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Política

A história na chapa quente (20)

Vitória antecipada,

derrota inesperada

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 245, de outubro de 2000, publicado pouco antes do 2º turno da eleição daquele ano.)

Edmilson Rodrigues tentou reduzir o PT ao seu grupo político, a Força Socialista. Perder uma reeleição que podia ter obtida até com facilidade, já no 1º turno, pode ser o preço a pagar por esse aventureirismo.

Para o partido, significará um enfraquecimento – talvez fatal – para a disputa do governo do Estado, em 2002, a primeira com possibilidade real de vitória. Para o prefeito de Belém, sem mandato a partir de janeiro, na eventualidade de derrota no dia 29, o provável descarte de uma candidatura majoritária dentro de dois anos.

O grupo de Edmilson é minoritário mesmo dentro do Partido dos Trabalhadores. Mas seu maior líder deixou de perceber o significado desse fato a partir do momento em que foi eleito prefeito de Belém, em 1996.

Qualquer observador isento da eleição municipal daquele ano concluiria que a vitória do candidato do PT foi muito mais produto do desgaste das velhas lideranças políticas no Estado, Jader Barbalho e Hélio Gueiros, rejeitadas pela maioria do eleitorado, do que dos méritos do arquiteto petista. Mas ele, depois de colocar os louros em sua própria cabeça, deixou de concordar com essa evidência. E com tudo o mais que não fosse a sua vontade.

A partir de então, Edmilson julgou possível expandir sua força combinando propaganda intensiva, obras de apelo popular e cooptação de militantes, dando-lhes cargos de confiança, sinecuras e fontes de renda, tudo isso precedido pela formação de uma guarda pretoriana, luas-pretas iluminadas por estrelas vermelhas.

A política do prefeito, entre palavras de ordem supostamente marxistas, era francamente bonapartista (ou, atualizando-a, fortemente gaullista em sua mecânica plebiscitária): quem não fosse a favor do prefeito, era contra ele. Quanto ao resto, era o resto, conforme uma frase do autor, pretensamente eufônica.

Aos cooptados, os favores do poder. Aos que resistiam à sedução, os rigores da marginália da lei, mais do que a lei em si. Estabelecidos os elos entre a cadeira do alcaide no Palácio Antônio Lemos e as assembleias do orçamento participativo, reunidas para atos mais de fervor executivo do que de diálogo democrático, decisório, Edmilson Rodrigues concebeu um plano. Teria mais um mandato, permitindo-lhe dele pular para a disputa do governo do Estado e ainda deixar uma retaguarda sob seu controle, para lhe servir de mola propulsora.

Só faltou combinar tudo com o eleitor e as circunstâncias. No fundo, talvez Edmilson tivesse acreditado na lenda engendrada e propagandeada por seu apparatchick (patota, numa tradução brasileira para o português), de que era o pastor de todas aquelas ovelhas, bastando-lhe circular entre elas, ter suas imagens registradas e retransmitidas no horário gratuito da televisão. Depois, era só ir buscar de novo o diploma de grão-vizir de todos os belenenses.

Só em parte essa visão estava correta. O povo realmente quer avançar mais um pouco na renovação, arriscando delegar poder às caras novas da política, expurgando as mesmices. É o que explica o PT quase ter dobrado (de 4 para 7) a sua bancada na Câmara Municipal, conferindo-lhe maior expressão na casa, de ser o partido com mais vereadores (um quarto do total).

Mas o prefeito não conseguiu sair da moldura derivada das sondagens pré-eleitorais: nunca abaixo de 40%; jamais acima de 47%. Ou seja: Edmilson não era o candidato, diferenciado entre os concorrentes em relação aos antecessores, mas um candidato, ameaçado no decorrer do tempo por uma tendência ascensional do seu adversário mais próximo, o insosso Duciomar Costa.

O que deveria ser o ápice da participação do PT nas eleições municipais deste ano no Pará tornou-se sua maior decepção. A estrela, mais uma vez (agora com uma vitória completa e não mais apenas com uma vitória moral, como aconteceu na disputa do Senado, em 1998), era Ana Júlia Carepa.

Com votos suficientes (quase 27 mil) para se eleger (de novo) deputada federal, ela se beneficiou do que deveria ter sido uma fonte de infelicidade: o boicote que sofreu da parte do prefeito. Constrangida a deixar a secretaria de Obras e isolada numa vice-prefeitura meramente formal, Ana Júlia recebeu votos além dos limites da sua conta pessoal, para serem debitados em vermelho contábil como na cartilha do alcaide, votos petistas anti-Edmilson.

Essa é uma modalidade de expressão política a ser considerada no segundo turno, tanto quanto o voto útil, embora de difícil mensuração pelas pesquisas porque dificilmente se assume de público. Ela pode corroer uma parte da votação que Edmilson teve no 1º turno, ameaçando fazê-lo cair abaixo do limite mínimo de 40% – o que, se confirmado, anteciparia uma vitória até folgada de Duciomar, contra todas as previsões, inclusive as dele proprio.

Não há alternativa favorável a Edmilson? Certamente há, mas não será fácil viabilizá-la nos poucos dias que restam até o 2º turno. Um outro dos seus erros resulta, como efeito indesejado e imprevisto, da profissionalização da militância: cargos de assessoria e remuneração por serviços que eram até então exercidos como voluntariado amoleceram a militância. Ela teve apenas discreta participação na campanha e na boca-de-urna do 1º turno. Será possível mobilizá-la de novo agora? É uma das incógnitas da equação do dia 29 [de outubro].

Edmilson Rodrigues pretendia sair ainda maior desta eleição. Se não conseguir, aprenderá uma velha lição: de que quanto maior a altura, maior o tombo. Principalmente quando a pessoa cresce sobre pernas de pau e pensa que forma, sozinho e com sua corte, o que só é possível em conjunto: uma história de mudança.

Discussão

4 comentários sobre “A história na chapa quente (20)

  1. E de lá para cá o Ed não mudou nada. Saiu do PT para montar o seu feudo no PSOL. E na sua campanha continuou o velho messianismo que o caracteriza tão bem. Mesmo cooptando aliados de última hora, não conseguiu vencer um candidato cuja performance como prefeito era risível. É aquela história: não adiantou nada o cara ir estudar, ler e se aperfeiçoar. A matriz totalitária continuou a mesma.

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    Publicado por José Silva | 21 de dezembro de 2016, 09:06
    • Com um marketeiro minimamente competente, Edmilson ganharia com folgas de Zenaldo. Mas certamente ele mesmo deve ter montado as suas “estratégias políticas” que julgou adequadas. Resultado: mais uma derrota.

      Eu votei em Edmilson, mas no fundo eu sabia que sua vitória seria zebra. Até mesmo quem não é cientista político percebe os erros primários que ele cometeu em campanha.Absoluta falta de estratégia e besteiras atrás de besteiras. No momento em que ele foi lá defender a Dilma – mesmo o PSOL se dizendo oposição ao PT (bugue na mente)-, eu pensei: “pronto! Já começou a derrota dele. Isso aí vai ser um prato cheio pro marketing zenaldista”.

      Pelo artigo, dá para perceber que Edmilson sempre perdeu para si mesmo. Por sua falta de estratégia política.

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      Publicado por Jonathan | 21 de dezembro de 2016, 14:14
  2. Só acidente daria ao pinto novo uma oportunidade, entre os galos velhos, de se regalar no lixo. Lembrando que antiguidade é posto.

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 21 de dezembro de 2016, 15:41

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