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Política

A história na chapa quente (21)

A crítica clandestina:

mais oculta que mostra

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 245, de outubro de 2000.)

Às vésperas do 1º turno da eleição deste ano, Belém foi inundada de exemplares de um jornal tabloide, de oito páginas, Edmilson Urgente, autodenominado “informativo especial”, com “tudo sobre os bastidores da prefeitura de Belém”. Apesar de se anunciar como o número um do primeiro ano de circulação, não tinha expediente indicando o responsável pela publicação.

Do ponto de vista legal, o jornal podia ser caracterizada como clandestino. A coligação Frente Brasil Popular agiu rapidamente junto à justiça eleitoral para conseguir a apreensão da edição. Tinha razões para desconfiar que o jornalzinho pudesse ter alguma relação com seus adversários no governo do Estado [do PSDB].

A forma adotada pela oposição ao prefeito de Belém era errada e a linguagem tinha a virulência própria de uma publicação de campanha eleitoral, acobertada pelo anonimato, moralmente condenável e vedado pela lei maior do país, a Constituição. Mas provavelmente as suas páginas abrigavam algumas das mais profundas críticas já feitas à administração municipal do Partido dos Trabalhadores.

Entre as críticas merecedoras de resposta estavam alguns pontos nevrálgicos do chamado “modo petista de governar”. Se seus pontos inovadores têm sido destacados, como a bolsa escola, o orçamento participativo e o banco do povo, outros aspectos vivem pendularmente entre olímpico silêncio de uns e distorções caricatas de outros. Raramente são discutidos com serenidade, sem o libelo acusatório dos que simplesmente são contra o PT, ou sem o fervor ideológico dos seguidores de Lula.

A gestão petista tem sua fauna acompanhante, que pode agir como base complementar, mas também como contraponto subterrâneo, ainda que necessário, à reação do establishment, engendrando outro “sistema”, com vícios assemelhados. É por isso que o panfleto Edmilson Urgente ataca uma série de empresas “alienígenas”, que têm acompanhado as administrações do PT pelo país, como a Emparsanco e a Bauruense, ativas no serviço do lixo, acusando a prefeitura de favorecê-las.

A publicação cobra explicações sobre a duplicação dos valores pagos pela PMB pela coleta do lixo e determinadas situações obscuras. A mais estranha delas envolve uma empresa individual que se registrou na junta comercial, em fevereiro de 1996, para explorar uma lanchonete e, menos de um ano depois, passou a fazer terraplenagem, aluguel de veículos e máquinas pesadas, limpeza urbana, higienização e conservação em geral.

No ano seguinte, estendeu sua competência a obras e serviços de engenharia, treinamento de recursos humanos, cadastramento imobiliário e topografia. Sem nunca ter saído da casa da sua dona, a empresa recebeu da prefeitura 3,5 milhões de reais em dois anos. Como surgiu, sumiu, à maneira dos fantasmas – ou dos “laranjas”.

Outro ponto sensível é a atuação da prefeitura petista no terrível setor de transporte urbano, um dos que mais faz o belenense sofrer. Conforme lembra o jornalista Edir Gaya em outro local desta edição, promessas e compromissos sustentados antes da vitória na eleição de 1996 não foram cumpridos.

O cartel dos ônibus não só permaneceu intocado como recebeu novos favorecimentos, na tarifa reajustada acima da inflação ou na proteção contra a concorrência (os “fresquinhos” deslocando as vans). Para culminar essa parceria, Edmilson Rodrigues ao lado da filha do presidente do sindicato dos donos de ônibus, no único outdoor do prefeito patrocinando um candidato à Câmara de Vereadores.

Mais um ponto delicado: a propaganda oficial. No mínimo, a mídia petista pouco ou nada destoou da que vinha sendo patrocinada à larga por Hélio Gueiros, antecessor cujas práticas Edmilson jurava expurgar da administração municipal.

Além de não seguir critérios profissionais e não guardar a menor coerência com os legítimos interesses da municipalidade, a intensiva verba publicitária drenou uma abundância de dinheiro para a agência oficiosa, comandada por um antigo militante petista. A informação dirigida e as relações públicas substituíram a informação enquanto prestação de contas, o diálogo democrático que o PT exigia enquanto era oposição, mas não adotou quando se tornou governo, ao menos em Belém.

A uma crítica mais contundente, a prefeitura petista costumou responder não com um esclarecimento, mas com propaganda. Manteve, assim, um círculo vicioso estabelecido em terras paraenses há algum tempo. Para ser beneficiada, a imprensa adota como tática o denuncismo barato ou a complacência extrema. Se sua crítica é seguida por anúncios, se cala. Se sua conivência não é premiada, rebela-se.

Em qualquer situação, o desentendimento é resolvido sobre um balcão de negócios, exceto se o objetivo do crítico não é tirar proveito pessoal, mas servir a opinião público. Nesse caso, a diferença de pontos de vista pode evoluir para um duelo ou uma guerra.

É por isso que as críticas publicadas no jornal clandestino da campanha eleitoral raramente apareceram na imprensa cotidiana regular. Se por acaso emergiram em algum momento, não tiveram continuidade. Se serviram a uma campanha, ela não se baseou em fatos, desviando-se para o editorial vazio. O combate foi mais o de propaganda e antipropaganda do que o de informação e contrainformação, como teria que ser no jogo democrático.

Por não cumprir o seu papel, a imprensa estimula desvios políticos, como o do boletim urdido nas “caladas da noite” para desgastar o candidato do PT à reeleição. Desgastando as próprias críticas, antes de mais nada. Inviabilizando o surgimento de um diálogo sério, necessário para uma melhor avaliação do que têm feito os petistas no controle da maior cidade da Amazônia. Por um fator simples: só merece respeito a crítica assumida, com autor identificado. Jornal anônimo, como carta anônima, se decide-se lê-lo, é para ler e esquecer. Felizmente. Ou infelizmente.

Discussão

2 comentários sobre “A história na chapa quente (21)

  1. Mais um conjunto de coisas estranhas praticadas pelo Ed e que permaneceram não investigadas posteriormente. O que aconteceu? Porque essas coisas todas foram empurradas para baixo do tapete. Entra governo e sai governo e a pratica continua a mesma.

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    Publicado por José Silva | 22 de dezembro de 2016, 09:08
  2. “Diz-se que”.

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    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 23 de dezembro de 2016, 18:51

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