//
você está lendo...
Política

A história na chapa quente (26)

Onde a esperança?

(Artigo publicado no Jornal Pessoal 247, de novembro de 2000)

O governador Almir Gabriel declarou que a campanha para a reeleição do prefeito Edmilson Rodrigues foi a mais cara já realizada em Belém. O prefeito Edmilson Rodrigues declarou que a campanha do seu oponente, Duciomar Costa, patrocinada pelo governador Almir Gabriel, foi a mais cara já realizada em Belém. Como de hábito entre políticos, ambos têm razão quando acusam. Mas não quando se defendem.

Se não estivesse ocupando o poder municipal, o PT jamais teria suportado a milionária campanha que fez neste ano para a prefeitura de Belém. A estrutura própria do deputado Duciomar Costa, incluindo as fontes ocultas de financiamento da sua fundação-biombo, não guarda a menor relação com o custo da ofensiva que quase lhe permitiu vencer Edmilson Rodrigues. Ambos foram para o confronto dispostos a recorrer a todos os meios, até mesmo os subterrâneos, para não perder. Nesse clima, só não valia o espírito olímpico. Era ganhar ou ganhar, o lema dos maus jogadores.

Finalizada a mais acirrada eleição municipal da história da capital paraense, o vencedor não se dispôs a reconhecer sua derrota moral e o perdedor não admitiu sua derrota real. Com o mesmo discurso de 1996, o prefeito reeleito classificou de histórica e monumental a sua vitória, insensível à diferença mínima – de 1,5% – sobre o adversário, sem paralelo no 2º turno de todas as capitais brasileiras.

Projetando artificialmente e superdimensionando além da conta o poder do contendor, o prefeito parece julgar-se um legítimo David contra Golias, o que talvez só se possa admitir se no bolso de trás desse David estilizado estivesse não uma baladeira (ou estilingue), mas uma metralhadora Uzzi.

Em 1996 Edmilson foi eleito pela primeira vez porque era uma alternativa e uma novidade em relação aos velhos coronéis da política paraense. Agora, a despeito de tudo, venceu porque a outra opção era pior. Os votos que asseguraram a magra e suada vitória do alcaide foram dados por eleitores que taparam os olhos, a mente e o nariz.

Uma forma diferente de administrar, mais limpa e honesta, ainda é buscada pelo povo. Mas Edmilson deixou de ser a expressão dessa ansiedade. E o PT pode perder seu lugar nessa moldura se não conseguir forçar seu prefeito a mudar de métodos.

Além dos elementos de uma guerra de manipulação e golpes baixos, o que parece ter salvado o PT na undécima hora foi a volta da militância às ruas, o elemento que distingue o PT dos demais partidos nacionais. Aqueles militantes que ficaram em casa ou foram anestesiados por cargos de confiança na administração municipal (um cala-boca vermelho), ou função remunerada (e negligenciada pela aparente profissionalização da campanha) no boca-de-urna do 1º turno, assustados pela iminência do pior conseguiram compensar o crescimento das opções por Duciomar nas faixas mais pobres da população e a pregação antiesquerdista entre as elites.

O povo e seus líderes

Mas Belém foi (e ficou) partida ao meio na eleição deste ano. Só o prefeito e seus acólitos não conseguem ver o que esteve à mostra, sobretudo no segundo turno, e ainda remanesce por toda a cidade. Muitas eram as casas ostentando ao mesmo tempo as bandeiras vermelha e amarela.

Famílias se dividiram por inteiro. Até carros circulavam bicoloridos. Apesar dessa cisão, o povo deu um testemunho de civilidade e tolerância que não foi seguido – e continua a ser ignorado – pelos líderes políticos.

Tudo indica que, por esse prisma, o Pará caminha para um confronto extremado, um antagonismo tão grande que não haverá trégua entre esta e a próxima eleição, em 2002. Os comandantes das duas facções que se enfrentaram em outubro se tornaram inimigos mortais, para os quais inviabilizou-se de vez a via da conversa civilizada e do entendimento tácito que a função pública deveria impor aos detentores de mandatos delegados pelo voto popular.

A dupla derrota feriu gravemente a estratégia do governador Almir Gabriel para os próximos dois anos. Ele não conseguiu tirar seu candidato, o deputado federal Zenaldo Coutinho, de uma posição meramente decorativa no 1º turno. Isto significa que, depois de ter carregado o ex-deputado Luiz Otávio Campos até o Senado, o governador já não pode dizer que elege um poste. E na relação nominal de possíveis candidatos do PSDB à sucessão estadual não há muitas alternativas que não sejam postes.

Além disso, a máquina estadual não transfere votos, nem converte em votos obras administrativas. Os votos passam a custar exageradamente caro, como aconteceu em Belém, mas não na quantidade suficiente para permitir o surgimento de fenômenos. Duciomar Costa foi um quase-fenômeno – ou, como se poderia preferir, forçando no palavrão, um epifenômeno.

A definição (ou diagnóstico) cabe como luva ao caso, vendo-o pela ótica médica ou filosófica. Duciomar não ameaçou a reeleição do prefeito apenas por ter recebido maciça ajuda da máquina estadual, que é o que Edmilson tenta impingir para levantar sua teoria de pé quebrado, de que a vitória foi estrondosa, apesar de pífia.

A miséria da (na) cidade

A doença social penetra em uma cidade quando só uma pequena parcela da sua população em idade de trabalhar consegue uma colocação regular ou, através de qualquer meio, uma sobrevivência mínima, estritamente suficiente para enfrentar o dia seguinte de incógnitas e assombrações.

A miséria de Belém engendrou essa figura que atende pelo nome de Duciomar, mas ele não passa de um epifenômeno, que não gera consciência sobre o problema de que é origem, nem o resolve. O que não chega a ser garantia de nada, já que a ameaça de opção pela miragem persiste. Se não foi agora, pode ser logo depois. A ameaça persiste.

Isto porque Belém – como o Pará – continua sem condutores coletivos válidos, sem projetos pertinentes, sem capacidade de decifrar o enigma que responde pelo crescimento do Estado como rabo de cavalo: para baixo. Indicadores quantitativos às vezes impressionantes resultam em indicadores sociais ainda mais espantosos por seu conteúdo negativo. Nesse chão escorregadio, extremamente perigoso, as lideranças patinam, seja na mão esquerda quanto na mão direita do caminho.

Só a corte estadual não vê que o governador subordina seu projeto para o Estado ao seu projeto de poder pessoal. Um, isoladamente, já não é grande coisa, mas existe. Submetido ao controle do aparelho de Estado, porém, torna-se uma caricatura ou uma deformação das suas intenções. Sujeita a tantas interferências deturpadoras, ainda assim a vontade popular insiste em não se harmonizar com os propósitos do governador. E ele teima em acreditar que sua sagacidade política contornará o problema e rearrumará as coisas.

O destino de Amir

Mas o campo de manobra de Almir Gabriel encurtou com a dupla derrota em Belém e o avanço da horda jaderista no interior. Ele só se situará no tabuleiro de 2002 numa posição de impor respeito se permanecer no governo até o final do mandato. Tal decisão significará a renúncia, talvez definitiva, ao sonhado mandato de senador.

Ele continuará teimando em fazer de um poste governador? Ainda acredita que é possível eleger Simão Jatene ou quetais do tucanato ao tucupi? Ou terá que se curvar a um Manoel Pioneiro, com um acompanhante conhecido além dos muros da Grande Belém?

Esse não é um dilema para se ter nas meditações de finais de semana. Mas o governador, que já escolheu como líderes parlamentares Luiz Otávio e Mário Couto, deve ter-se acostumado a tal companhia.

E quem levará a sério o anúncio do prefeito recém-reeleito de que ficará na PMB até o fim, não se desincompatibilizando do cargo para disputar o governo? Se Edmilson Rodrigues deixou de ser o maior líder político da terra para Edmilson Rodrigues, então é possível que ele aproveite sua posição para fortalecer uma outra liderança no PT paraense. É atividade de elevada pedagogia política, que não tem atraído o condutor do rebanho petista, Luís Inácio Lula da Silva, o eterno candidato a presidente da República.

O populismo de novo (novo?) estilo do PT perdeu no interior para o velho populismo de Jader Barbalho. O senador  parece ter trabalhado nesta eleição, na qual não era candidato, mais do que na que disputou, dois anos atrás (talvez por haver pressentido a ameaça real do fim da sua hegemonia política).

Talvez movido por seu proverbial realismo: ou restabelece seu carisma nas brenhas interioranas, com presença ativa, ou já pode começar a pensar não em ser senador, mas deputado federal. Jader está apostando em voltar a ser governador, deixando sua imagem nacional descansar (e suas já prejudicadas raízes locais se fortalecerem).

Neste quadro de possibilidades, há lugar para a esperança?

Discussão

6 comentários sobre “A história na chapa quente (26)

  1. Pelo menos até 2004, o PT paraense liderado pelo Edmilson era uma terceira via. Em 2002, a Maria disputou o governo e Jatene a venceu de forma apertada. Creio que essa terceira via se acabou em 2004 com a derrota – uma derrota humilhante diga-se de passagem- de Ana Júlia para Duciomar, na prefeitura. Depois disso,Edmilson migrou para o PSOL e voltamos para a polarização. A vitória de Ana Júlia em 2006 já foi uma vitória do grupo Barbalhista.,

    Curtir

    Publicado por Jonathan | 27 de dezembro de 2016, 10:23
  2. Talvez a única pessoa que o PT admite como algo do mesmo nível (ou pouquíssima coisa a mais?) seu é figura messiânica de Lula. O resto é resto.

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 27 de dezembro de 2016, 18:22
  3. Será que Lula “pensa” mais que Eduardo Suplicy, que Guido Mantega, que Aloísio Mercadante, que José Dirceu, que ….?

    Curtir

    Publicado por Luiz Mário de Melo e Silva | 28 de dezembro de 2016, 09:11

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: