ou consolidar suas fontes de votos. Enquanto isso, usa Augusto Rezende como se fosse um apagador dos borrões que mancham a sua imagem na capital, na expectativa de ainda poder resguardar um terço dos votos nesse reduto.

Belém já só representa pouco mais de um quinto do colégio eleitoral paraense. Mas se não garante uma eleição majoritária, pode inviabilizá-la, caso o índice de rejeição do candidato na capital chegue a um valor muito alto, para onde aponta uma tendência em relação a Barbalho.

Se efetivamente desviar seu rumo do Senado para o governo do Estado, é quase certo que Jader vá encontrar Edmilson no caminho. O prefeito armou sua aliança política prometendo ficar no cargo até o fim e apoiar outro nome para o governo, sua correligionária Ana Júlia Carepa ou o senador Ademir Andrade (PSB).

A perspectiva de Edmilson

Mas essa pode ser uma história da carochinha. Reeleito, ele dará o passo que falta para apresentar sua candidatura como a primeira do PT com possibilidades reais de vitória na principal disputa no Estado dentro de dois anos.

Sairá de Belém com mais votos do que qualquer outro concorrente. Mas, e o interior? O governador Almir Gabriel terminará a eleição municipal deste ano com a maior fatia dos votos, mas deverão estar com Jader Barbalho alguns dos principais colégios (como Santarém, Marabá e Castanhal).

A participação do PT nesses currais ainda será residual, a mais expressiva, entretanto, de toda a história do partido. Já tendo percorrido alguns dos municípios, Edmilson deverá dedicar boa parte do tempo na nova gestão, se a obtiver, para ampliar seu raio de expectativas no Estado.

O interior (um conceito necessariamente falho em sua generalidade diante da diversidade de situações no vasto território paraense) poderá dar o mesmo recado que a capital está mandando aos políticos através das sondagens prévias? Certamente não. Mas a ânsia de renovação parece permear todos os redutos eleitorais. Pode até ser imprecisa, não ter direção certa ou mesmo estar completamente equivocada, mas a busca existe.

É o que explica, ao menos em parte (a visível), o crescimento da candidatura de Duciomar Costa, o mais cotado para dividir com Edmilson Rodrigues a cédula eleitoral no 2º turno em Belém, e que chegou mais perto dele do que podia imaginar a vã filosofia petista. O eleitorado terá motivos para se arrepender dessa opção no futuro.

O governador Almir Gabriel poderá pagar caro por essa aliança – e isso, não apenas em sentido figurado. Mas o eleitor, desesperançado, maltratado e muitas vezes enganado por aqueles aos quais destinou seu voto no passado, parece disposto a aceitar o pior depois, desde que seja o diferente agora. Quer uma novidade, na esperança de que ela mude uma situação na qual já não acredita, ainda que esteja trocando o seis pela meia dúzia. Ou o XIII pelo 13.

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (17)

  1. Bem interessante. A aura de honestidade do PT esvaiu-se, o Vic deixou a política, e o Duciomar desapareceu. Entretanto, a dinâmica política continua a mesma, com os mesmos princípios (ou falta deles) e mecanismos do toma lá, dá cá. Alguém tem que criar uma teoria mecanicista para explicar a falta de capacidade de uma sociedade em voltar ao mesmo status quo após cada decisão fracassada.

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    Publicado por José Silva | 14 de dezembro de 2016, 09:58
  2. Pelo sim, pelo não: o uso do cachimbo deixa a boca torta ou a ideia dominante é a ideia da classe dominante?

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 14 de dezembro de 2016, 10:58
  3. Bom artigo. Tá interessante essa série.

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    Publicado por Jonathan | 14 de dezembro de 2016, 23:45

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