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Política

A história na chapa quente (18)

Elite predadora

(Arigo publicado no Jornal Pessoal 242, de setembro de 2000.)

O governador Almir Gabriel e o senador Jader Barbalho querem realmente a conclusão das eclusas do Tocantins, para permitir a transposição da barragem de Tucuruí pela navegação fluvial? Então deveriam ter estado juntos em Brasília, no último dia 17, na audiência com o presidente da República.

Ao invés disso, o governador e o presidente nacional do PMDB estiveram em audiências isoladas, em horas distintas, nesse mesmo dia, com Fernando Henrique Cardoso. O presidente fez de conta que estava dizendo uma novidade a cada um dos interlocutores: o governo federal vai liberar mais 70 milhões de reais para a continuidade das obras neste ano, completando os R$ 100 milhões previstos no orçamento antes de o contingenciamento reduzi-lo para R$ 30 milhões.

Os principais líderes políticos mostram-se incapazes de um mínimo de convergência, estejam lidando com grandes temas, quase unanimidades estaduais, ou com o varejo do clientelismo paroquial. Cada um quer tirar vantagem exclusiva para o seu grupo político e sua éntourage de poder. E, se possível, conseguir ainda o efeito suplementar de desgastar o adversário, numa obtusidade que, se tem exemplos no passado, nenhum deles excedeu ao caso atual, levado ao paroxismo.

Deve causar espanto ao presidente, alvo de tantas pressões cruzadas, tratar de uma obra de R$ 375 milhões em audiências separadas com dois homens públicos da mesma unidade da federação, que o procuram com a mesma demanda. A divisão, como sabe qualquer vereador de Placas, enfraquece o pleito.

Diferente seria se o governador e o senador estivessem juntos no gabinete presidencial, arrastando consigo toda a bancada federal do Pará (podendo sensibilizar ainda os representantes do Maranhão, Tocantins, Goiás e Mato Grosso para uma frente comum, do interesse circunstancial desses Estados).

Todos deverão estar no mesmo palanque da solenidade de inauguração, prometida para o final de 2002, mas para que haja palanque é preciso que a obra tenha acabado. A novela das eclusas, se arrastando há mais de 20 anos, chegará ao desfecho conforme o previsto?

Tudo, no Pará, parece ter sido contaminado pela disputa política entre os principais grupos no poder. Mesmo quando uma plataforma é comum a todos, como o sistema de transposição no rio Tocantins, não é possível uni-los em torno dos fins de interesse público.

Até as ocasiões sociais, de mero recreio, onde o que se exige é apenas a civilidade, a educação e os bons costumes, só podem se consumar com toda uma operação de guerra para acomodar cada um dos representantes de cada segmento do poder, sem expô-los entre si.

Foi assim na festa do cinquentenário do grupo Yamada, com espaços rigidamente delimitados para os grupamentos do governador Almir Gabriel, do senador Jader Barbalho e do prefeito Edmilson Rodrigues. Ao observador terá parecido que, ao invés de conjuntos de homens públicos, aqueles eram séquitos de piratas, de olho não só no interesse da coletividade, mas também – e às vezes sobretudo – no usufruto grupal dessas parcelas do poder. Sensação que só não é mais forte porque a imprensa, como aqueles macacos da tradicional propaganda de livro,  mal fala, mal ouve, mal vê.

O Pará, por sua riqueza, bem que caberia naquela velha história da criação do mundo por um Deus que não seria exatamente brasileiro, mas paraense. Ao final da distribuição das riquezas, com evidente tendenciosidade a nosso favor, o criador divino, questionado sobre esse favorecimento, poderia responder com mais especificidade: “mas esperem para ver a elite que eu vou colocar ali”.

É essa que vemos circular com desenvoltura, indiferente à terra e à história, toda voltada para o próprio umbigo – ou para o próprio bolso.

Discussão

5 comentários sobre “A história na chapa quente (18)

  1. Acho que a frase de Deus precisa ser ampliada…esperem para ver o povo que eu vou colocar aí…A tal elite não ficaria tanto tempo no poder se o povo não a apoiasse incondicionalmente.

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    Publicado por José Silva | 15 de dezembro de 2016, 08:57
  2. Qual povo? Aquele que tem a boa vida nas sinecuras oferecidas por bandidos políticos profissionais ou aquele que vende o almoço, quando tem, para comprar o jantar?

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 15 de dezembro de 2016, 09:40
  3. .Diz a antropologia que os rituais de passagem tem uma grande eficácia cultural na ” liga” de uma coletividade . A sociologia diz que um grupo social diante do inimigo comum tende a se unir , para preservar-se .Passado a ameaça externa ele tende internamente a “relaxar” os laços de união e assim vai…consenso/dissenso interno se alternando pela pressão de fora ..

    Será que isso pode funcionar na política paraense , daqui para a frente , para nos salvar da tragédia social que nos aflige ? Será que a classe politica pode dar uma trégua , deixar as divergências de lado e focar no bem comum ?

    Então, em nome da geração das crianças do Pará que hoje estão com 13 anos ( data emblemática) vivendo em barracos precários e expostos aos adensamentos excessivos e insalubres , em escolas precárias que lhes privam de uma experiencia estimulante e criativa , constrangida por uma renda familiar abaixo do mínimo necessário ao suprimento das necessidades básicas , e exposta à violência de toda ordem, será que o governador do Pará , Simão Jatene , um professor , ainda que afastado formalmente da sua função , será ele capaz de convocar os parlamentares que representam o estado , e se empenhar honestamente para constituir uma frente ampla e um movimento ,

    -pela Aprovação imediata da Lei da Compensação justa da venda dos minérios ? Será que os parlamentares que lhe fazem oposição , de sua parte , serão capazes desarmar-se para esta missão ?
    São trinta bilhões ( 30 bilhões) que nos são devidos pela União em ICMS . E que não foram pagos por por causa da inexistência dessa Lei , da omissão dos congressistas e da classe politica em geral. Uma falta gravíssima , absurda que deve ser corrigida .

    Milhares de crianças que estão na situação descrita , não estariam se esses recursos tivessem sido pagos .

    Será ?

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    Publicado por Marly Silva | 15 de dezembro de 2016, 11:56
  4. Ou seja, aquele que garante a boia por um dia ou aquele que a garante por quatro anos?

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 15 de dezembro de 2016, 18:04

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